quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Desafio Literário - Agosto: Histórias para ler no escuro

Há uma historinha simpática a respeito desse livro. Pra começar, ele não é do Hitchcock, como eu achei que fosse. É uma coletânea de contos de suspense e de terror, teoricamente apresentada pelo mestre do suspense. Vai saber se ele realmente apresentou isso... A edição que eu li, de 1975 e editada pela Record, apresenta uma série de livros também apresentados pelo Hitch.

A historinha é que, quando eu era pequena, Paulo resolveu dar esse livro de presente para a Tia Ylza e me incumbiu de ser a portadora dele. Quando ele me deu o Histórias para ler no escuro, recomendou que eu dissesse para a tia que era para ela ler no escuro. Eu fiquei preocupada, mas entreguei o livro. E recomendei: "Aya, não lê no escuro, acende ao menos uma vela". No fim de 2011, achei o livro na casa dela e trouxe comigo. Ela fez questão de me contar essa história da vela ao me emprestar o volume.

A seleção é bastante irregular. Tem contos ótimos, como O caso da echarpe de seda, de Rex Stout, com o detetive Nero Wolfe. Esse é o ponto alto do livro, e provavelmente este é o motivo para ter sido o último. Zombique, de Joseph Payne Brennan, também é bacana, assim como A espada de dâmocles, de John M. Macdonald, que abre a seleção. Outro bacana é O cachimbo dos sonhos, de Alan Dean Foster.

Os ruins, na minha opinião, são O cachorro do filho do médico de Lincoln, de Warner Law, que é fraquíssimo; O padrão, de Bill Pronzini, muito óbvio; A loja dos milagres, de Theodore Sturgen, que é chato pra caramba. Os outros são mais ou menos.

É um livro bacana pra quem não tem tempo de se debruçar sobre uma história só. Fora O caso da echarpe de seda, que é maior, os contos são curtos e fáceis de ler. E foi ao ler este caso da echarpe que resolvi voltar a ler Agatha Christie. Andava com saudades dela.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Carrancas - curiosidades da viagem

Agora é pra lembrar o que aconteceu de interessante na viagem.

- Na sexta-feira, dia 17 de agosto, o Lauro pediu a Fabiana em casamento. Foi muito bacana. Ele arrumou o quarto com flores, escreveu uma carta super bonitinha e fez o pedido. A Fabi se emocionou e tudo o mais. Mas, muito peculiarmente, chamou a galera toda pra ir pro chalé dela ver o cenário. E ainda fez o Lauro ler a carta pra todo mundo! Esse pedido de casamento aconteceu depois que iniciamos a "festa no apê", no meu chalé. Todo mundo saiu de lá pra ver o chalé do Lauro e comemorar. Depois voltamos todos, inclusive os noivos, para a nossa "festa no apê", que ficou mais divertida ainda.



- Na "festa do apê", meu cunhado resolve dizer que "a realidade é liquida". Ainda não entendemos o que ele quis expressaR com isso, mas rimos bastante.

- A Fabiana, chamando meus sogros para serem padrinhos dela no casamento, disse que tinha muita "respiração" por eles. Ela queria dizer "respeito". :-)

- Uma novela da Globo, Amor Eterno Amor, tem algumas cenas rodadas em Carrancas. Uma equipe grande estava na cidade, com alguns atores. Os meus companheiros queriam encontrar esses atores e, como o grupo estava dividido no sábado pela manhã (com Leo, Luk e Tanner indo pedalar), fomos atrás das locações. Fifi, Roberta, Margaret e Flavinha num carro; Lauro, Fabiana e eu em outro. Achamos uma locação e, logo depois, chega um carro com dois atores. Flavinha quase tem uma síncope de emoção. Daí, por ela, eu topei sair do carro e fotografar meus companheiros de viagem com os atores. Só eu e o Fifi ficamos imunes (ufa!). A Flavinha ficou tão emocionada e, ao mesmo tempo, tão tímida... foi muito bonitinho ver ela suspirando!

Roberta, Margaret e Flavinha com os atores Maria Clara Prates e Carmo Dalla Vecchia


- Seu Rolando (pronuncia-se com sotaque espanhol, por favor, já que ele nos corrigia a todo instante), proprietário da pousada em que ficamos, é uma figura! Ele é costa-riquenho, estudou no México e depois fez Arquitetura na UFMG. Foi lá que conheceu a Marília. Após o casamento, os dois foram para Costa Rica e passaram 35 anos lá. Têm três filhos, um deles é professor da UFOP. Os dois vivem há cinco anos em Carrancas e há dois têm a pousada. Há um quadro no restaurante, pintado por um amigo mexicano do Seu Rolando. Ele tem flashs da história de vida desse senhor bonachão e muito simpático.

- O casal tem duas cachorras muito lindas, da raça Leão da Rodésia. A Savana é mãe da Sapeca e é uma mãe meio dominadora. Ela late mais alto e inibe a Sapeca. A raça é muito bonita, grande e com um porte bem definido. Tem uma pelagem nas costas que é característica e é uma raça sem cheiro, já que os animais são caçadores de leão, que tem um faro muito apurado. Falei com o Leo que quero ter uma casa bem grande um dia, com um Leão da Rodésia pelo menos.

Savana, a mãe da Sapeca

As duas juntinhas, "quentando sol"

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

52 x 5 - Semana 32


Semana 32: Ainda quero aprender:

1 - Tocar violoncelo
2 - História da Filosofia
4 - A ser justa
5 - Cozinhar

sábado, 25 de agosto de 2012

Carrancas - turismo ecológico

Carrancas fica no Sul de Minas, numa área de serras e com clima Tropical de Altitude. A cidade é bem pequenininha, tem cerca de 4 mil habitantes, e as atividades econômicas principais são a agropecuária e o turismo, em especial o ecoturismo. Há informações de que estão catalogadas cerca de 50 cachoeiras no município. E as visitas a essas cachoeiras é que fomentam o turismo na cidade.

Em nossa primeira experiência na cidade, lembro de ter ficado impressionada com a organização turística. Havia pouca estrutura - pousadas, bares restaurantes e demais equipamentos - mas a questão dos guias estava organizada. Os passeios pelas cachoeiras só podiam ser feitos com guias credenciados, que eram contratados em uma central (que, se não me falha a memória, ficava na praça principal). Essa questão dos guias me impressionou, porque comparei com Ouro Preto, onde não há nada parecido.

Dessa vez, não estava lá tão organizado. Não sei se é porque aqui em OP há um grande esforço para que o turismo seja organizado, e muita coisa já foi planejada e implementada, que meu ponto de vista foi alterado. Não encontrei a central de guias que utilizamos na primeira visita. E, aparentemente, não há mais necessidade deles para entrar nas cachoeiras que ficam em propriedades particulares. Não sei o que aconteceu, enfim.

No sábado, fomos para o almoço na Toca e de lá partimos para o escorregador natural, a 300 metros da sede da pousada, e para uma queda d'água a 700 metros do ponto de partida. Sem guia, fomos seguindo o caminho indicado pelos atendentes da Toca e também pela intuição. Como estamos na época seca, não havia tanta água assim, mas foi divertido ver o sogro encarando o escorregador. Meu cunhado curtiu bastante também. Para a caminhada morro acima, quatro pessoas deixaram o grupo. Quem ficou enfrentou um caminho um pouco enlameado e viu uma quedinha d'água bem simpática, devidamente aprovada pelo sogro - ele super curte.

No caminho para a cachoeira da Toca


A 700m do restaurante, Sogrão se divertindo na cachoeira

No domingo, partimos para o Complexo da Zilda. Iniciamos a caminhada para a Racha, por uma trilha mais difícil (havia cordas em partes do percurso para facilitar o acesso), mas bem curta. Logo estávamos perto da água e das pedras. Foi revigorante. Leo, o irmão e o pai dele foram mais à frente, até a Cachoeira dos Anjos. Mas o caminho era mais árduo e o restante da galera (Fifi, Roberta, Lauro, Fabiana e eu) ficou para trás, só curtindo aquele cenário lindo. Depois, fomos para a Cachoeira da Zilda, uma caminhada curtíssima e mega leve. Mais uma vez, não fomos ao Escorregador da Zilda. Fica pra próxima!

A pessoa vai pra trilha de bolsa... dããã!

Com Fifi, Roberta, Fabi e Lauro

Láááá no fundo, quem se aventurou à cachoeira dos Anjos

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Carrancas - alimentação

A pousada ao fundo e o mar de montanhas

Nesta nova visita a Carrancas, compramos um pacote pelo Groupon. Preciso registrar que eu detesto compras coletivas. No geral, os estabelecimentos não estão preparados para a demanda que eles mesmos criam, o que faz com que a impressão seja horrível. Ficamos na pousada Mirante Serra Verde, que tem uma vista maravilhosa. Ela fica no alto de um morro, a 4 km do centro de Carrancas, com nada em volta. Você vê o horizonte amplo, com aquele mar de montanhas maravilhoso, para todos os lados. E tem o vento, que deixa tudo frio e faz um barulho danado. O cenário é perfeito.

Mas... nosso pacote era para duas diárias. Compramos sexta e sábado. Chegamos na sexta, às 17h20. Topamos com o dono da pousada levando as empregadas para a cidade. Ou seja... durante o resto do dia, só o casal proprietário estava presente. E eles eram os responsáveis pelo atendimento aos hóspedes, aos clientes do restaurante e pela cozinha. Não podia dar muito certo. A cozinha do restaurante fechou às 20h. De tudo o que consumimos - como o Sr. Rolando é costa-riquenho, o cardápio tem uma pegada bem latina -, o que mais fez sucesso foi a paella de frango (como tem arroz, eu não experimentei) e a mandioca com ervas (deliciosa). Também comemos tortilhas com recheio de frango e de porco e carne na chapa. Para não encerrar a noite tão cedo, pegamos cerveja, água e vinho e fomos comemorar no meu chalé - rolou uma "festa no apê" (sem bundalelê), que foi muito divertida.

A paella de frango (com arroz, que nojo!)

As carnes na chapa com a mandioca temperada

Café da manhã

Na nossa primeira vez na cidade, almoçamos na Toca, uma pousada com camping, pesque e pague e um escorregador natural. O prato principal foi uma lasanha de peixe com massa de beringela. Lembro que eu não comi, porque iríamos voltar pra casa em seguida e eu não tenho estômago propício para viagens e também porque não sou lá muito chegada a peixe. Não sei de quem foi a ideia de voltarmos lá dessa vez. Foi lá o nosso almoço de sábado. "Nosso" em termos, porque eu não almocei. E a maioria do pessoal não gostou da comida nem do atendimento. Fomos avisados de que cada pedido levaria de meia hora a quarenta minutos para ficar pronto, mas alguns demoraram mais que o dobro desse tempo. A batata frita, que o Lauro tradicionalmente pede em todo lugar que a gente vai, veio murcha e encharcada de gordura. O Lauro costuma dizer que as fritas são como um teste: quando elas vêm bem feitas, sequinhas, pode confiar que a comida vai ser boa. Se não... Foi o que aconteceu com o restaurante da Toca. Não vi ninguém do grupo falar bem.

Na ausência de uma comida boa, vai a foto da turma toda

No mesmo sábado, para não passarmos pelo constrangimento anterior no restaurante da pousada, resolvemos ir para a cidade à noite. Em 2003, ficamos na Pousada Candeias, que estava bastante confortável. A pousada tem uma creperia e logo pensamos em voltar lá e apresenta-la para os nossos companheiros. Fomos informados de que os crepes "não estavam saindo". Pena...

Andamos, procuramos e decidimos ir pela indicação do Sr. Rolando, dono da Mirante Serra Verde: o restaurante Adobe. Preciso confessar que, como fã dos programas da Adobe (Creative Suite é a minha vida), achei que poderia ser uma boa. Como em toda cidade do interior, a fachada é bem simples, quase sem graça. Por dentro, o restaurante é até charmoso.

A fachada sem graça esconde uma cozinha muito boa

O proprietário, Roberto, é uma figura! Com uma barba branca e comprida, logo estava sendo chamado por nós de Papai Noel (e pelo resto da cidade também, hehehe) e de Claus pelo Leo. Todo mundo amou o atendimento e, principalmente, a comida. O restaurante passou no teste da batata frita do Lauro. A maior parte do pessoal pediu truta e foram inúmeros os elogios. Tanto que, no domingo, voltamos para o almoço. Foi o melhor restaurante da viagem e, segundo o Leo, a melhor truta que ele comeu na vida. Outro destaque é a entrada, com pães, acompanhados de  patê de ricota e de beringela em conserva temperadinha. E a salada, cultivada na horta do sr. Roberto, veio com Azedinha, que é uma delícia, e ainda tem beterraba agridoce (que eu abro mão, mas quem provou, adorou).

A turma toda e o Roberto, com sua barba enorme

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Carrancas - O início

Em 2003, Leo e eu fomos pra Carrancas com o meu cunhado, o Luk, e a Letícia, então namorada dele. Foi uma viagem muito bacana e Leo e eu sempre falamos em voltar. Nove anos depois, fomos pra lá de novo, dessa vez com mais companhia - meus sogros e minha cunhada e dois casais de amigos - o que fez tudo ser bem mais divertido. Vou contar com mais detalhes depois. Agora, só algumas fotos.

A vista da Pousada Mirante Serra Verde, onde ficamos

Com a Flavinha e os pais do Leo

Olha o por-do-sol lá atrás!

Luk, sogro e Leo indo pedalar

Fabi, eu, Margá, Flavinha e Roberta, minhas companheiras

A igreja matriz de Carrancas, acho que de N. Sra. da Conceição

Essa sogra é 10!

Entrada do Restaurante Toca pela ponte


Cachoeira na Toca

Nós dois, contemplando o horizonte

Papo na varanda de um dos chalés

A pousada e a vista

Na Racha da Zilda 

Ainda na Racha da Zilda

Pracas do Braziu!

Todo mundo no Adobe (Foto do Fifi)
Vou recuperar os textos que escrevi em 2003 e contar direito como foi a viagem.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Desafio Literário - Julho: O Hobbit

Atrasei a leitura. Mas não me arrependi. O Hobbit é o primeiro livro de J. R. R. Tolkien, famoso por O Senhor dos Aneis, que ainda não li inteiro, mas curti demais os três filmes. Ele foi escrito para os filhos do autor e foi publicado em 1937. Fiquei interessada em saber a idade dos filhos, para entender um pouco mais sobre a linguagem utilizada. O livro tem uma pegada  bem infantil, com cantigas, diálogos bem bobinhos e alguns buracos na narrativa (dizem que Tolkien explicou essas partes faltantes em outras obras). Acho que, por isso, chega a ser um pouco cansativo.

A história começa com Bilbo Bolseiro, um hobbit de vida tranquila que vive em uma toca, em Bolsão. A partir de uma conversa com o mago Gandalf uma aventura muda os rumos da sua vida. Bilbo e mais treze anões (detalhe importante: os anões são maiores que os hobbits) saem em busca de um tesouro que foi tomado dos ancestrais de um dos anões por um dragão. No caminho até a Montanha Solitária, muitos percalços e aventuras. E muita enrolação também. Fiquei várias vezes sem paciência, como na parte em que Bilbo luta com aranhas gigantes munido de uma espadinha que, depois, recebe o nome de Ferroada. 

É nessa aventura que Bilbo, numa caverna cheia de túneis abertos por Orcs, encontra o Anel, que até então era do Gollum e que é o personagem principal da aventura O Senhor dos Anéis. Comecei a ler a trilogia há muitos anos, numa época em que praticamente não dispunha de tempo livre, mas motivada pelo primeiro filme, que tinha acabado de ser lançado. Como o tempo era escasso e a narrativa bastante lenta, devolvi o livro ao dono (meu irmão). Mas agora, após O Hobbit, vou me programar para retomar a leitura. Lembro que ela era menos infantil. 

O Hobbit é um livro legal. É uma leitura leve, até mesmo rápida, que fica menos infantil quando se pula as letras das músicas (juro que eu só pulei as duas últimas, estava com pressa para terminar a história). Coloquei o livro na minha lista de desafio porque o filme estava programado para esse ano. É praticamente a mesma produção e direção de O Senhor dos Aneis, com a participação dos mesmos atores nos personagens que se repetem (Gandalf, Elmrod, Gollum, por exemplo). Acontece que o safado do Peter Jackson, o diretor, resolveu transformar o filme em dois. Depois, em três. E agora, sabe-se lá quando vamos ter a possibilidade de ver toda a histórias nas telas. Toda, né? Porque pro livro virar uma trilogia, só filmando até mesmo as vírgulas da história.

Em tempo: Leo comprou o livro no Submarino, leu e deixou para mim. Nenhum de nós vai ler de novo. Ontem, a caminho da análise, deixei O Hobbit na Biblioteca Pública Municipal de Ouro Preto. E saí de lá tão mais leve...

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

52 x 5 - Semana 31


Semana 31: Quando não tenho nada pra fazer, gosto de...

1 - Ler
2 - Ouvir música
3 - Cantar
4 - Ver filmes
5 - Arrumar urgentemente alguma coisa pra fazer

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Citações 22

De Pauline Kael, em Criando Kane.

Os bons pais liberais  não queriam empurrar os filhos para temas acadêmicos, mas soltavam exclamações de falso prazer quando eles lhes davam um cinzeiro de barro cozido ou um guardanapo de tecido. Alguém adivinhou o previu a confiança narcisista que essa geração ia vir a ter em sua 'criatividade' banal? Agora estamos cercados, inundados por artistas. E um número estonteante deles deseja ser ou já se considera cineasta 

E olha que ela escreveu isso em 1966!!

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Um livro e uma história

Meu padrinho foi uma pessoa bem singular. Era muito inteligente e um tanto auto-didata. Falava sei lá quantas línguas, fazia sei lá quantas coisas, era dinâmico e muito querido aqui em Ouro Preto. Nem vou falar muito que ele veio da família mais linda do mundo, porque é até sacanagem. Quando mais velho, ele teve Alzheimer (falei disso aqui e aqui) e foi muito sofrido viver aquilo tudo.

Quando pequeno, meu bisavô Camillo levou os filhos Geraldo e José Pedro (o meu padrinho) para o Seminário, para que pudessem estudar. Tio Geraldo estudou e logo quis sair de lá. Meu padrinho quis ficar e foi ordenado padre. Já havia um padre na família, o irmão do biso Camillo, chamado de Padre Barros. Meu padrinho, cujo nome completo era José Pedro Mendes Barros, virou Padre Mendes, e é assim que ele é conhecido, até hoje.

Não sei os detalhes de sua vida como padre, só sei que logo ele virou disciplinário no Colégio Arquidiocesano em Ouro Preto e também professor de Português e Inglês. As aulas ele deu também na Escola Normal e na antiga Escola Técnica Federal de Ouro Preto, hoje IFMG. Uma geração de pessoas em OP teve aulas com ele. E, não sei se é porque eu sou da família, mas nunca ouvi alguém falando mal dele. Dizem que era um professor rígido, bem bravo, mas ótimo no ofício. Dessa experiência dele em sala de aula surgiram dois livros: A Análise Sintática e American English. Foram editados, lançados e nunca mais reeditados. Ou seja: quem tem tem, quem num tem... procura no Estante Virtual ou no Mercado Livre.

Tudo isso pra dizer que outro dia a campainha aqui de casa tocou e era um sujeito perguntando se a gente tinha o A Análise Sintática para vender. Não, moço, a gente não vende. Se a gente tivesse algum exemplar, a gente te dava de presente. O moço deixou o e-mail dele comigo - e eu esqueci de perguntar o nome dele. Daí, comecei a procurar o livro. O meu exemplar, que é lindo e fofo, estava até disponível para ser escaneado e enviado em PDF. O duro foi encontrar outro. Mas, afinal, achei. Mandei um e-mail pro moço, pedindo desculpas por não ter perguntado o nome dele. E o livro está indo, pelo correio, para o Rio de Janeiro.



Sabe o que me deixa feliz? O livro foi escrito após anos de sala de aula, editado em 1977 e até hoje faz um relativo sucesso. O Alexandro (esse é o nome do moço que queria o livro), enquanto conversou comigo na porta de casa, contou que nunca aprendeu análise sintática. E que comentou isso com uma amiga em Ouro Preto (obviamente, esqueci de perguntar o nome da amiga). Ela então falou do meu padrinho, do livro dele e indicou como ele deveria fazer para chegar lá em casa e pedir um exemplar. E eu fiquei, por dentro, pulando de felicidade e de orgulho pelo meu padrinho. Ano que vem, ele completaria 100 anos, se estivesse vivo. E mesmo tendo morrido em 1999, continua espalhando muitas coisas boas por aí


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

52 x 5 - Semana 30


Semana 30: Fico impaciente com pessoas que...

1 - São estúpidas com outras pessoas
2 - Gostam de humilhar os outros
3 - Erram, sabem que erram e são incapazes de pedir desculpas
4 - Inventam histórias para prejudicar outras pessoas
5 - Gritam

sábado, 11 de agosto de 2012

De amigos

No último fim de semana aconteceram duas coisas curiosas.

A primeira é que um colega dos tempos de escola puxou conversa comigo, primeiro no Gtalk e depois no Facebook. Marco Antônio era um cara bacana na minha memória. Morávamos perto e costumávamos voltar juntos para casa, com mais uma garota, a Viviane. E a conversa rendeu, ficamos falando sobre o tempo de escola e ele me provou que a minha memória é péssima. Ele lembra de pessoas e coisas que eu esqueci - como a vez que fomos sorteados para fazer uma prova de História em dupla. Eu não lembrava disso e de várias outras coisas. Apesar de me sentir triste por não ter uma memória confiável, fiquei muito feliz de termos conversado, com esse tom de saudosismo. Eu adorava a escola e aquele tempo foi muito legal na minha vida.

Isso foi no sábado. No domingo, Leo foi pedalar com um antigo colega de escola, com quem tinha perdido contato. À tarde, no Facebook, vi que um colega meu, o Jorginho, da mesma época do Marco Antônio e de quem nós dois falamos bastante com carinho, tinha feito o mesmo percurso do Leo. Pra resumir: o Xande, amigo do Leo, também é amigo do Jorginho e Leo e Jorginho se conheceram no pedal.

O Jorginho era bem mais próximo de mim que o Marco Antônio. Estudamos juntos, os três, da sexta à oitava série. Na sexta, eu não era tão próxima assim do Jorginho, mas acabei me aproximando bastante dele na sétima e na oitava. A gente estudava juntos, fazíamos trabalhos juntos. Quando a escola substituiu a carteirinha por uma agenda, era só carimbarem a presença na agenda que eu pegava a do Jorginho e anotava nela todos os trabalhos, provas e datas importantes. E fazia porque gostava, sempre gostei dele.

Acontece que, depois da oitava, saí da escola e perdi contato com o Marco Antônio e o resto da turma. Com o Jorginho, tinha um contato pequeno, já que acabei me mudando pra mesma rua dele alguns anos depois. E, quando saí da casa dos meus pais, perdi contato com o Jorge.

Tem gente que não acredita que homens e mulheres possam ser amigos. O que eu sei disso é que sempre que lembro da minha infância, a Flávia é a amiga que me acompanhou. Quando é a fase até os 14 anos, essa pessoa é o Jorginho. Na adolescência e na época pré-vestibular, é o Rhaine, uma grande figura.

Saber que o Leo e o Jorginho se conheceram, pedalaram juntos e podem ser amigos é algo que me deixa tão feliz que nem sei explicar.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

'Fui"

Mais um caso do Tio Jésus - ele tem casos ótimos.

Uma pessoa que ele conhece tinha um casamento de mais de 10 anos, aparentemente harmônico. Os dois trabalhavam e não tinham filhos, e o combinado era que quem chegasse primeiro em casa faria o jantar.

A mulher chegou, não viu sinal do marido e aprontou o jantar. Deixou tudo arrumadinho esperando ele chegar. Como ele estava demorando, ela decidiu tomar um banho. Saiu do banheiro e foi buscar uma roupa no armário. Foi quando viu que a parte do marido, no armário, estava vazia.

Não sei o que ela pensou. Tio só contou que ela saiu pela casa procurando entender o que tinha acontecido.

A explicação estava em cima da cama dos dois. Um bilhetinho curto, em cima do travesseiro dela, com uma só palavra: "Fui".

Jeito curioso de terminar um relacionamento...

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Para-raio

A cada dia que passa, tenho mais certeza de que sou para-raio de doido. Vejamos:

Sexta passada fui pra BH repetir um exame médico. Fui de ônibus, com o Leo, levando o livro O Hobbit, que estou lendo.

Fato #1 - Nas poltronas do lado sentam-se duas pessoas que eu conheço de vista. Mãe e filha. A mãe mais perto de mim. Quando já estávamos em BH, fechei o livro e escuto a senhora comentando com a filha: "Que nome estranho de livro!". A filha explica que é a prévia do Senhor dos Anéis, que é um conto e tal. Depois, fiquei pensando: tem um dragão na capa do livro. Vai que a senhora pensou que era alguma coisa de satanismo...

Fato #2 - Depois do exame, entrei em uma loja para comprar uma calça. Na fila de pagamento (que estava enooooorme!), uma moça veio me perguntar se eu ia pagar com cartão. A imbecil aqui disse que não, que ia ser em dinheiro. E não seria em dinheiro, seria no cartão mesmo. Daí a moça me perguntou se eu não topava trocar um vale com ela: a gente passaria as compras juntas, eu pagava a parte dela e ela me daria esse tal vale. Respondi "não, obrigada" umas 150 vezes. Não satisfeita, ela pergunta de que eu tinha medo, que era tudo seguro e tal. E eu pensado por que, afinal de contas, eu tinha respondido a primeira pergunta dela assim, de pronto, sem nem pensar, e ainda dado informações sobre o que eu ia fazer. Burra, burra, burra. Quando estava quase na minha vez de ir ao caixa, a mulher recomeça a lenga-lenga. Eu disse que não faria isso nem se fosse pra minha mãe e ela insistindo. Pelamordedeus, pelos meus filhos, pelas contas que eu não posso pagar. E eu tentando fazer cara de paisagem. Felizmente, me chamaram e ela ficou na fila, tentando encontrar uma pessoa de alma mais solidária e menos medrosa.

Fato #3 - Na volta, entrei novamente no ônibus e decidi não voltar a ler o livro. Estava estressada com o caso da moça da fila. Peguei o Ipod, coloquei os fones e fui ser feliz. Daí, vem um sujeito e pergunta se pode sentar do meu lado. Minha vontade era dizer não, mas fui educadinha. Afinal, a passagem do lado era dele mesmo. Ele veio me perguntar se era mesmo pra usar o sinto de segurança. Eu disse: "É obrigatório". Ele insistiu que não sabia se era bom, mas já tinha ouvido falar que era melhor usar, até mesmo no ônibus. "É obrigatório", repeti. Ele pôs o cinto e eu me virei pra janela, pra apreciar a bela paisagem da rodoviária de Belo Horizonte #not. E o sujeito me chama de novo. "Você sabe mexer nesse celular aqui?". Não, eu disse (e era verdade, eu não sabia mesmo. Mal sei mexer no meu...). "É que eu acabei de comprar e não sei mexer". "Eu também não", e virei de novo pro lado. Pensando por que, afinal de contas, as pessoas puxam papo com alguém que está de fones de ouvido. Não quero conversar, moço.

Três casos estranhos num mesmo dia.

Isso porque eu não conto os outros... como o dia em que um cara, na sala de espera de um endocrinologista, veio me falar que não queria tomar remédio para hipotireoidismo porque deixava impotente. E eu com isso, moço???

Daria um livro. Ou uma tag nova aqui.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

52 x 5 - Semana 29


Semana 29: Filmes que me falam ao coração:

1 - A noviça rebelde (a vergonha alheia está liberada)
2 - Mary & Max
3 - A sociedade dos poetas mortos
4 - ...E o vento levou
5 - Brilho eterno de uma mente sem lembranças

domingo, 5 de agosto de 2012

Filme: Premonições


Premonition – 2007 (mais informações aqui)
Diretor: Mennan Yapo
Roteiro: Bill Kelly
Elenco: Sandra Bullock, Julian McMahon, Amber Valleta

Imagine o que é ter a notícia da morte do marido e, no dia seguinte, ele estar vivo e saltitante? Isso acontece com Linda Hanson, após receber a notícia da morte de seu marido, Jim. No dia seguinte, ele está vivo, em casa, como se nada tivesse acontecido. A cada dia posterior em que acorda, Linda tem que se haver com algumas coisas que fogem de seu controle: os machucados da filha, remédios, psiquiatra e internação, discussões com o marido e uma assistente bonitona.

Imagino que o que Linda passa seja parecido com alguém que surta (como o que aconteceu com a minha irmã). Um dia você acorda e o que você sabe, as certezas que tem, são outras, diferentes da do resto do mundo. Como conviver com essa novidade? Como convencer todo mundo que há algo diferente (e o tão famoso “eu não estou louca!”). Isso acontece com Linda, por exemplo, quando ela exige que abram o caixão de Jim. Como explicar para a família que, um dia depois de morrer, ele estava vivo, dois dias depois estava morto e assim, sucessivamente?

Além dessas reflexões sobre a loucura e/ou psicoses, o filme tem um outro ponto interessante, que é a rotina do casamento. Na primeira cena, vemos Linda e Jim comprando uma casa, que indica, na cultura estadunidense, que o casal pretende ter filhos. Em sequência, Linda já está com as filhas crescidas e assume sua posição de dona de casa. Ela leva as crianças para a escola, lava roupas, arruma a casa, vai ao supermercado, enquanto o marido trabalha para sustentar a casa. A rotina e os filhos acabam fazendo o casamento de Linda e Jim esfriar, mas a moça não consegue perceber, de tão envolvida que está na lida doméstica. Vale uma reflexão: será que todo relacionamento está predestinado a isso? Pelo menos na ficção, é comum ver casais que acabam numa espécie de limbo amoroso.

Sandra Bullock interpreta Linda mas, como sempre, vive com cara de Sandra Bullock. Não importa o que aconteça com a personagem, Linda está sempre com a mesma cara. Ainda bem que há uma mise em scéne, que nos indica o que está acontecendo com ela. Além da falta de habilidade da atriz, fica evidente que falta um pouco de pulso do diretor. Mas nada que não seja esperado, em se tratando de Sandra Bullock.  

Não é lá essas coisas, mas vale num dia daqueles em que não se quer sair de casa e não se tem nada pra fazer.

sábado, 4 de agosto de 2012

A namoradeira e a fugitiva

Tio Jésus veio passar oito dias conosco. Sozinho. Tia Vera fez aniversário e ele deu a ela uma viagem para o Ceará com as irmãs. Não quis acompanhar, acabou parando aqui com a gente.

Daí, começamos a conversar sobre a vida de adolescente da vovó. O primeiro caso que ele contou foi novidade pra mim. Vovó foi pedida em casamento aos 14 anos. Meu bisavô Camillo era muito casamenteiro e foi logo entregando a mão da vovó pro fazendeiro que a pediu. Mas bisavó Adelina, que tinha de casado aos quinze, achou que ainda era muito cedo e disse não. Prometeu que, aos 16 anos, vovó se casaria com aquele pretendente. Só que o mocinho não deu conta de esperar e foi logo se casando com outra. Vovó tinha 14 anos. Ficou encalhada por mais 14 e só se casou com vovô anos 28. Uma idosa, praticamente ficando pra titia, naquela época.

Pros netos, avôs e avós costumam ser mais sagrados que os pais. Não é simples imaginar que vovó teve um pretendente antes de vovô. Que namorou. Que fez sexo. Parece uma coisa fora de órbita.

E vem Tio Jésus contar que vovó namorou bastante, seja na fazenda onde ela vivia ou depois, quando se mudou para Ouro Preto. Um fazendeiro chamado Zé Rolla (imagina o quanto o Leo e o Otávio riram desse nome, deixando vovó bastante constrangida). Um estudante de engenharia. Um estudante que também jogava futebol. A lista ia crescendo e vovó ficando vermelha e irritada, tentando mudar de assunto.

Uma hora, ela resolveu encerrar o assunto. Tio Jésus então virou pro nosso lado, meio tampando a boca para vovó não escutar e disse: "Ela foi namoradeira!", e começou a rir.

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Ele chegou na segunda, dia 23 de julho. O aniversário de Tia Vera foi dia 26. Eles conversaram por telefone na data do aniversário e não mais. No domingo, enquanto íamos caminhando para o restaurante, para almoçar, resolvi provocá-lo.

- Tio, o senhor tem notícias daquela moça que era casada com o senhor e fugiu pro Ceará?

Ele fez cara de que não estava entendendo. E questionou:

- Eu realmente não sei de quem você está falando.
- Uai, Tio, o senhor já esqueceu a Tia Vera?

Foi quando ele perceber que era sobre ela que eu estava falando, e começou a rir.

O fato é que ele me dá liberdade para esse tipo de brincadeira. E, depois que voltamos do almoço, correu para ligar para Tia Vera :-)

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Um rumo no Natal

Natal me deprime, já falei isso zilhões. Porque sinto falta do vovô, da sua risada, do seu olhar, do seu jeito de quebrar castanhas, da ansiedade dele com os presentes pros netos. É inevitável: chega o Natal e eu fico querendo morrer.

Vovô morreu em 1993. São 19 anos achando o Natal um saco. Fugindo das celebrações - tenho horror desse clima natalino, com pessoas que não se bicam se abraçando e trocando presentes. Nos últimos anos, meu Natal tem sido com vovó e Cuca, às vezes com a Laura. Com rabanadas. Com cerejas in natura. Mas sem essas baboseiras de "feliz natal e vamos ser felizes".

E por conta da ausência do vovô, também acho o reveillon uma droga. Sempre achei. Até que Jataí aconteceu. A melhor passagem de ano de toda a minha vida. Nenhuma vai superar - nenhuma superou até hoje. Nem o repeteco em BH no ano seguinte, nem com a turma de amigos. Foram bons, mas não foram Jataí.

O Natal de 2011 foi de uma melancolia sem tamanho. Tanto que, além de querer morrer, quis sumir daqui no "evento" deste ano. E já posso comemorar. Piracanjuba, a cidade com a melhor pamonha ever, com a família mais legal do mundo e os primos mais "amo de montão". As passagens já estão compradas. Rumo tomado. Só falta deixar a saudade do vovô fora da mala.


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Livro: A duração do dia

Ganhei esse livro da Bel, junto com o presente enorme que ela me mandou de ex-amiga oculta, no fim de 2011. É da Adélia Prado, uma poetisa mineira, de Divinópolis, bem conceituada no mundo da poesia. Demorei horrores para ler, né? Primeiro porque o tempo foi apertando e o livro foi ficando ali, na pulha dos que precisam ser lidos. E essa pilha é traiçoeira: o novo livro, em vez de ir para o final, acaba por cima do mais recente. E assim, A duração do dia ficou lá aguardando a sorte.

O segundo motivo é que eu já fui uma leitora voraz de poesia, mas acabei perdendo o tesão. Eu lia muito quando era adolescente - devia ser por melancolia mesmo, eu era fã de Álvares de Azevedo. De todo mundo que li naquela época, os que ainda me calam e me cutucam são Carlos Drummond de Andrade e Álvaro de Campos, heteronômio do Fernando Pessoa. Adélia Prado eu já tinha ouvido falar e lido uma coisa aqui e outra ali (como o poema em que ela brinca com o Drummond e diz que um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, a visitou no nascimento, ao contrário do anjo torto do itabirense).

A duração do dia é um livro bem bonito. Melancólico e esperançoso ao mesmo tempo. Falam sobre o cotidiano, a vida em Divinópolis (pelo que pude ler da vida de Adélia, ela se associa à cidade de uma forma muito bacana), cuidando de casa, do jardim e, como uma mineira de 1935, falando sobre Deus e a leitura da bíblia.

O poema que mais gostei se chama O ditador na prisão, em que ela fala sobre o livro de poesias de Saddam Hussein escreveu na prisão, antes de ser condenado à morte por enforcamento. Há uma música dos Engenheiros do Hawaii sobre o tema também, Armas químicas e poemas. Acho que por isso esse aí mexeu mais comigo.

O ditador na prisão

O ditador escreve poesia.
Coitado dele.
Coitados de nós que dizemos coitado dele,
pois também ele tem memória
para evocar laranjais, tigelas de doce
entre risadas e conversas amenas,
paraíso de ínfimas delícias.
Mal floresceram os beijinhos
e as abelas rodeiam-nos afainosas,
tornam o dia perfeito.
Não tripudiemos sobre o sanguinário
que sob a vista dos guardas
vaza no caderno seu desejo,
em tudo igual ao desejo dos homens,
quero ser feliz, ter um corpo elástico,
quero cavalo, espada e boa guerra!
O ditador é devoto,
cumpre as horas canônicas como os monges no coro,
cochila sobre o Alcorão.
Eu que vivo extramuros tremo pelo destino
de quem deprimiu o chão com sua bota de ferro
Ninguém perturbe a prece do proscrito,
nem zombe de seus versos.
A misericórdia de Deus é esdrúxula,
o mistério avassalador.
Por insondável razão não sou eu a prisioneira.
Minha compaixão é tal que não pode ser minha.
Quem inventou os corações
se apodera do meu para amar este pobre.