sexta-feira, 31 de maio de 2013

Filme: Asas do Desejo

Der Himmel Über Berlin - 1987 (mais informações aqui)
Direção: Wim Wenders
Roteiro: Peter Handke, Win Wnders
Elenco: Bruno Ganz, Solveig Dommartin, Otto Sander, Curt Bois, Peter Falk

Vi Asas do Desejo pela primeira vez ainda na faculdade de jornalismo. E foi lindo! Lembro do George me incentivando a ver e do deslumbramento ao ver tudo aquilo. Revi agora e escrevi sobre ele para o Cinema de Buteco. E a espécie de epifania continuava lá. Tudo no filme é maravilhoso: fotografia, roteiro, interpretações. Não sei se seria um filme bem visto hoje, quando tudo precisa ser colorido, brilhante, acelerado, de fácil digestão. Asas do Desejo é daquelas histórias que faz pensar. E amar.

O texto pode ser lido aqui.





quarta-feira, 29 de maio de 2013

Chico

Na última quarta fui fazer compras de mês na cooperativa local. Eis que, no som ambiente, entra Roda Viva, seguida de O que será (à flor da terra), ambas de Chico Buarque.

E eu, que já estava no caixa, passando as compras, cantei em voz alta sem vergonha e sem medo de ser feliz. Porque não é todo dia que toca Chico no supermercado.

Isso me fez lembrar do projeto 180 cartazes para sair da fossa, que volta e meia publica algo do Chico. Como esse aqui:


Chico, amor eterno, amor verdadeiro!

segunda-feira, 27 de maio de 2013

A carta

Meu bisavô José Procópio estava muito doente. Ele tinha sido desenganado enquanto morava em Recife com a família. Depois de ter conversado com o médico e ter um dos filhos atropelado, ele só esperou a recuperação da criança e voltou pra Minas Gerais. Deixou a família em Ouro Preto e foi para o Rio de Janeiro. Não sei o motivo dele achar que seria melhor ir para o Rio.

Ele estava lá quando mandou uma carta para minha bisavó Enoe pedindo para que ela enviasse as malas da família e arrumasse tudo para deixar Ouro Preto em direção ao Rio.

No dia seguinte, ele mudou de ideia. Enviou uma carta para a minha bisavó:




Diz a carta:

Enoe, 
Hontem te mandei uma carta pedindo para mandares as malas que ahi estão. Hoje resolvi o contrário pois o meu estado é de tal ordem que não vejo mais o que estou escrevendo e julgo impossível continuar a trabalhar. Aguardemos mais uns dias para ver se melhoro. Se não voltarei para ahi.
Saudades do Juca
Rio, 21/05/929

Ele piorou e acabou voltando para Ouro Preto, para morrer. Não sei a data ao certo, mas foi coisa de meses após ter escrito.

Vovó Enoe guardou essas e outras cartas trocadas com o marido. Tia Ylza tinha sete anos quando o pai morreu. Ela leu todas as cartas, mas esta aí em cima, em especial, a marcou. Vovó Enoe não gostava que ela ficasse lendo as cartas e resolveu jogar todas fora. Mas Tia Ylza escondeu esta e ela está chegou a mim 84 anos depois de ter sido escrita.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Livro: Triângulo das Águas

Li para o Clube de Leitura e amei.

No início, estava super com o pé atrás, porque nunca tinha lido Caio Fernando Abreu e acabei pegando nojinho por causa da banalização dele na internet. Ok que mais da metade do que publicam como sendo dele não é. Por isso, resolvi enfrentar o livro. Acho que até por estar bem receosa é que tive uma espécie de deslumbramento.

Triângulo das águas foi escrito logo depois de Morangos Mofados, que é um dos livros mais famosos do autor. No prefácio ele fala que foi um livro de escrita fluida, mas que levou a uma revisão dolorosa. Dá pra entender isso, porque é uma leitura linda, mas muito triste.

São três contos: Dodecaedro, O Marinheiro e Pela Noite. Gostei muito de todos. Mas O Marinheiro foi o que mais me abalou. Talvez porque fala sobre solidão.

Em Dodecaedro temos doze pessoas num sítio quando alguém solta os cachorros loucos. E o medo do fim do mundo, as canecas quebradas, os beijos, os abraços, a falta de luz, as janelas fechadas, tudo isso mexe com as pessoas ali de uma maneira diferente.

O marinheiro é a história de um homem solitário que foge de qualquer contato social, mas pressente a chegada de uma visita especial, da qual ele não pode fugir. E a expectativa balança estruturas que, até então, pareciam sólidos.

Pela noite é uma história que, a princípio, parece ágil e divertida, mas é sofrida e dolorosa. Dois amigos, Pérsio e Santiago, conversam sobre tudo enquanto bebem vinho e vão de bar em bar. O passado é cruel, o presente parece sem rumo e o futuro, quase sem perspectivas.

Foi uma delícia começar a ler Caio Fernando Abreu por Triângulo das águas. 

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Clube de Leitura

Uma época, há muito, muito tempo, tentei fazer uma espécie de Clube de Leitura com uma amiga. A gente combinou de ler os mesmos livros e comentar. Deu certo por um tempo. Pouco tempo. A gente fazia isso com os livros indicados pro colégio e com outros, que escolhíamos aleatoriamente. Lembro que a Lu me deu Éramos Seis e foi um dos livros que mais comentamos. A Lu já tinha lido, eu não. E o assunto rendeu.

O nosso encontro literário não deu certo porque nós duas mudamos de escola. Eu fui pra uma e ela pra outra (mas depois ela voltou pra nossa escola original) e começamos a estudar pro vestibular. Aí nossos encontros rarearam e, quando aconteciam, era pra conversarmos sobre nossas vidas, tão mudadas naquela época. 

Sempre senti saudades daquelas conversas. Especialmente porque a Lu era a pessoa com quem eu mais falava sobre os livros que eu lia. Daí que fiquei um tempão sem ter alguém pra comentar meus livros. Publicar aqui sobre esses livros ajuda um pouco, porque me faz lembrar de coisas marcantes de cada livro. 

Mas aí surgiu a Set Palavras e criou um Clube de Leitura. E já teve primeira reunião e tudo!

Os primeiros livros sugeridos foram A volta do parafuso, de Henry James; Triângulo das águas, de Caio Fernando Abreu, e Madame Bovary, de Flaubert. Não consegui reler o Flaubert, mas consegui terminar os outros dois. E amei. Falo sobre eles em outros posts.

A reunião foi muito legal. Tinha o Valter, um amigo querido, que é dono da Set Palavras e coordena o Clube, e um monte de mulheres. De todas as idades, de todos os jeitos. E o debate foi muito, mas muito bacana. Aprendi muito com as meninas e estou muito animada para a próxima reunião. 

Os próximos livros são Evangelho segundo Jesus Cristo, de Saramago, e Memórias póstumas de Brás Cubas, do Machado. O Brás Cubas eu li há mais tempo. O Saramago ainda não. Mas já peguei o livro e comecei a leitura. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Citações 31

De Alexandra Lucas Coelho, em Caderno Afegão. Ela estava em Kandahar, durante um combate entre forças internacionais e os taliban, em junho de 2008:

Explosões e helicópteros Apache, mas crianças a tomar banho no braço do rio. Por que não? Está no calor E tudo aqui é tão menos assustador por ser a vida de todos os dias. Cabul parece ser perigosa vista da Europa, depois Kandahar parece perigosa vista de Cabul, depois Arghandab parece perigosa vista de Kandahar. E no fim de tudo há sempre homens que vendem bebidas em lata ou têm pomares, homens e crianças descalças a tentarem viver num país sacudido por trinta anos de guerra fria e quente.

sábado, 11 de maio de 2013

Minhas nonagenárias e suas particularidades

Há tempo eu costumava dizer que a minha família era como um Clube das Octogenárias. O tempo foi passando e muita gente foi nos deixando. É natural quando a família é idosa. É até mais fácil de lidar com a morte quando todo mundo tem mais ou menos a mesma idade. A gente aprende que a dor nunca para, mas fica bem melhor quando a saudade sobressai. E é a saudade que deve prevalecer.

Digo isso porque as duas mocinhas que fazem meu coração acelerar, Vovó e Tia Ylza, já passaram dos noventa. Vovó faz 95 em julho e Tia Ylza faz 91 em setembro. As duas continuam a me surpreender. Pela disposição e pela personalidade.

Vovó está bem cansadinha, bem estressada. É que Paulo está viajando e ela não dá conta de ficar longe dele. Sempre sofre, sempre fica ansiosa, sempre arruma mil dores em todos os cantos do corpo uns dois dias antes dele viajar. E só melhora, só relaxa, quando ele volta. Ainda bem que ele está voltando. Vovó é assim porque é filha do Vovô Camillo. E dizem que ele era um ansioso daqueles, de repetir a mesma frase um milhão de vezes, de estar pronto pra sair meia hora antes do momento combinado, de querer tudo certinho, do jeito dele. Aqui costumamos brincar, quando vovó fica ansiosa, dizendo que nem precisa de DNA, ela é mesmo filha de Sô Millo (como costumavam chamar meu bisavô).

Tia Ylza tem a personalidade mais marcante. Às vezes é mais fácil de lidar com ela do que com vovó, porque ela quase não é ansiosa. Mas é muito teimosa. Se ela colocou uma coisa na cabeça, não adianta tentar tirar. Ela encasqueta com uma coisa e levanta aquela bandeira até a gente desistir. Na última quarta, encontramos ela com o lado esquerdo do rosto bem inchado. Uma bolinha no olho. Parecia um terçol. Ela disse que o rosto estava doendo, em volta da bolinha, mas não queria remédio, não queria médico, não queria nada. Na sexta, a bolinha ainda estava lá, o olho lacrimejante e a pele da testa cheia de bolinhas de alergia. A conclusão a que chegamos é que ela deve ter sido picada por um inseto à noite (uma aranha, tenho quase certeza, mas não quis dizer isso a ela). Sugeri um médico, de novo. Ela disse que não, que estava ótima. Falei, então, que no sábado, quando voltasse lá, se ela não tivesse melhorado, eu levava ela ao médico de qualquer jeito. Ela me olhou daquele jeito bravo e disse: "Então não vem aqui amanhã, Aline!". Daqui a pouco eu vou pra lá. E sei que, não importa como ela estiver, não vou conseguir levá-la ao médico.

Cuidar das duas nonagenárias dá um trabalhinho. Mas é um trabalho gostoso, prazeroso. Até porque me permite aproveitar, mais do que ninguém, a companhia dessas duas lindas.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Cuidar de si

Não sei há quanto tempo eu tenho o blog da Camila no Reader.

Pausa para falar que vou morrer de saudades do Google Reader. Atualmente estou usando o Feedly, mas não é a mesma coisa.

O blog sempre tem alguma coisa interessante. Mas um dos últimos posts foi daqueles que dão vontade de compartilhar (exatamente como se fazia com o Google Reader de antigamente, em que podíamos seguir pessoas e acompanhar o que elas liam. Espero que o G+ ou o substituto do GReader, se houver, tragam isso de volta). Ela fala sobre o cuidar de si. Mais especificamente, sobre o momento em que a gente passa a cuidar de si.

Olha o começo do texto: "Uma amiga disse uma coisa tão bonita. Que não cuidar bem de si é não ter feito o luto pelo fato de que seus pais não cuidam mais de você. Cuidar de si é matar os pais, portanto. Não cuidar de si é, literalmente, o que de mais infantil uma pessoa pode fazer. É ficar bravinho e bater o pé porque papai e mamãe não estão mais aqui para tomar conta."

O texto inteiro pode (e deve) ser lido aqui.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Filmes de Robert Downey Jr.

Mais um post coletivo, com a galera do Cinema de Buteco. O contemplado da vez é Robert Downey Jr. Confesso que não vi muitos filmes com ele, mas tem um que é querido: Chaplin. Meu texto é sobre ele.

O post Os 10 melhores filmes de Robert Downey Jr. pode ser acessado aqui.

sábado, 4 de maio de 2013

Juntos

Algumas coisas ainda me espantam. Uma é minha vida com o Leo. Já comentei várias vezes que acho curioso estarmos juntos. No começo do namoro, a gente até brincava que éramos a versão mineira do filme Ladyhalke (O feitiço de Áquila) porque, como os protagonistas, nós tínhamos tudo pra não nos encontrar. Só pra início de conversa: sempre fui do dia; Leo é da noite. Esse era o ponto de partida pra gente listar mais um montão de diferenças.

Mas aí fomos namorando, começamos a trabalhar juntos, abrimos a agência. Ficamos quase 24 horas por dia juntos, com breves intervalos para minha análise e meu RPG e pras saídas de bike dele. Quase como naquela música Eu te amo, do Chico Buarque (com a diferença de que não estamos nos separando), em que o casal não consegue mais viver um sem o outro.

Essa introdução toda foi pra contar uma coisa que aconteceu na última semana. Estávamos indo para o Escadabaixo, o bar daqui que é quase a nossa segunda casa. No início da rua Direita, vi o carro de uma amiga. Sei que é o dela porque ele tem um adesivo quase exclusivo. Daí Leo comenta comigo que tinha um carro ali na rua com a janela aberta. Vi que ele tinha razão. E que era o carro da minha amiga.

Ligamos pra ela, mas não fomos atendidos. Comecei a escrever uma mensagem enquanto subíamos a rua. Quando chegamos no bar, eu estava terminando de escrever a mensagem. E olha o filho da minha amiga lá! Perguntei onde ela estava e Leo foi falar com ela sobre o carro aberto. Ela foi correndo fechá-lo e nos agradeceu bastante.

Pensando sobre isso, cheguei à conclusão de que Leo e eu formamos mesmo um time. Se estivesse sozinha, teria visto só o carro da minha amiga. Sozinho, ele teria visto só um carro aberto. Juntos, um completa o que o outro vê.

Sei que eu falo demais do Leo (especialmente aqui, aqui e aqui). Mas hoje é especial. É mais um aniversário dele. E praticamente uma semana antes passamos por esse episódio do carro. Que só reforçou que é juntos que devemos ficar, até quando for possível.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Pílulas do momento #7

1 - Viver sem.
Tava pensando, outro dia, em como seria o meu trabalho sem internet. Hoje eu dependo dela quase 100%. Se não fosse por ela, eu teria que sobreviver como repórter e ia ser osso, porque eu odeio reportagem. Daí fui pensar em outras coisas que não sei como vivia sem. Internet, gorgonzola e Leo. Não necessariamente nessa ordem.

2 - CDF
Saíram as notas na faculdade. A cada uma, ficava mais espantada. No final, fiquei feliz até! E reforcei que me saio melhor fazendo prova do que ensaio. Foi assim: 9 em Filosofia Medieval (ensaio); 9 em Seminário de Ensino Filosófico I (ensaio); 9,4 em Antropologia Filosófica (provas e seminário); 10 em Filosofia Social e Política (provas). Média de 9,4. Foi um bom retorno à faculdade. Só não sei se vou conseguir manter nos próximos semestres.

3 - Tchau, branquinha
Vendi minha bicicleta. Há um ano sem pedalar e sem perspectivas... estava triste demais com ela parada lá, num cantinho. O lado bom é que quem comprou foi a Lícia, então nem doeu tanto assim me despedir da minha branquinha.

4 - Novo surto susto
Aconteceu de novo. Sabe aquela coisa que você sabia que ia acontecer, só não sabia quando? Aconteceu. Mas foi bom. Parece que agora ela tomou consciência de que tem uma condição e que tem que aprender a conviver com ela. Espero que não seja só uma consciência momentânea, mas que dure, porque é mais fácil se adaptar e aprender a viver com um problema do que ficar dando murro em ponta de faca.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

A história do Saci

Meu avô Ney era uma figura singular. As lembranças que tenho dele são de uma pessoa extremamente amorosa e dedicada e também muito alegre e engraçada. A figura casa com o que me contam dele. Muita gente aqui de Ouro Preto vem me falar dele, dando destaque, especialmente, para a aspirina que ele fazia (dizem que o remédio do vovô era muito melhor do que o da Bayer).

Tia Ylza estava contando, outro dia, que vovô ganhou um pequeno saci de um amigo para colocar no espelho retrovisor interno do carro. Mas vovô era desligado e os tempos eram outros. Ele costumava deixar o carro aberto por aí. E nessas, o saci foi roubado.

Pausa pra dizer que é interessante alguém roubar um saci e não roubar um carro. Outros tempos, outros tempos.

Vovô foi atrás de outro saci. E este também foi roubado. Daí, ele apelou. Comprou uma caixa com 12 sacis. O problema é que os dois anteriores tinham uma roupinha de pano. Os 12 novos vieram peladinhos. E ele queria um saci de família, bem vestido, nem que fosse com uma cueca.

Foi assim que ele apelou pra Tia Ylza. Pediu a ela pra costurar uma roupinha pro saci. Tia Ylza, que é a mágica das agulhas, resolveu fazer uma roupinha de lã. O resultado: vovô tinha um novo saci pro espelho do carro. E ele foi roubado novamente. Os outros 11 sacis foram morar na casa da Tia Ylza e, sempre que um era roubado, lá ia ela tricotar uma roupinha pro saci. Assim foi até que vovô desistiu dos sacis e sobrou só um, peladinho, num dos armários da casa da tia.

Daí eu, que não tinha uma lembrança muito nítida dos sacis do vovô, mas sabia que eles existiam, pedi a ela pra ver o tal remanescente. Ela não me mostrou. Falou que não sabia onde estava, que ia procurar, que quando encontrasse me deixava ver.

Só que, danadinha como é, Tia Ylza me fez foi uma surpresa. Ela fez a roupinha e me deu o saci vestido, super bonitinho, do jeito que a minha memória ruim lembrava. E agora ele mora no meu quarto.

Meu saci

Agora, fala sério! Tia Ylza é mesmo mágica. Dá pra ver que o bichinho é pequenininho, e ela faz esse trico mais lindo, super bem acabado! 91 anos de vida e ainda fazendo artes.