sábado, 30 de março de 2013

Doze

É dia 30 de março. Na minha agenda de 2001, estava anotado um horário e "Siciliano". Era o nome de uma livraria, que depois foi comprada pela Saraiva. E foi numa livraria que marquei o meu primeiro encontro com o Leo. O engraçado é que passamos uma semana, depois do final do curso em que nos conhecemos, trocando e-mails bem interessantes. Começou quando enviei uma mensagem para ele e para dois amigos do curso dizendo que os três tinham sido especiais pra mim e que gostaria de continuar a conviver com eles. Todos responderam e somos amigos até hoje, até sempre. Leo assinou o e-mail com "Leo da Aline". Na minha resposta, assinei "Aline do Leo". E fomos conversando até culminar no encontro.

Apesar dessa conversa por e-mail, eu sentia que não íamos ter muito o que conversar. Fiquei pensando num modo menos radical de encontrar e já beijá-lo de cara. O que eu não sabia era que ele pensava a mesma coisa. E foi assim, no dia 30 de março de 2001 que demos nosso primeiro beijo, na frente da Siciliano, logo após falarmos "oi" um pro outro. Meio desajeitado, porque eu me assustei com o piercing abaixo do lábio inferior que ele tinha acabado de colocar.

Contei um pouco da nossa história aqui. Não contei que temos poucas fotos juntos, porque eu não gosto de ser fotografada e porque tenho preguiça de fotos de casais. Mas ele gosta, então abro mão algumas vezes para termos alguns registros. E é engraçado ver como mudamos de jeito, de estilo, de peso... como superamos algumas diferenças e estamos sempre aprendendo um com o outro.






Uma das minhas favoritas

Já disse que não tinha muitas esperanças da gente continuar juntos. Ainda hoje eu me pego olhando pra ele e pensando "por que raios ele me atura?". Porque nem sempre consigo acreditar nele suportando tudo o que aconteceu de 2001 pra cá, em especial até 2010, quando tudo o que podia acontecer de ruim na minha vida nova aconteceu. Foi um momento de estabilizar a minha história e não foi nada fácil pra mim. Teria sido pior sem o Leo do meu lado o tempo todo (como já disse aqui, é ele quem me busca lá de longe e coloca meus pés firmes no chão, me fazendo olhar pro caminho certo).

Se fosse o inverso, talvez eu não tivesse suportado tudo o que ele aguentou comigo. Ele me ajuda a levar até hoje, ao me ajudar com vovó, Tia Ylza e Paulo, ao cuidar da Cuca com mais carinho do que eu consigo, a aturar minhas noites estudando, indo ao cinema comigo ver os filmes que eu amo e ele odeia, ao olhar com cumplicidade pra mim a cada vez que preciso estar com alguém que não suporto, a me escrever raros - mas lindos - emails de incentivo, a comemorar cada vitória dessa nova etapa das nossas vidas. Tento corresponder, mas nunca consigo estar à mesma altura. Nem acho que um dia vá conseguir. 

E como eu não sei falar bem o que eu sinto, vou mais uma vez roubar uma parte de uma música de Nando Reis, que ele canta no Luau MTV para o filho Ismael:

Desde que você chegou
o meu coração se abriu.
Hoje eu sinto mais calor
e não sinto nem mais frio.
E o que os olhos não vêem 
o coração pressente.
Mesmo na saudade 
você não está ausente...

Isso porque estranho seria se eu não me apaixonasse por você!

terça-feira, 26 de março de 2013

Os quebra-cabeças

Desde que descobri os quebra-cabeças, em 2012, virou vício. Foi tudo graças à Fabiana e ao Lauro, que resolveram fazer um QC do Romero Brito para colocar num dos quartos da casa deles. Fui acompanhado as fotos pelo Facebook, morrendo de vontade de ter um só pra mim. Falei sobre isso aqui.

Daí, ganhei um de 1.500 peças da Jullyanne, no amigo oculto de 2012, um de 1.000 peças da Ana Lúcia e uma caixa com cinco, do Turene, tio do Leo, também de amigo oculto. Essa caixa é super divertida. Vieram um puzzle de 250 peças, dois de 500 e dois de 1.000. Detalhe: vinha escrito na caixa que o produto era para "a partir de 8 anos". O fato é que fiquei montando. Hoje estou fazendo o da Jullyanne, logo que terminar posto a foto.

Agora, seguem as imagens dos que já montei:

Presente da Ana Lúcia - 1.000 peças

A Ana Lúcia me deu esse de presente de Natal, e eu amei. Foi bem difícil de montar (ainda mais que sou principiante) porque o reflexo do moinho e da casa no lago foi bem confuso. Demorei, mas saiu!

Agora, os da caixa do Turene:

250 peças

O mais fácil de todos, mas não menos lindo. Os de 250 têm peças enormes e facilitam bastante. Você monta rapidinho, acredita que nasceu pra isso, empolga total e vira viciado em QCs :-)

500 peças

Quando fui escolher um dos de 500 peças pra fazer, pedi ajuda pra vovó. Ela escolheu esse dos tigres. Amei fazer, até que montei rápido. O tigre da esquerda é mais nítido e saiu mais fácil. O da direita deu um trabalhinho.

500 peças
Esse deu trabalho! Tem pouca diferença de cores. O lago, então, foi difícil. O lado bom é que deu um prazer enorme ver tudo pronto.

1.000 peças

Esse é muito fofo. Me deu muita alegria fazer, porque pensava nele como um presente pra uma pessoa muito querida. Agora só falta ter vergonha na cara pra enquadrar e presentear.

1.000 peças
 Um pedacinho da Muralha da China. Tem pessoas andando nela, mas não dá pra ver na foto, são minúsculas!

Agora, duas fotos do da Jullyanne:


1.500 peças


Vai demorar, mas vai sair!

domingo, 24 de março de 2013

Livro: O lado bom da vida

Depois de ver o filme e o vídeo da Nathália Pandeló para o Cinema de Buteco, resolvi comprar o livro. Foi escrito por Mathew Quick e inspirou o diretor e roteirista David O. Russel. A história é basicamente a mesma, mas com mais nuances e particularidades.

Pat acaba de sair do hospital psiquiátrico e está às voltas com seu novo vício: aproximadamente 11 horas por dia de exercícios físicos, feitos no porão de casa com aparelhos modernos e seus 18 quilômetros de corrida pelas ruas do bairro. Ele quer emagrecer para voltar para a ex-mulher, Nikki. Ele não se lembra bem o motivo pelo qual começou o "tempo separados", em que ele não pode se aproximar dela nem fazer qualquer tipo de contato. Pat reconhece que não foi um bom marido no passado e está treinando bastante "ser gentil em vez de ter razão", além de ler vários livros de literatura que Nikki indica para seus alunos. Ele quer provar a ela que pode ser bom, atlético e leitor voraz.

Seu pai, o Sr. Pat, é uma pessoa de personalidade forte. O mais importante em sua vida são os jogos do Eagles, time de futebol americano, e ele não está contente por Pat ter saído do hospital. Jake, irmão mais novo de Pat, é um cara alegre, simpático, interessado em reintegrar o irmão à vida. Ronnie, o melhor amigo de Pat, também está querendo fazê-lo voltar a se interessar por coisas diferentes de Nikki. Contra a vontade, Ronnie apresenta Pat a Tiffany, irmã de sua esposa Veronica. Tiffany começa a correr junto com Pat, o que o deixa irritado. Enquanto tenta se livrar de Tiffany, voltar a conversar com o pai, ler todos os livros que Nikki gosta, emagrecer e torcer pelos Eagles, Pat ainda tem sessões semanais de terapia com o Dr. Patel, uma pessoa muito sensata e divertida.

E ainda tem Kenny G. Sim, aquele saxofonista de cabelos rebeldes que fez um relativo sucesso nas décadas de 1980/90. Pat considera Kenny G. seu maior inimigo, e sempre que alguém fala dele Pat murmura uma única nota, conta até dez e mantém sua mente livre. O principal motivo da "inimizade" é a música Songbird. O clip está abaixo e tem cenas hilárias, como quando ele toca e dança enquanto está deitado num banco (como alguém pode ter achado isso bom a ponto de incluir num clip?)



O filme é bem diferente do livro, mas igualmente bacana. Fora que a construção dos personagens é mais aprofundada, as situações também são mais complexas e oferecem mais elementos para entender a situação de Pat e de Tiffany. No livro, ela não é bipolar, mas depressiva. O Sr. Pat não é obsessivo, como no filme, mas um cara bem mau humorado. E tem a dança, que no filme é bem engraçada, mas no livro é completamente diferente. Pat narra a dança quase toda e é divertido pensar nos passos dos dois ao som de Bonnit Tyler em Total Eclipse of the Heart (morria de medo do fim desse clip quando era mais nova...).




É um livro leve e divertido, apesar de previsível. 

sexta-feira, 22 de março de 2013

Livro: Santo Agostinho: a vida e as ideias de um filósofo adiante de seu tempo

O período Medieval sempre me encantou. Não sei exatamente o motivo, mas é uma coisa que acontece desde que eu era pequena. Quando me matriculei em Filosofia, a matéria que mais chamou minha atenção foi Filosofia Medieval. Claro que não dá tempo de ver tudo (e eu não sou Umberto Eco!!!), mas tem sido bem interessante ler sobre como pensaram esses filósofos que viam deus em todos os cantos. E, mesmo sendo católicos, conseguiam questionar algumas coisas sobre a religião. Estudei, até agora, Santo Agostinho, Boécio, Santo Anselmo e São Tomás de Aquino. Ainda falta Ockhan. Na hora de escolher o trabalho final, escolhi Santo Agostinho, porque já tinha lido alguns capítulos de Confissões e Cidade de Deus. Escolhi falar sobre o problema do Mal e acabei me deparando com dois livros. Um é O livre-arbítrio, que Agostinho escreveu para combater a seita dos Maniqueus, e este Santo Agostinho: a vida e as ideias um filósofo adiante de seu tempo, e Gareth B. Mattews.

Agostinho escreve de forma leve, e Matthews parece trazer isso para o livro. É bem fácil de ler e de entender, até mesmo nas partes em que ele escreve como lógico, analisando premissas do pensamento agostiniano. Como li para o trabalho, fiquei mais presa ao capítulo que trata do problema do Mal, em que Mattews discute como Agostinho conseguiu descrever o mundo um deus onipotente e onibenevolente e, ainda assim, com a existência do mal. Mas também tem temas como o tempo (o capítulo 11 das Confissões, que fala do tempo, é uma lindeza), fé e razão, dualismo mente e corpo e outros.

O livro é uma ótima introdução filosófica pra quem quer conhecer o santo filósofo e suas ideias, que são realmente muito bacanas. É ideal praquela pessoa que quis discutir Santo Agostinho comigo sem nunca ter lido nada dele (contei aqui, no item 1). Fala de como Agostinho viveu, o que ele buscava, como pensou e como "resolveu" alguns dos principais problemas filosóficos da época. Resolveu entre aspas porque as soluções valeram para a época dele (e dependendo da fé das pessoas, valem até hoje), mas foram contestadas posteriormente.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Pílulas do momento # 5

1 - Foi aniversário do Paulo no dia 9. Como sempre, Tia Ylza botou a mão na massa e fez um dos meus doces preferidos, a Montanha Uruguaiana. Obviamente, foi a festa da engorda aqui em casa. Paulo e eu ficamos disputando quem conseguia mais creme amarelo (que é o melhor desse doce).


2 - Leo e eu resolvemos ver Lost de novo. Estamos há um bom tempo com todas as temporadas, assistindo toda noite. É impressionante como Lost é bom, especialmente as três primeiras temporadas. Revivi meus amores por alguns personagens e por grandes momentos do seriado. Pena que acabou...
Pra mim, o Ben é o melhor de todos. O ator arrasa e o personagem é muito complexo. Quando ele aparece na trama, no meio da segunda temporada, ferido, apanhando horrores, ainda consegue mentir com a maior cara séria. É um personagem memorável. Morro de saudade de ver Lost toda segunda-feira... até vovó via comigo e com o Leo pela TV a cabo. Está sendo uma delícia!

3 - Grandes dúvidas na hora de escolher o próximo livro de literatura. Estou entre três opções:
- Berlim Alexanderplatz;
- Morte Súbita;
- O cemitério de Praga.
Alguém me ajuda a escolher?

4 - Comecei o quebra-cabeça que ganhei da Jullyanne de amigo oculto. É o primeiro de 1.500 peças que faço e estou apanhando bem. Primeiro porque a mesa onde faço é menor que ele. Então, estou usando a mesa de jantar. O que dificulta bem a vida, já que não posso ficar com o QC nela o tempo todo. E 500 peças a mais é coisa pra caramba! o QC é lindo de viver, vai dar um quadro mara! Mas vai demorar um montão a ficar pronto.

5 - Não nasci pra falar em público. Comprovei isso ao apresentar um seminário de Antropologia Filosófica. Falei baixo, gaguejei, fiquei vermelha, suei horrores, quis morrer. Sorte que o colega que apresentou comigo fala bem pra caramba! E sorte que me saí bem na primeira prova. Porque se depender de nota de seminário, to-fu! Ainda tem outra prova, no começo de abril. E depois disso, se eu não pegar final, tem férias, o que é ótimo, porque tenho que estudar lógica.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Filme: O lado bom da vida

Silves Lining Playbook - 2012 (mais informações aqui)
Direção: David O. Russell
Roteiro: David O. Russell, baseado no livro de Mathew Quick
Elenco: Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Robert De Niro, Jacki Weaver, Chris Tucker

Não dei muita bola pro filme quando foi lançado porque tenho preguiça de comédia romântica. Porém, li em algum lugar que os personagens principais tinham transtorno bipolar e isso foi o suficiente pra me motivar. Como a Laura tem transtorno bipolar, procuro ler e ver tudo sobre o assunto, desde que não seja científico (pra não pirar). E lá fui pro cinema, na terça de carnaval, passando um mal do caramba.

Essa é a história de Pat Peoples (Bradley Cooper), que acaba de ser retirado de um hospital psiquiátrico pela mãe. Ele teve um surto ao pegar sua esposa com outro homem, mas parece ter esquecido a traição e, ainda, o tempo que passou hospitalizado. Seu objetivo é emagrecer o mais rápido possível, fazendo muitos exercícios físicos e correndo pelas ruas do bairro vestido com um saco de lixo (para suar mais), porque sua mulher, Nikki, gostaria de vê-lo mais rápido. Ele também quer mudar seu temperamento para ela e, assim, terminar o que ele chama de "tempo separados".

A família, Dolores (Jacki Weaver) e Sr. Pat (Robert De Niro) tentam fazer com que Pat esqueça Nikki e leve uma vida normal. Randy, amigo de Pat, insiste em voltar a conviver com ele e, para fazê-lo esquecer a ex-mulher, apresenta Tiffany (Jennifer Lawrence), irmã de sua esposa Veronica. Tiffany está depressiva porque ficou viúva. A relação de Pat e Tiffany é construída ao longo da trama, com Pat ajudando Tiffany a participar de um concurso de danças e Tiffany auxiliando Pat a entrar em contato com Nikki para mostrar que está recuperado e é um novo homem.

Ainda entram em cena a obsessão do Sr. Pat por futebol americano - se os Eagles venceram o jogo passado, tudo tem que estar exatamente do mesmo jeito no próximo jogo; Danny (Chris Tucker), amigo de Pat no hospital; e um amigo do Sr. Pat que coloca tudo de cabeça pra baixo ao propor uma aposta.

O filme é bonitinho e bem leve, mesmo tratando de um tema tão pesado, como os transtornos mentais. Foi bom pra mim ver as alucinações de Pat e pensar que a Laura deve funcionar do mesmo jeito. Ver como ele se esforçava para manter-se na realidade e até a rebeldia com os remédios me fez ver muitas coisas de outro modo.

Os atores principais estão todos muito bom, com destaque pro De Niro e pra Jackie Weaver. Bradley Cooper mostra que pode não ser só um rostinho (muito) bonito. Jennifer Lawrence é muito boa, mas não merecia o Oscar de melhor atriz por esse papel. Emmanuelle Riva, de Amor, é infinitamente melhor.

sábado, 16 de março de 2013

Da Cecília Meireles

Gosto muito de Cecília Meireles, dos poemas infantil e dos adultos, do Romanceiro da Inconfidência e de outros livros. Um que gosto muito já mostrei aqui: O último andar. Daí alguém da comunidade Ouro Preto postou no facebook este poema gracinha sobre Ouro Preto. E eu me encho de orgulho da minha terra, da minha paisagem, do que vejo pela janela. 


O que é que Ouro Preto tem?

(Cecília Meireles - 12/04/1949)

Tem montanhas e luar,
Tem burrinhos, pombos brancos pelo ar,
Tem procissões nas ladeiras,
Com dois sinos a tocar,
Capas de todas as cores,
Anjinhos a caminhar...
Tem Rosário,
São Francisco, Santa Efigênia, Pilar...
Tem altares, oratórios,
Cadeirinhas de arruar...
Casas de doze janelas,
Estudantes a cantar...
Tem saudades e fantasmas,
Ouro por todo o lugar,
Santos de pedra-sabão,
Calçadas de escorregar...
E ali na Rua das Flores,
Na varandinha do Bar,
Tem a figura risonha
Do grande pintor Guignard
Que Deus botou nesse mundo,
Para Ouro Preto pintar...

quinta-feira, 14 de março de 2013

Filme: Intocáveis

Intouchabels - 2011 (mais informações aqui)
Direção: Olivier Nakache, Eric Toledano
Roteiro: olivier Nakache, Eric Toledano
Elenco: François Cluzet, Omar Sy, Anne Le Ny

Esse filme, baseado em uma história real, ficou um bom tempo em cartaz em Belo Horizonte, no Belas Artes, cinema perto da Praça da Liberdade que sempre traz filmes fora do circuito comercial. Não consegui ver lá e nem quando, depois de um longo e tenebroso inverno, o filme veio para Ouro Preto. Aluguei outro dia e não me arrependi. O filme é uma graça.

Driss é um senegalês que vive na França e está em situação de risco social. Ele passou seis meses preso sem se comunicar com a tia e com os primos e está atrás de uma assinatura num pedido de emprego, apenas para provar que foi procurar trabalho e não encontrou, e assim continuar recebendo o seguro-desemprego. A entrevista em que ele, impacientemente, espera sua vez, é para um cuidados para Philippe, tetraplégico após um acidente de parapente. Philippe é bem humorado e está cansado de ser tratado como um inútil. Por isso escolhe Driss para ser seu cuidador. Em uma cena, ele explica o motivo para um amigo: Driss chega a passar o telefone para Philippe, justamente porque esquece que o patrão não tem a mobilidade dos membros superiores. O cuidador é capaz de tratar Philippe como um ser humano qualquer, sem limitações e, por isso, sem cuidados excessivos.

É interessante notar como é importante tratar o outro com o devido respeito, levando-se em consideração que, no fundo, os diferentes querem ser semelhantes, não querem um olhar de desprezo ou de piedade. E que, no filme, isso é uma via de mão dupla. Driss muda a vida de Philippe depois que aprende alguns dos cuidados básicos para esse tipo de situação. Philippe muda a vida de Driss ao inseri-lo em seu mundo, olhando para ele com o mesmo respeito com que gosta de ser olhado, sem preconceitos pela cor ou pela situação social do cuidador.

Tirando todas as situações cômicas, que fazem a história ficar mais leve, é possível aprender bastante com Intocáveis. Não que o lado divertido não seja importante. É que ele, por vezes, é usado para mascarar a história real apenas como uma forma de alcançar mais espectadores. De todo modo, é um filme lindo e que vale ser visto.

terça-feira, 12 de março de 2013

Citações 29

Do livro Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera:

"Eu brinco com as minhas amigas que a gente tá vivendo a era do Tá Foda. É uma sociedade inteira despreparada pro sofrimento ou consciente demais do sofrimento. Quanto mais a gente compreende e trata o sofrimento, mais a gente acha que sofre e ao mesmo tempo o sofrimento do outro parece frescura."

domingo, 10 de março de 2013

Filme: O som ao redor

O som ao redor - 2012 (mais informações aqui)
Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Elenco: Irma Brown, Sebastião Formiga, Gustavo Jahn, Maeve Jinkins, Irandhir Santos

Quando havia menos gente no mundo e as distâncias - até para a casa do vizinho - eram maiores, a convivência devia ser mais fácil. Mas a população cresceu, o mundo mudou e todos nós nos apertamos em casas pequenas, grudadas umas nas outras, em prédios, em condomínios. E conviver com tanta gente "estranha" não é fácil. Porque conviver implica aturar o que não é do nosso agrado: o som alto, os gritos, as risadas, o cachorro, o porteiro que dorme, aquele que só pensa em si e não na coletividade (no fundo, somos todos assim, não?)

O som ao redor trata disso, de como nós convivemos em sociedade. Ele traz João, um corretor de imóveis que se envolve com Sofia e que vive às voltas com os imóveis da família e com o primo delinquente, Dinho. Tem Bia, dona de casa insone que tem dois filhos e não aguenta mais os latidos do cachorro do vizinho. Tem Seu Francisco, dono da maior parte dos imóveis da rua, um antigo senhor de engenho. E Clodoaldo e Fernando, dois seguranças particulares que resolvem oferecer seus serviços nessa rua, que é em Recife mas pode ser em qualquer cidade, em qualquer país.

É engraçado como somos mais individualistas à medida em que aumenta nossa necessidade de viver em sociedade. Como vemos menos o outro e como nos agarramos a questões tão pequenas, como o caso da reunião de condomínio em que uma senhora reclama porque o porteiro da noite não a cumprimenta (será que ela o cumprimenta sempre?) e também porque tem recebido sua revista semanal fora do plástico. Um belo texto sobre o filme está aqui, no blog Atlântico-Sul, de Alexandra Lucas Coelho.

A segurança (e/ou a falta dela), o cachorro do vizinho, o guardador de carro que retalia uma cliente, as crianças do playground, a bola furada, a vida cotidiana podem enganar em O som ao redor. Pode, a princípio, parecer um filme sobre o nada. Mas Kleber Mendonça Filho mandou bem ao construir a tensão no desenvolvimento do longa (chegou um momento em que me perguntei por que estava ali, sozinha, no cinema, sem ninguém pra segurar minha mão), até chegar à cena final, que é um modo perfeito de terminar a história.

O som ao redor está sendo considerado um dos melhores filmes brasileiros da atualidade, vem sendo comparado a Cidade de Deus e recebeu muitos elogios da crítica internacional, após passar por vários festivais. Não sei se concordo com a comparação com Cidade de Deus, mas digo que é mesmo um dos melhores nacionais que vi recentemente.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Livro: Meio sol amarelo

Junto com Hibisco Roxo, comprei também este Meio sol amarelo, de Chimamanda Adichie. É uma obra que fala sobre a guerra civil da Nigéria na década de 1960, iniciada com a secessão e a criação da nação de Biafra. Terminar o livro é ter certeza de que, como a própria autora disse nesse vídeo aqui, há muitos perigos em uma história única.

No início da década de 1960, o professor de matemática Odenigbo está às voltas com suas aulas na universidade de Nsukka e com o grupo de intelectuais que discute o futuro político da Nigéria. Ele faz parte de uma pequena elite, já que boa parte do país é formada por moradores do campo, sem acesso a estudos e facilidades da vida moderna. Ele tem um empregado, Ugwu, que saiu de sua aldeia natal para servir. Ugwu é inteligente e leal, aprende rápido a cuidar do patrão e a idolatrá-lo. Odenigbo vive uma história de amor com Olanna, filha de um industrial rico e corrupto. Ela opta por abandonar a vida de luxos do pai na capital, Lagos, para ser professora em Nsukka.

Irmã gêmea de Olanna, Kainene é da vida prática. Ela gerencia as muitas empresas do pai e mantém um olhar crítico para a sociedade e para a família. Ela chama Odenigbo de "socialista revolucionário" e faz graça de tudo e de todos. Richard, um inglês que se apaixonou pela arte da Nigéria e por Kainene, dá aulas em Nsukka enquanto tenta escrever um romance sobre a arte primitiva do país.

Em meados dos anos 1960, a Nigéria está em polvorosa. O país foi criado unindo uma série de etnias num equilíbrio frágil e bastante esgarçado. Quando os ânimos se acirram, a etnia Ibo inicia o processe de secessão e funda a república de Biafra. Enquanto os pais de Olanna e Kainene fogem para a Inglaterra, as filhas ajustam suas vidas a essa nova realidade. A guerra entre Biafra e Nigéria é cruel e traz consequências para a vida de todos.

A história é baseada em fatos reais. A guerra Biafra-Nigéria aconteceu de 1967 a 1970. Chimamanda diz que quis retratar ali a suas verdades, e não os fatos da guerra. E essas verdades incluem cenas de puro terror, como assassinatos a sangue frio, estupros, família separadas pelos exércitos, desaparecimentos, fome, miséria, humilhação. A reação de cada um à guerra, pela morte de parentes, amigos ou desconhecidos, pelas barganhas para conseguir comida, a relação com o lado adversário, a humanidade (ou a falta dela) dão tons pesados, densos à narrativa. É uma leitura envolvente, mas muito difícil, porque é inevitável desenhar as cenas de terror da guerra.

"Que nós nunca nos esqueçamos.", diz a autora no fim da nota em que traz seus agradecimentos. Que nós nunca nos esqueçamos de como o ser humano pode ser cruel. Que a guerra - qualquer guerra - traz à tona nosso lado mais bestializado. Pena...

terça-feira, 5 de março de 2013

As provas

No item 2 deste post aqui, estava me perguntando se deveria continuar na Filosofia porque dois professores me disseram que não penso filosoficamente. Fiquei triste por um tempão, com vontade de chorar, de fugir. Mas continuei lá. Aí vieram as provas. Fiz duas até agora e estava morrendo de medo. Porque há 12 anos não fazia prova, não tinha nem ideia de como estudar, como escrever, como proceder.

A primeira foi de Antropologia Filosófica e foi com consulta. Eram seis questões e só três precisavam ser respondidas. Duas sobre Kant. Estudei Kant igual uma louca e não sei se aprendi alguma coisa. Podia ter escolhido fazer três questões, nenhuma sobre ele. Mas resolvi arriscar. As duas questões anteriores eu achei que estava tudo bem. Então, em teoria, tiraria os 60% da média. Fiz uma questão de Kant e fiquei morrendo de medo do resultado.

Quando o professor foi entregar as notas, resolveu fazer chamada junto. Quando falou meu nome, foi logo dizendo que a minha nota foi ótima. Sorri e pensei que deveria ter feito 80% da prova, que não teria falado muita bobagem sobre Kant. O fato é que tirei total. Fiquei feliz, mas não me iludi.

A segunda prova foi de Filosofia Social e Política. As pessoas com quem converso me diziam que o professor é muito exigente e fiquei morrendo de medo. Prova sem consulta, quatro questões. Mas achei fácil, no fim da contas. Estava era com medo da correção.

Eis que o professor também resolve entregar as notas fazendo chamada. Quando chegou a minha vez, ele disse: "Quem é Aline Monteiro?". Me apresentei e ele disse que gostou muito da minha prova, perguntou se eu era do bacharelado (yes!) ou da licenciatura e em que período estava. Expliquei que vim como portadora de diploma de graduação e ele disse que queria conversar comigo depois da aula. Quando entregou a prova., mais um total. Quase tive um colapso!

Depois da aula, ele me perguntou se eu tinha interesse em fazer iniciação científica. Sim, tenho muito! Mas não com bolsa, porque não preciso dela (é absurdo querer receber verba federal na minha situação de pessoa que trabalha, né?). Possivelmente, posso participar de um processo de voluntariado de iniciação científica formalizado.

Eu queria dizer pra ele que não penso filosoficamente. Mas fiquei com vergonha. Disse só que estava meio perdida. Ele disse que não tinha problema, que ele me achava!

Pra quem acredita em sinais, esses dois fatos são sinais de que devo continuar. Pra quem não acredita, como eu, conclui que eu não penso filosoficamente, mas que ainda sei como fazer prova...

domingo, 3 de março de 2013

Notícia do bisavô

No post em que comentei sobre a minha família na universidade, disse que falaria depois sobre o meu bisavô. No fim de 2012, Paulo conheceu uma professora da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) e comentou com ela que meu bisavô, José Procópio Fernandes Monteiro, havia dado aulas lá e que, se não houvesse engano, ele teria sido o primeiro professor brasileiro da escola. A professora, Marita Tavares, enviou um presente para Paulo: um livro com a história da Unifei e a cópia de uma notícia de jornal sobre meu bisavô.

O livro Theodomiro Santiago - O esboço de uma biografia, de Dirceu Rocha Pereira, é de 1997 e conta a história da criação do Instituto Eletrotécnico e Mecânico de Itajubá, hoje Unifei. Meu bisavô aparece na página 89: "Em 1917 era admitido o primeiro professor brasileiro na equipe, na pessoa do Dr. José Procópio Fernandes Monteiro." Segundo o autor, a relação de professores consta na "publicação em homenagem ao cinquentenário do IEI intitulada Meio Século - Instituto Eletrotécnico de Itajubá".

A notícia de jornal é mais interessante (pra família, claro). Foi publicada no dia 3 de novembro de 2012 no jornal O Sul de Minas. É assim:

O primeiro professor brasileiro a lecionar no Eletrotécnico
Aloysio Pizarro

Em 1º de Março de 1917, iniciou a dar aulas no Instituto Eletrotécnico e Mecânico de Itajubá o primeiro professor brasileiro contratado pelo fundador da escola, Dr. Theodomiro. Trata-se do emérito professor de matemática José Procópio Fernandes Monteiro, que lecionada na Escola de Minas e Metalurgia de Ouro Preto. A contratação deste professor foi devido a partida inesperada para a Europa do professor belga Dr. Armand Bertholet, que por motivos familiares pediu demissão após lecionar quatro anos no Instituto Eletrotécnico. Dr. Armand Bertholet já estava perfeitamente adaptado ao estilo de vida e costumes da população itajubense. Já falava um razoável português, e tinha desenvolvido um grande círculo de amizade na sociedade local, e a sua saída da escola foi muito sentida pelos alunos do eletrotécnico. Foi com muito pesar que o Dr. Theodomiro recebeu a notícia da perda de um dos professores pioneiro, que ele havia contratado na Europa por ocasião da sua viagem em 1912. Mas, por outro lado, estava feliz por encontrar um professor substituto a altura do professor europeu. O novo professor José Procópio é, sem dúvida alguma, um grande matemático, e por certo dará uma contribuição valiosa ao curso de engenharia de Itajubá. Na realidade o novo professor já mostrava em suas primeiras aulas no instituto ser mais exigente e rigoroso no ensino da matemática do que o seu antecessor. Para assistirem as aulas os alunos tinham como traje quase obrigatório, terno e gravata, e o professor José Procópio dava suas aulas vestido com elegante fraque. Para avaliar sua exigência e rigor, de 18 alunos que prestavam exame em sua matéria só foram aprovados dois, conforme testemunha de um de seus alunos. O professor José Procópio era mineiro de Juiz de Fora, era muito formal e sisudo, não admitia a menor intimidade com os alunos, falava muito baixo e muito calmo. Vestia-se elegantemente e era muito educado (segundo testemunha de um de seus alunos). E assim, depois de quatro anos de existência a escola passa pela experiência de contar em seus quadros com o primeiro professor brasileiro."

O texto foi copiado exatamente como estava no xerox enviado pela Profª. Marita. Quando li para Tia Ylza, ela ficou feliz, mas um pouco brava. Quando seu pai morreu, ela tinha só sete anos, mas não se lembra dele como uma pessoa sisuda. Ela diz que ele era muito alegre e tinha muitos amigos. Argumentei que ele deveria ser sisudo em sala de aula, mas não adiantou. Ela contou que a família saiu de Itajubá e foi para Recife, onde vovô Procópio descobriu que estava doente e tinha pouco tempo de vida. Vieram, então, para Ouro Preto. E aqui ele voltou a dar aulas, mas no Ginásio. Uma das amigas da Tia Ylza foi aluna dele e dizia que ele era um professor excelente, que nem era preciso estudar muito, porque ele explicava tudo tão bem que era fácil para que todos aprendessem.

Eu fico é imaginando ele dando aulas de fraque, exigindo terno e gravata dos alunos... Orgulhinho!