quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Kafka e Amelie Poulain

Recebo a newsletter da Editora Martins Fontes e fico sempre namorando os livros. O mais recente veio com Kafka e a boneca viajante. Apesar de não ser uma boa leitora de Kafka, gosto muito de sua história de vida e pretendo ler mais sua obra.

Inicialmente, me veio o filme O fabuloso destino de Amelie Poulain à mente. Sabe aquele sentimento ternurinha?

Pois é, deu vontade de ler...

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Filme: Django Livre

Django Unchained - 2012 (mais informações aqui)
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson

Uma antiga lenda alemã diz que, para salvar a princesa Brunhilde, o herói Siegfried se defrontou com três problemas. Ele enfrentou a montanha, porque não tinha medo dela. Enfrentou o dragão, porque não tinha medo dele. E passou pelo círculo de fogo, porque a amada valia a pena. O Dr. King Schultz (Christoph Waltz - atuação primorosa), dentista alemão, conta essa estória a Django (Jamie Foxx), escravo que coopta para caçar recompensas, ao saber que Brunhilde von Shaft é o nome a esposa do escravo americano. Django e Brunhilde foram separados por um senhor cruel e vendidos. Ele quer recuperar a esposa e, por isso, aceita trabalhar com o Dr. Schultz em troca da liberdade, aprendendo a se portar como um ator, nos planos mirabolantes e divertidíssimos do dentista alemão. E, para ter Brunhilde de volta, vai ter que enfrentar os mesmos três problemas: a montanha (no inverno americano), o dragão (Calvin Candie, personagem de Leo DiCaprio, sempre perfeito) e o círculo de fogo (que não vou contar!).

O dentista abdica da profissão para viver das recompensas oferecidas na captura vivo-ou-morto de foragidos da lei nos Estados Unidos pré guerra da Secessão. Para uma certa missão, ele precisa de um escravo que reconheça os irmãos feitores Brittle. É aí que entra Django, que sofreu e viu a esposa sofrer na mão do trio. Schultz oferece dinheiro e a liberdade caso Django reconheça os três irmãos. Com a missão finalizada, muda-se o acordo: o ex-escravo vira parceiro do caçador de recompensas durante o inverno para que, no verão, já com bastante dinheiro, a dupla possa descobrir o paradeiro de Brunhilde e resgatá-la.

O filme traz um retrato da escravidão americana. Se é possível que o espectador se pegue com nojo de tudo aquilo, é imprescindível lembrar que são situações possíveis e, talvez, até prováveis. Sim, tem gente capaz de fazer tudo aquilo a outro ser humano. Tem gente que fez. Tem gente que ainda faz. Três momentos, em especial, me tocaram: a luta dos mandingos na sala de Calvin Candie; o escravo fujão de Candyland e os cachorros; o "forno" onde Brunhilde está, também em Candyland. Uma crueldade tão absurda que foi impossível passar incólume.

As atuações de Waltz, DiCaprio e Jackson são muito boas. Waltz já tinha provado que era um ótimo ator em Bastardos Inglórios (recebeu vários prêmios por esse filme). DiCaprio já prova há anos que é muito bom (jabá: texto sobre ele no Cinema de Buteco). E Jackson, putz... custei a reconhecê-lo em cena, de tão bacana a caracterização. Pra mim, seu personagem, Stephen, é ele tão ou mais vilão do que o personagem do DiCaprio (o que me faz pensar que ele pode ser, talvez, o dragão da lenda - mas ainda acha que é o Leo). Jamie Foxx não é lá essas coisas, e acaba sendo empalidecido pelo Waltz.

O personagem de DiCaprio é desprezível. O que mostra, de novo, o grande ator que ele é. Podemos amá-lo em vários papéis e ter vontade de espancá-lo aqui. Calvin Candie é descrito como um francófono (exige ser chamado de Monsieur Candie), mas não fala uma palavra em francês, não sabe quem é Dumas. Mesmo assim, um de seus escravos chama D'Artangnan. E Dr. Schultz lavou minha alma ao dizer a Candie que Duma, autor dos Três Mosqueteiros, era negro. Em uma cena, Leo se machuca ao quebrar, acidentalmente, um copo. Mas continua a atuar e faz isso com um domínio de cena tão grande, que ela fez parte da montagem final. É tão intenso que, ao final, quando ele para e arranca pedaços de vidro da mão, parece que foi um truque de cena muito bem feito, e não a realidade, a mão verdadeiramente machucada, cheia de cacos de vidro. Outro ponto importante em Calvin Candie é a relação dele com a irmã, Lara Lee. Ela é mais velha (vê-se pelos pés de galinha, que parecem ser realçados pela maquiagem), e a típica mulher sulista, primeiro cuidada pelo pai, depois pelo marido. Como é viúva, é Calvin quem a protege. E ela retribuiu sendo apenas decorativa e sorridente. Reparar em Lara Lee faz perceber que Calvin é um menino mimado e arrogante. Já Stephen, personagem de Samuel L. Jackson, é tipo a Mammy de ...E o vento levou: escravo negro que se sente branco, que despreza os outros negros, que gosta de vê-los sendo punidos, que define as punições. É quase um feitor sem armas. Ele é o mais esperto em Candyland, mas precisa usar uma série de artifícios para que não percebam que ele é quem dá as cartas por lá.

Django superou Bastardos Inglórios, um dos meus favoritos. O filme dialoga com Bastardos. Os dois personagens de Waltz vivem de caçar seres humanos (um caça judeus; o outro, foragidos da justiça). Em Bastardos, um americano "resolve" um problema da Alemanha. Em Django, um alemão ajuda a "resolver" um problema dos Estados Unidos. Os dois filmes falam sobre a crueldade, a prepotência, a falta de humanidade do ser humano, costurados por histórias de vingança.

Ó que eu a-do-ro Tarantino! Já falei dele aqui, aqui, aqui e aqui, mesmo que bem de leve.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Filme: Os suspeitos

The usual suspects - 1995 (mais informações aqui)
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Christopher McQuarrie
Elenco: Kevin Spacey, Gabriel Byrne, Stephen Baldwin, Chazz Palninteri, Benicio Del Toro, Kevin Pollack

Os suspeitos é um filme intrigante. É daqueles que eu não me canso de ver e que sempre me faz procurar uma pista aqui ou outra ali. O filme tem algumas falhas no roteiro, mas é tão amarrado no suspense que as falhas ficam até pequenas.

Mais um texto publicado no Cinema de Buteco, que pode ser lido aqui.

E, orgulhinho da vez, a revista Superinteressante, que é parceira do Cinema de Buteco, twittou meu texto:

: Está procurando um bom filme para assistir em casa? O  indica "Os Suspeitos". Veja: 

Super!

Pílulas do momento #3

1 - Tia Ylza tem pavor de gato. Eu arriscaria dizer que é fobia. Ela não consegue explicar de onde veio isso e acho que nem interessa. O fato é que ela tem pânico-pavor-horror dos felinos. E como a vida é uma comédia, caiu um filhote de gato no pátio da casa dela. Praticamente todas as casas de Ouro Preto com mais de um andar têm um pátio em algum andar, para facilitar a circulação de ar e de luz.  O quintal dela é no terceiro andar, o pátio no segundo. O filhotinho caiu do muro do quintal. E ficou cinco dias lá. Foi uma quinta, dia em que não vou lá. Na sexta, passei correndo, pq acabei viajando, e ela não me disse nada. Fiquei sabendo no domingo à noite, quando alguém contou pro meu tio. Tia Ylza colocou comida e água no pátio, mas não se aproximou do gato nem deixou qualquer pessoa chegar perto. Só de medo do bichinho. Foi uma luta convencê-la, na segunda-feira passada, a tirar o gato de lá. E foi uma luta conseguir chegar perto do bichinho, que fugia assustado e mostrava unhas e dentes. Leo foi aos poucos chegando perto, tocando de leve nele, até que o gatinho ganhou confiança e Leo conseguiu pegá-lo pelo cangote. O gatinho foi de volta para o quintal, encontrar a mãe e mais três irmãos que ficavam na beirada do muro, olhando pra baixo, impotentes. E Tia Ylza respirou aliviada.

2 - Essa questão do gato na casa de Tia Ylza me fez ficar revoltada com o resto da minha família. É que no sábado e no domingo, algumas pessoas estiveram na casa dela e não tiveram o menor tato para lidar com o pânico que ela tem. Não souberam, sequer, olhar para a questão com um pouco de humanidade. E o resumo da ópera foi: deixa pra Aline que ela resolve. Ok, eu adoro me sentir útil. Mas nos últimos anos, tem virado uma espécie de abuso, mais ou menos abusado, dependendo da pessoa envolvida. Um exemplo clássico: certa pessoa convenceu Tia Ylza a ir ao médico. Quer dizer, ela disse que iria, só pra pessoa parar de encher o saco. Daí, vovó veio me dizer que fulana convenceu, agora era a minha parte: levá-la ao médico. Já sabendo como Tia Ylza é, disse que não levaria. Que se a fulana convenceu, que fulana a levasse. Vovó só disse isso: "ela não pode, ela trabalha". Deve ser porque eu não trabalho, eu só finjo. Ou quando a Laura queimou o chuveiro e, enquanto eu cuidava de trocar a resistência, escutei ela dizendo que gostava de mim porque eu resolvia tudo. Vai indo, essas e outras histórias vão cansando. Por isso, já avisei: especialmente na questão da Tia Ylza, cada um que cuide de si. Só faço alguma coisa se a própria tia me pedir.

3 - Percebi que linko sempre aqui as minhas postagens no Cinema de Buteco mas não as do Bom Será. Vou corrigir, daqui pra frente.

4 - Num tá fácil trabalhar, estudar, escrever pros meus projetos paralelos, fazer compras de mês, cuidar da Cuca, da vovó, da Tia Ylza, namorar, fazer RPG, caminhada (e tentar correr), estudar pra um possível projeto de mestrado (encontrei um edital da UFJF que é perfeito), programar uma viagem pro meio do ano. Que hora dá pra lagartear, heim? E pra pedalar, tomar sorvete, andar por aí, montar quebra-cabeças? Tá faltando hora no meu dia, tem que ver isso aí!

sábado, 26 de janeiro de 2013

Amigo oculto da Laje - 2012

Já falei que adoro amigo oculto sei lá quantas vezes. Desde a época da escola (que eu sempre insistia pra ser amigo de chocolate) até hoje. Acho prático, divertido, gosto da surpresa, das revelações, de praticamente tudo. Em 2012, foi a terceira edição do Amigo Secreto da Laje, como chamamos o que é realizado entre as blogueiras amigas. O primeiro foi em 2010 (aqui, aqui, aqui e aqui) e o segundo em 2011. (aquiaqui e aqui).

Em 2012, participamos em oito: Ana, Bel, Bbel, Juliane, Jullyane, Dani, Patrícia e eu. Como nos últimos anos, foi muito bom. Só não foi melhor (pra mim) porque estava mega enrolada com um trabalho, sacomé? Mas as meninas são lindas, e tudo funcionou muito bem.

Meu presente chegou numa terça-feira. Nesse dia, em especial, eu só o veria à noite, na hora que voltasse pra casa, direto do trabalho. Porque quis o destino que exatamente nessa terça fosse o almoço de confraternização da galera do trabalho. Estava marcado: eu não passaria em casa, só à noite.

Mas também quis o destino que vovó me ligasse, pedindo que eu fosse a um lugar pra ela. E eu precisei ir em casa, a caminho do almoço de confraternização. O presente estava lá! E eu estava com pressa e com fome. Mas nada me faria deixar de abrir aquele pacote! Ainda mais que a minha amiga oculta dificultou bem: não era possível identificar pelo remetente. E o presente que pulou na minha mão fez meu coração pular: um puzzle lindo, que eu vinha namorando há tempos, planejando comprar em 2013. Juro, ela acertou em cheio! Ia ser a minha primeira compra de janeiro. Ainda não comecei a fazer (estou com um pela metade). Assim que montar, posto aqui.

Acertou em cheio!

Enquanto corria pro restaurante, pensava em como a minha amiga secreta conseguiu acertar tanto! Mandei uma mensagem rápida pra ela, lá do almoço do trabalho, avisando que eu recebi e que tinha amado. E ela, toda fofa, dizendo que tinha adivinhado os meus desejos mais secretos, hahahaha! Ela ainda disse que mandaria, em breve o presente regional - como estamos em várias partes do país, sempre colocamos alguma coisa regional junto do presente, pra amiga sentir um pouco o som, a cor, o sabor da nossa terra.

O presente regional chegou no início de 2013. E também foi gracinha!. De uma delicadeza que vou te contar! Tudo lindo. Seria perfeito se o Tio dos Correios tivesse cuidado suficiente com a encomenda. Uma hora dessas, as meninas já devem saber quem me tirou... meu presente regional veio embalado em Cajuína, meninas. A Jullyane, essa guerreira, determinada, de personalidade marcante - mas sem perder a ternura - foi quem me tirou. E, se não fosse pelos Correios, que devem ter feito malabarismo com meu presente, eu teria finalmente experimentado a famosa cajuína do Piauí.

Chegou assim, por obra e graça dos Correios 

Tinha mais do que uma cajuína aí! Um postal com fotos do Estado (Praia da Pedra do Sal e Porto dos Tatus), com a letra linda, redondinha da Ju! Um CD com músicas de Vavá Ribeiro e Validuaté, os artistas piauienses favoritos da Ju. Um ímã de geladeira com cajus coloridos. Um chaveiro com um sertanejo, de óculos! Licor de pequi. Rapadura de caju. Doce de caju. Castanhas de caju. Uma festa! Fizemos a festa com as delícias do Piauí!

O Piauí pra mim

O carteiro, ao passar em casa para deixar o presente, precisava da minha assinatura. Como ele me conhece (viu, Ju? OP é quase a Parnaíba nessas facilidades), foi lá no trabalho. O cheiro de cajuína invadiu o espaço e me deixou cheia de vontade de fazer as malas e ir pro nordeste. Foi uma pena ela não ter chegado inteira. Mas nada deixou menos alegre o mundo inteiro que recebi ali.

Tudo reunido, fora da caixa
A Jullyane foi a minha primeira amiga secreta no grupo, em 2010. Insegura como sou, pensei horrores antes de decidir o presente. Ela falou dele aqui. Foi uma alegria pra mim ter sido a sorteada dela. Só de imaginar o sorrisão dessa moça, já fico super feliz!

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

A revelação de todo o grupo acontece hoje (nem precisa falar que tô mega ansiosa pra saber de tudo). Assim que as meninas forem postando, linko aqui.

Patrícia
Bel
Jullyane
Dani
Bbel
Anamyself
Juliane


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Livro: Hibisco roxo

"Descobri" Chimamanda Adichie depois que um colega me indicou o vídeo Os perigos de uma história única. Gostei demais e comecei a procurar os livros dela. São dois em português, lançados pela Companhia das Letras. Hibisco roxo e Meio sol amarelo. Comprei os dois e comecei por Hibisco roxo e adorei. Chimamanda é nigeriana e traz informações sobre a história recente do país.

A protagonista é Kambili, uma garota nigeriana de 16 anos. Seu pai, Eugene, tem algumas fábricas e dirige o jornal Standart. É um homem rico, com uma boa casa, oferece o que há de melhor em termos materiais para os filhos, Jaja, o mais velho, e Kambili. Eugene também é muito religioso, seguidor à risca do catolicismo. Como tem muito dinheiro, faz muita caridade. Por outro lado, leva a religião tão a sério que é capaz de renegar o pai, que não abandona as tradições religiosas de seu povo.

Kambili está em meio a um momento delicado. Ela ama o pai, confia nele e quer agradá-lo. Ao mesmo tempo, começa a perceber as contradições do pai. Um exemplo é o jeito como ele trata a mãe, o desprezo pelo pai e pela irmã (que é católica, mas também aberta às tradições), a forma rigorosa como observa o comportamento da comunidade.

Enquanto um golpe de estado muda tudo no país, e o jornal Standart inicia uma ferrenha oposição ao novo regime, Kambili e Jaja recebem permissão para passar alguns dias na casa de Tia Ifeoma, a tia paterna. Viúva e com três filhos, ela tem uma forma bem particular de lidar com a vida e com o mundo, e seu jeito de ser. Jaja e Kambili ficam ainda mais divididos, e novos acontecimentos vão mudar a vida de toda a família.

Chimamanda reforça o que já tinha dito no vídeo. Que a Nigéria não é um país exótico, que há uma vida comum por lá, como em qualquer outro lugar. A diferença entre ricos e pobres é bem como a do nosso país, com discrepâncias imensas. A universidade onde Tia Ifeoma dá aulas passa por problemas também bastante comuns em relação às brasileiras, inclusive com relação a equipamentos e condições de trabalho. Por outro lado, as tradições do povo igbo são mostradas com todas as cores, com as festas de fim de ano (e as famílias reunidas em suas cidades natais). A oração de Papa-Nukwu, o avô de Kambili, presenciada pela neta, é dirigida à natureza e aos seus ancestrais, pedindo proteção para toda a família, para a terra, para prosperidade da nação. Para a menina, é um choque ver que o avô pede carinhosamente pelo filho que o renegou. As árvores, as cidades, as comidas, as roupas são descritas o tempo todo, como que para lembrar ao leitor que aquela história, por mais universal, é uma narrativa nigeriana.

A religião é outro ponto interessante do livro. A começar pela relação absurda que Eugene mantém com a religião dos seus colonizadores. Ele não se importa em ferir, machucar, espancar quem quer que seja, desde que isso seja corretivo, que livre a pessoa do caminho do pecado. O contraponto é Tia Ifeoma, que consegue ser católica praticante, mas respeita o tradicionalismo e incentiva seus filhos a pensar, analisar e não se dobrar a qualquer coisa. Um exemplo é a questão do "nome de crisma", um nome inglês que deve ser escolhido pelo crismando, para que o bispo possa concluir o sacramento. Amaka, filha mais velha de Tia Ifeoma, se recusa a escolher esse nome.

Enquanto lia, pensava como era possível que alguém do outro lado do mundo pudesse criar uma história tão parecida com a minha (em alguns aspectos - e nesses, absurdamente parecidos). Não dá para contar tudo aqui. O fato é que sofri com Kambili nos momentos de maior tensão e violência física. E me identifiquei com a rebeldia silenciosa de Jaja, quase como se eu estivesse ali.

Fazia tempo que não me emocionava tanto com um livro. Que eu me lembre, só Estação Carandiru e A menina que roubava livros me fizeram chorar de soluçar ao virar a última página. Por conta disso, recebi até uma represália do Leo. Segundo ele, eu não devo ler coisas que me fazem sofrer. Nesse caso específico, me fez sofrer sim, mas também aprendi muito.

O ano está só começando. Mas foi o melhor que li até agora.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Oscar Wilde e sua capacidade de dizer tudo


O retrato de Dorian Gray é um dos meus livros favoritos de todos os tempos. E Oscar Wilde arrasou meu mundinho, na primeira vez que li.  Não basta ser um dos livros mais impactantes da minha vida, O retrato de Dorian Gray também tem um prefácio maravilhoso. E, como está difícil ter tempo pra postar, aí vai,

Prefácio de O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, escrito em 1891.

O artista é o criador de coisas belas.Revelar a arte e ocultar o artista é a finalidade da arte.O crítico é aquele que pode traduzir, de um modo diferente ou por um novo processo, a sua impressão das coisas belas.A mais elevada, como a mais baixa, das formas de crítica é uma espécie de autobiografia.Os que encontram significações feias em coisas belas são corruptos sem ser encantadores. Isto é um defeito.Os que encontram belas significações em coisas belas são cultos. Para estes há esperança.Existem os eleitos, para os quais as coisas belas significam unicamente Beleza.Um livro não é, de modo algum, moral ou imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo.A aversão do século XIX ao Realismo é a cólera de Calibã por ver seu rosto num espelho.A aversão do século XIX ao Romantismo é a cólera de Calibã por não ver o seu próprio rosto no espelho.A vida moral do homem faz parte do tema para o artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. O artista nada deseja provar. Até as coisas verdadeiras podem ser provadas.Nenhum artista tem simpatias éticas. A simpatia ética num artista constitui um maneirismo de estilo imperdoável.O artista jamais é mórbido. O artista tudo pode exprimir.Pensamentos e linguagem são para o artista instrumentos de uma arte.Vício e virtude são para o artista materiais para uma arte.Do ponto de vista da forma, o modelo de todas as artes é o do músico. Do ponto de vista do sentimento, é a profissão do ator.Toda arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que buscam sob a superfície fazem-no por seu próprio risco.Os que procuram decifrar o símbolo correm também seu próprio risco.Na realidade, a arte reflete o espectador e não a vida.A divergência de opiniões sobre uma obra de arte indica que a obra é nova, complexa e vital.Quando os críticos divergem, o artista está de acordo consigo mesmo.Podemos perdoar a um homem por haver feito uma coisa útil, contanto que não a admire. A única desculpa de haver feito uma coisa inútil é admirá-la intensamente.Toda arte é completamente inútil.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Filme: Festim Diabólico

Rope - 1948 (mais informações aqui)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Hume Cronyn e Arthur Laurents, baseado no livro de Patrick Hamilton
Elenco: James Stewart, John Dall, Farley Granger

Gosto muito de Alfred Hitchcock. Seus suspenses sempre me fazem ficar tensa. Um dos filmes dele que mais gosto é Festim Diabólico, adaptação de um romance baseado em fatos reais. Aprendi um bocado sobre o filme lendo Hitchcock Truffaut, em que o diretor francês entrevista Hitch. E rever o filme me fez escrever para o Cinema de Buteco.

Para ler meu texto, clique aqui.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Citações 27

Do livro Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera, um dos melhores que li em 2012.

"Tu pode deixar pra trás um filho, um irmão, um pai, com certeza uma mulher, há circunstâncias em que tudo isso é justificável, mas não tem o direito de deixar pra trás um cachorro depois de cuidar dele por um certo tempo, disse-lhe uma vez quando ainda era criança e a família completa vivia numa casa em Ipanema pela qual passaram meia dúzia de cães. Os cachorros abdicam pra sempre de parte do instinto para viver com as pessoas e nunca podem recuperá-lo por completo. Um cachorro fiel é um animal aleijado. É um pacto que não pode ser desfeito por nós. O cachorro pode desfazê-lo, embora seja raro. Mas o homem não tem esse direito, dizia o pai."


Perfeito!

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Pílulas do momento #2

1 - 2012 acabou, finalmente. Não que eu acredite que um ano termina exatamente no dia 31 de dezembro. O fato é que tanta coisa estranha aconteceu em 2012 que eu estava louca para ter logo outra "etiqueta" para o tempo. Lembro de já ter vivido anos mais doloridos, mas nunca um tão maluco. Muita coisa ruim, muita coisa fora do lugar. Por exemplo, o trabalho grande que eu peguei entre setembro e dezembro. Fiz as contas: só desse trabalho foram 37,6 e-mails por dia. Mais de 37 e-mails por dia, dá pra imaginar o que é isso? Só de um trabalho... ainda havia os de sempre, os cursos em formatação (no segundo semestre foram quatro ao mesmo tempo), as duas disciplinas isoladas no mestrado, vovó, Laura, e o resto bom da vida. Ainda não sei como não pirei.

2 - Depois de ter escrito e programado o post Revisitando 2012, o ano veio me provar que ainda tinha garras para mostrar. No dia 24 de dezembro, enquanto eu estava em Piracanjuba, Laura teve um pequeno surto com a vovó. Fiquei sabendo logo que voltei a Ouro Preto. Não vou contar o que foi. Só que me fez repensar algumas coisas, como o fato de sempre pedir a ela pra ficar aqui com a vovó enquanto eu vou pra BH. Nunca mais vou fazer isso. Meu objetivo, agora, é nunca mais deixar as duas sozinhas. A "sorte" do tal surto é que Tio Jésus e Tia Vera estavam aqui e contornaram bem a situação. Tenho uma leve desconfiança de que ela parou de tomar o remédio que controla a psicose, pelo menos no período do Natal, enquanto esteve aqui em casa. Parece que agora ela está bem, mas todo cuidado é pouco. Vovó chegou a passar mal e, desde então, está numa tristeza sem fim.

3 - Voltar a estudar está sendo tudo de bom. Fazia tempo que estava com essa vontade de ter obrigação de estudar. Acaba que estudar por conta própria, sem prazo, sem cobrança, é muito bom, mas é solto demais. Ou seja... sem regularidade, sem rotina. E eu preciso de rotina pra sobreviver. Preciso das coisas organizadas, de saber o que vem ali na frente.

4 - Estou pensando em vender a minha bicicleta. Faz quase um ano que não pedalo. Primeiro porque quebrei a mão no começo de 2012. Depois de dois meses de molho, o trabalho não me permitiu ir pra BH com frequência pra pedalar. Voltei devagarinho, na Aeciolândia, tentando chegar ao menos ao meu ritmo ruim de antes. Mas aí o Lauro caiu num passeio do Ike e quebrou o cóccix, e todos nós paramos de pedalar. Quando ele voltou (e o resto da galera), já era segundo semestre. E, como sempre, o segundo semestre vem com tudo e não me deixa fazer mais nada além de trabalhar. Provavelmente, com essa novidade da Laura, eu não volte tão cedo. Ou nem volte mais, vai saber. Por enquanto, estou só pensando.

5 - Comecei a fazer RPG - Reestruturação PosturalGlobal. Como minha coluna dói muito (em especial na lombar e na cervical), achei que era a hora de colocar as coisas de volta aos seus lugares. Farei dez sessões e espero, depois disso, ter capacidade pra me manter na posição correta. E também correr pra um pilates ou pra yoga.

6 - Voltei a caminhar também, e até arrisquei uma corridinhas bem de leve. O objetivo é só correr, no futuro, mas ainda não tenho capacidade pulmonar pra isso. Correr me lembrou quando voltei a nadar, em 2000. O professor me pediu para mostrar o que eu sabia fazer, então percorri a piscina alternando craw, costas e peito. Quando cheguei ele disse que estava até bom pra quem estava há anos sem nadar, que tinha que corrigir algumas coisas aqui e ali, mas que pra melhorar mesmo era preciso eu parar de fumar. E EU NUNCA FUMEI! Nunca! Só com isso já dá pra imaginar como é difícil pra mim correr.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

52 x 5: Semana 52

Semana 52: No ano que vem (neste ano de 2013) eu quero:

1 - Viajar
2 - Estudar muito
3 - Estar perto das pessoas que eu amo
4 - Que o projeto paralelo seja, finalmente, implementado
5 - Parar de somatizar tudo

E assim terminam os posts dessa jornada, que foi o 52 x 5. Foi bacana fazer, vou sentir falta de uma postagem fixa toda semana. Ou será que alguém me sugere outra coisa pra ficar no lugar?

sábado, 12 de janeiro de 2013

Livro: A garota com tatuagem de dragão e a filosofia - Tudo é fogo

Antes de falar do livro eu preciso confessar duas coisas. A primeira é que eu amei a Trilogia Millenium (falei dela aqui, aqui e aqui), vi os dois primeiros filmes suecos (aqui e aqui) e a releitura americana (e não comentei sobre ela aqui), e ainda vou ver o terceiro sueco.

A segunda é que minha nova diversão em livrarias é procurar livros de filosofia. Como eu estou iniciando no assunto, procuro sempre os comentadores e livros mais leves (não mais bobos, só mais simples para iniciar). Foi numa dessas garimpagens, em novembro/12, que achei esse A garota com tatuagem de dragão e a filosofia - Tudo é fogo. Comecei a ler antes do Natal e voltei a ele após o reveillon.

No fundo, achei que fosse ser daqueles livros bobos que eu não queria pra mim, mas acabei me surpreendendo. Claro, não é um tratado de qualidade, mas tem muita coisa interessante. O livro esmiúça alguns pontos da Trilogia Millenium, como a questão da personalidade de Lisbeth Salander, com relação à sua orientação sexual e a seu código próprio de ética (por exemplo, quando ela diz que pode expor a vida de alguém desde que o considere um babaca - em contraposição, Mikael Blomkvist diz que a vida privada das pessoas não deveria interferir, somente os atos ilícitos de interesse público).

Foi uma leitura bem interessante, especialmente no que toca a vida do autor da Millenium, Stieg Larsson. Ele trabalhava como observador de movimentos radicais, sejam de esquerda, direita ou qualquer outra denominação. Se fosse radical, o Larsson buscava informações. Em um dos artigos do livro, de um filósofo amigo de Larsson, é levantada a hipótese de que esse trabalho impediu ações de violência na Suécia. Outros capítulos também apresentam informações sobre a atividade jornalística de Larsson, com dados cedidos por sua companheira. Por exemplo, eles não eram formalmente casados e a caixa postal do casal tinha o sobrenome da mulher para evitar atentados - ele era constantemente ameaçado de morte.

O livro é montado com artigos de filósofos convidados e faz parte de uma coleção um tanto oportunista (no bom sentido), que tem livros como O Hobbit e a Filosofia, Batman e a Filosofia, Lost e a Filosofia e por aí vai. A Editora Madras classifica a coleção como Filosofia POP. E não deixa de ser. Senti que pode ser um bom começo para quem quer começar a ler sobre filosofia sem assustar com a densidade dos textos clássicos.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Livro: Alta Fidelidade

Finalizei a leitura de um dos livros do Desafio 2013, e fiquei feliz demais com isso. Primeiro porque Alta Fidelidade, de Nick Hornby, é um daqueles livros que eu queria ter lido há muitos anos, desde que vi o filme com John Cusack. Cheguei a procurar o livro na época, mas não achei. Ano passado, navegando no Trocando Livros, vi que ele estava lá e solicitei. Mas acho que cheguei atrasada... alguém tinha pedido antes de mim. Tentei a Estante Virtual e consegui o livro. Ele chegou num momento bem tumultuado e ficou lá, na pilha de livros a serem lidos. E foi o segundo livro lido em 2013 (falo depois sobre o primeiro).

É a história de Rob Flemming, de 35 anos. Ele está no meio de uma crise: tem uma loja de discos quase falida, acabou de perder a namorada, não sabe o que quer da vida, sente-se um fracassado. Ele passa boa parte do tempo fazendo listas (os melhores discos da década, as cinco melhores músicas para um velório, os cinco melhores filmes de todos os tempos etc) e pensando um monte de bobagens com o objetivo de fazer Laura voltar para ele. Entre as besteiras que ele faz está ligar para ela uma média de 10 vezes por dia (!!!). Rob também tem conversas sobre o nada com Dick e Barry, os dois funcionários de sua loja de discos. Se estou bem lembrada, Barry foi interpretado, no filme, por Jack Black, num dos únicos papeis dele que eu gosto (curto Escola do Rock e Rebobine, por favor).

Rob, incomodado pelo momento estagnado em sua vida, resolve procurar cinco ex-namoradas, as primeiras da lista dos "foras mais memoráveis" para perguntar o que há de errado com ele e por qual motivo as garotas deram um pé na bunda dele. Essa volta ao passado é uma forma que ele encontra para cair na real e se perceber realmente um fracassado.

E, para quem tem, mais ou menos, a mesma idade de Rob, o livro provoca algum tipo de reflexão sobre as escolhas que você fez na vida e para que direção essas escolhas te levam.

Alta Fidelidade é um livro pequeno, mas muito divertido. Dá vontade de ler de novo, com tempo, para ouvir cada música citada. É uma leitura bem gostosa, cheia de referências ao pop.


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Novo desafio de leituras

Como meus desafios literários nunca - nunca dão certo, resolvi mudar e listar os livros que pretendo ler este ano. Deve ser uma lista pequena, e provavelmente bastante mutável, porque sempre surgem coisas novas. Ela será dividida em três partes: literatura, trabalho e estudo. Vamos a ela. E vamos torcer para que eu dê conta de ler.

Literatura ou leitura para diversão:
- Morte súbita - J. K. Rowling
- Alta Fidelidade - Nick Hornby
- A confissão de Lúcio - Mário de Sá-Carneiro
- Cem anos de solidão - Gabriel García Márquez (finalmente!)
- Notícias de um sequestro - Gabriel García Márquez
- Berlim Alexanderplatz - Alfred Döblin
- Meio sol amarelo - Chimamanda Adichie
- Cemitério de Praga - Umberto Eco
- Hibisco roxo - Chimamanda Adichie
- Aleijadinho e o aeroplano - Guiomar de Grammont
- Filosofando no cinema - Ollivier Pourriol
- A idade da razão - Sartre
- Ulisses - James Joyce (Será que esse ano eu termino de ler?)
- A garota com a tatuagem de dragão e a filosofia - William Irwin

Trabalho:
- A reputação na velocidade do pensamento - Mário Rosa
- Uma história social da mídia - Asa Briggs e Peter Burke
- A arte de escrever - Schopenhauer
- Teoria do Romance - Donaldo Schüler
- Avaliação em Comunicação Organizacional - Gilceana Soares Moreira Galerani

Estudo:
- Crítica da Razão Pura - Kant
- Crítica da Faculdade do Juízo - Kant
- Leis da Liberdade - Imaculada Kangussu
- História da utopia planetária - Armand Matellard
- Teoria Crítica da Indústria Cultural - Rodrigo Duarte
- Estética e Crítica - Roberto Figurelli
- Do espiritual na arte - Wassily Kandinsky
- República - Platão (li só o livro 1, e ele nem é o mais importante)
- Confissões - Santo Agostinho (desse li o livro 11, que é muito bom)
- Uma teoria da justiça - J. Rawls
- Ética a Nicômaco - Aristóteles
- Lacrimae rerum - Zizek

Bom começo, não? Ainda tem, pra faculdade, Santo Agostinho, Santo Anselmo, Beócio, São Tomás de Aquino, Marz, Feuerbach. E decidir o projeto pro mestrado. Se tudo der certo, esse projeto sai ainda em 2013. Tem que sair!

Vou atualizando à medida que as leituras forem acontecendo.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

52 x 5: Semana 51

Semana 51: Coisas que me marcaram neste ano que está acabando (na verdade, que me marcaram em 2012, porque comecei esse Meme atrasada...)

1 - Minha volta pra universidade (nas isoladas do Mestrado, na graduação em Filosofia)
2 - Ter quase completado a minha lista de desejos práticos pra 2012
3 - Ter realizado coisas legais com a equipe do Bom Será 
4 - Algumas decisões importantes para o futuro que foram tomadas em 2012
5 - Ter conhecido a Bel e o Cau, uma visita que vou guardar pra sempre como uma das mais especiais da vida. 

domingo, 6 de janeiro de 2013

Filme: A felicidade não se compra

It's a wonderful life - 1946 (mais informações aqui)
Direção: Frank Capra
Roteiro: Frances Goodrich, Albert Hackett
Elenco: James Stewart, Donna Reed, Lionel Barrymore

Depois de um longo hiato, mais um texto meu no Cinema de Buteco. O filme da vez é A Felicidade não se compra, de Frank Capra, filme super gracinha, que deu origem aos filmes de Natal. Apesar desse título, a obra é uma delícia de assistir, e trata de temas que vão além do espírito natalino. Fala de amor, dedicação, superação. De como a vida pode ser transformada quando há bondade por perto. Super recomendo!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Livro: Barba ensopada de sangue

A primeira vez que vi falar desse livro foi por meio de Santiago Nazarian, autor que também esteve no Fórum das Letras. Comecei a seguir seu blog e logo tinha uma postagem sobre o Daniel Galera, o autor, que é considerado um dos melhores do país. Depois, vi em vários jornais e blogs a indicação do livro e fiquei com vontade de ler. Procurei no dia 25/12/12, no aeroporto de Goiânia. A Laselva de lá é bem fraquinha, quase sem opções. Fui achar o livro na mesma livraria do aeroporto de Brasília, e comecei a ler tão logo entrei no avião. Meu medo de avião se resolve com livro!

É um personagem sem nome, que tem um problema neurológico que o impede de guardar rostos por mais de meia hora. Ele sai de Porto Alegre para morar em Garopaba, em Santa Catarina, após o suicídio do pai, com vontade de buscar mais informações sobre o avô paterno, que foi assassinado na cidade catarinense em 1967, antes do nascimento do neto. Um forasteiro na cidadezinha, fazendo perguntas do passado, recluso, com dificuldade para se lembrar das pessoas, logo passa a não ser bem visto. Por outro lado, como é professor de educação física, logo consegue um trabalho como professor de natação em uma academia e monta um grupo de corrida. Enquanto busca informações, conhece pessoas, faz amigos, cuida de Beta, a cadela do pai.

Acabei me identificando muito com o personagem sem nome. Por estar sozinho, por querer conhecer parte de sua história, por querer deixar outra pra trás. Quatro pequenos trechos do livro vão estar aqui de novo, em citações. Picotei minha passagem aérea pra marcar direitinho essas quatro partes que fizeram meus olhos se encherem de lágrimas e o coração de esperança.

O autor, Daniel Galera, é um jovem impetuoso que já publicou oito livros. Deu vontade de ler todos eles, com sofreguidão, como foi o caso deste Barba ensopada de sangue. E que o nome do livro não engane: não é uma história de terror. É um drama comovente, que pode ser muito parecido com o meu ou com o seu. Leitura super recomendada, um dos melhores livros que li em 2012.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Livro: Caderno Afegão

O Fórum das Letras trouxe uma coisa muito boa: a possibilidade de conhecer a obra de Alexandra Lucas Coelho, jornalista portuguesa, correspondente do jornal Público no Rio de Janeiro. Ela participou de uma das mesas do debate sobre Jornalismo e Literatura, falando sobre sua experiência como autora e como correspondente internacional. Dois livros dela ficaram na minha memória: um sobre a revolta popular no Egito, na Praça Tahir (e eu esqueci o nome do livro). Ela passou as férias cobrindo o lado pessoal da revolta, conversando com quem estava acampado na praça, vivendo com eles. O outro foi Caderno Afegão, minha leitura de Natal.

Em sua palestra, Alexandra contou que tentou entrar no Afeganistão em 2001, logo após o atentado às Torres Gêmeas do World Trade Center, mas não conseguiu. Ficou um tempo na fronteira com o Paquistão, que estava fechada, e logo retornou para Portugal. Em 2008, ela conseguiu entrar, como correspondente do Público e de uma rádio de Lisboa. E viveu num hotel em Cabul durante um mês, percorrendo algumas das principais cidades do país, conversando com os afegãos, vendo de perto a realidade de um país dividido, ocupado por forças de paz, com áreas em conflitos e muitas diferenças culturais.

O povo afegão - ao menos as pessoas que foram contactadas por Alexandra - é muito receptivo. A maior parte das pessoas facilitou bastante a vida da jornalista, seja indicando fontes, ajudando na logística ou até mesmo servindo de companhia para uma ida à padaria, já que, no país, as mulheres não podem sair à rua sem uma companhia masculina. E assim, Alexandra colheu história intensas em Cabul, Herat, Jalalabad, Kandahar (e era um risco ir a esta cidade, a primeira a ser conquistada pelos taliban e a última a ser recuperada pelas forças de paz), Mazar-i-Sharif, Bagram, Bamiyam e Band-e-Amir.

São famílias que fugiram do país, mas voltaram após a queda dos taliban, tentando a adaptação a um país com uma enorme chaga de guerra. Mulheres que não usavam a burqa, mas precisaram aderir a ela a voltar ao Afeganistão. Mulheres que conseguiram bolsas de estudo fora do país e eram incentivadas pelos pais a estudar, a ler filosofia e psicologia. Homens apegados às tradições (que são muito bonitas, diga-se), mas com medo do destino político da terra natal. As mulheres que precisam se capacitar como médicas e enfermeiras para poderem atender outras mulheres em hospitais. Aquelas que sofrem de problemas tão banais no ocidente, mas que não encontram atendimento porque os maridos acham indigno que uma mulher seja atendida por um médico - só podem ser examinadas por outras mulheres. Problemas de saúde que só um saneamento básico decente pode consertar. Problemas que já não existem no Brasil - e olha que não somos lá essas coisas em condições sanitárias e de saúde. "Em Kandahar, por cada 100 mil partos morrem 2 mil mulheres. Em Portugal morrem cinco". Não sei quantas morrem no Brasil. Por outro lado, há uma enorme esperança de dias melhores, sem guerra, sem diferenças, sem mortes, sem bombas, sem minas terrestres, sem o mínimo para a sobrevivência com dignidade.

Alexandra conta que há rosas por todo o Afeganistão. E que elas são muito bem cuidadas, quase como um patrimônio nacional. E há chás, cardamomo, carneiro, tapetes no chão para receber as visitas ou para as refeições. Pessoas que gostam de conversar, que têm prazer em contar do passado áureo do país, que sentem vergonha pelos budas destruídos.

Ela termina o livro assim: "Tive muita sorte. Foi um privilégio. Obrigada". E é preciso dizer que eu agradeço pelo privilégio de ter visto a palestra de Alexandra e comprado o livro (na Estante Virtual). De ter levado ele comigo na viagem pra Piracanjuba, de ter devorado cada linha, da Conexão para o Aeroporto de Confins, no dia 21/12/12, até a manhã de 24/12/12, entre a sombra da mangueira da casa da D. Lídia. Foi um privilégio.

Agora é correr pra encontrar o livro dela sobre a primavera árabe.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Pra começar 2013

Que ele venha com muita leveza e poesia.


Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri:
Antigamente eu era eterno.
Paulo Leminski

Feliz 2013!