sábado, 30 de janeiro de 2010

Uso contínuo

Desde cedo estive envolvida com remédios. Mãe e avô farmacêuticos, muitos médicos na família e muitas pessoas doentes por perto. Minha avó, por exemplo, toma 14 remédios diferentes ao longo do dia.

Hoje, o cara da farmácia veio em casa entregar uma sacolona cheia com os remédios da vovó. Vinham o antiparkinsoniano e o antidepressivo. Ela comentou que o médico colocou na receita que o antiparkinsoniano era de uso contínuo, reclamando que teria de tomá-lo por toda a vida. Como todos os outros 13 remédios.

É curioso como tomar remédios de uso contínuo afeta algumas pessoa. Vovó nunca se importou. Mas reconheço que tomar um remédio que tem a palavra "parkinson" no meio não é muito agradável. Ainda mais pra quem 91 anos.

Tem uma pessoa que eu conheço que toma anti-inflamatório constantemente. Ninguém mandou tomar, ela toma porque quer. Aí, teve um probleminha e precisou tomar um outro remédio de uso contínuo. É preciso ver a revolta desse ser vivo contra o tal remédio de uso contínuo. Contra o anti-inflamatório que ela toma constantemente, nem uma revoltinha...

Minha mãe é contra tomar remédios. Desde sempre ela me dizia para evitar. Mesmo nas minhas crises de enxaqueca. Foi só quando comecei a ir ao médico sozinha que descobri: se você tomar o remédio pra exaqueca na hora que a dor vem, terá menos dor, menos crises. Básico, né? Se hoje eu consigo viver com só uma crise por mês, é porque tomo o meu remédio de "quase" uso contínuo na hora certa. Sério mesmo, antes dessa rebelião, eu tinha dores todos os dias.

Vovó só incluiu mais um uso contínuo na sua lista. Ela está aí, com toda essa idade, forte e saudável, porque não descuidou da saúde. O uso contínuo dela é cuidar da vida.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Presente de uma amiga

Eu conheci a Ju na faculdade. De cara, gostei dela. Ficamos amigas, trocamos confidências e até hoje mantemos contato.


Um dia, eu apresentei a ela a Estante Virtual. Em retribuição, ela me mostrou a Mafalda. Eu conhecia por alto e ela me contou histórias dessa personagem tão humana dos quadrinhos.


A Ju me deu um presente. E eu vou compartilhar aqui.


Obrigada, Ju!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O reverso da fortuna

A Fortuna é a deusa romana da sorte ou do azar. A roda da Fortuna determina se haverá sorte ou azar. É uma roda instável. Pode rodar, mudar, a qualquer momento.

Acho que a roda da Fortuna está parada no azar quando o tema é o Haiti. Não bastasse ter uma situação política instável e ser o país mais miserável das Américas. ainda enfrenta uma série de intempéries. A última foi um tremos de sete graus que matou muita gente e destruiu vários prédios em Porto Príncipe.

O dia inteiro eu fiquei com o Haiti na mente. Inevitável lembrar da música do Caetano e do Gil sobre as contradições brasileiras que pede rezem pelo Haiti e diz que o Haiti é aqui, o Haiti não é aqui.

A roda da Fortuna me fez observar de novo a letra da música. Forte, atual, coerente.


Haiti (Caetano Veloso e Gilberto Gil)

Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina111 presos indefesos, mas presos são quase todos preto
sOu quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010