quarta-feira, 31 de julho de 2013

Citações 35

De Meio sol amarelo, de Chimamanda Adichie.

'Abba nunca foi derrotada por ninguém. Eu repito, Abba nunca foi derrotada'. A voz dele era forte. Tinha apenas uns tufos, feito bolas de algodão, na cabeça, e seu cajado tremia toda vez que ele o martelava no chão. 'Nós não saímos atrás de briga, mas quando a briga nos acha, nós esmagamos todos que estão contra nós. Nós lutamos com Ukwulu e Ukpo e acabamos com ele. Meu pai nunca me contou de nenhuma guerra perdida. Nós nunca fugiremos de nossa terra natal. Nossos ancestrais nos proíbem. Nós nunca fugiremos da nossa terra'.
A multidão aplaudiu. Assim como Olanna. Lembrava-se dos comícios pró-independência da faculdade; os movimentos de massa sempre a deixavam com a sensação de poder; por um curto período, todo mundo unido por uma só possibilidade.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Livro: Ela é uma fera!

A Marina Carvalho está investindo na carreira de escritora. Fico feliz com isso, porque ela escreve mesmo muito bem. Logo depois de Simplesmente Ana, ela lançou Ela é uma fera!, uma releitura para o clássico A megera domada, de Shakespeare. O livro faz parte de um projeto de incentivo à leitura da editora Novo Conceito e está sendo comercializado apenas em formato de e-book, pelo preço simbólico de R$ 1,40.  Comprei o meu pelo IBA e li no Ipad.

É um livro gostoso de ler, a leitura é rápida e agradável. E é fácil se identificar com os personagens ou reconhecer neles alguém que a gente conhece, da família, do grupo de amigos.

Ela é uma fera! é a história das irmãs Carolina e Clara. A primeira tem uma personalidade bastante forte, não se dobra pra ninguém, não faz média, não leva desaforo pra casa. A caçula é meiga e chama atenção por sua beleza. As duas são filhas de Roberto Batista, que foi abandonado pela mulher e faz tudo pelas filhas. É um pai bastante protetor e que estabeleceu regras rígidas para a filha mais nova: ela só pode namorar depois que entrar na faculdade (o que deve acontecer daí a dois anos) ou só depois que Carolina arrumar um namorado. E como ela é considerada uma megera... a vida de Clara está bastante complicada. A garota é apaixonada por Henrique, o bonitão da escola, e é correspondida. Ela também é alvo do amor de Lucas, um garoto que veio dos Estados Unidos para morar em São João Del-Rei e estudar no Colégio Santo Antônio de Pádua.

Henrique é o boyzinho da escola, riquinho e bonitinho mas ordinário. Para resolver sua vida e poder sair com Clara, ele contrata Pedro Verona, um universitário que vive em uma república ao lado de sua casa. O acordo entre os dois é: Pedro conquista Carolina e abre o caminho para que Henrique fique com Clara. Pedro aceita e encara sua missão: domar a fera.

O ponto mais legal do livro é trazer a história de Shakespeare pros dias atuais. Carolina está na faculdade, estuda Comunicação Social. Pedro estuda Engenharia. Clara, Henrique e Lucas estão no Ensino Médio. São João Del-Rei é o cenário, mas a história tem uma passagem rápida por Tiradentes, duas cidades lindas de Minas. Lucas é um garoto sensível, que valoriza as pessoas ao seu redor. Pedro e Henrique podem ser comparados àquela frase "não compre o livro pela capa". Henrique é bonitão e sedutor, mas quase não tem caráter. Pedro tem pinta de badboy, mas é um garoto solidário e gentil.

Foi fácil me identificar com a Carolina. Porque ela é estudante de Comunicação Social e porque é de poucos amigos. Eu era assim na época da faculdade e a Marina é uma das que pode atestar o fato. Acho que até hoje eu sou meio Carolina Batista - abri uma frestinha pro mundo, mas ainda fico mais na minha. E, como no caso dela, tive o meu Pedro Verona - o Leo, que passou feito um furacão em cima de muitas das minhas certezas.

Senti falta de duas coisinhas no livro: a história da mãe de Carolina e Clara (realmente é algo que não faz falta no desenvolvimento da trama, mas eu queria saber mais #curiosa) e como Pedro resolveu o problema que o levou a aceitar o dinheiro de Henrique (#curiosaaocubo). Na verdade, é que foi tão gostoso de ler que eu queria mais.

Mas a minha principal crítica vai pra editora Novo Conceito. Dá até pra entender que é um projeto de incentivo à leitura e pra isso o livro tem um preço baixo. Mas vamos combinar que R$ 1,40 não valoriza o trabalho da escritora - e menos ainda o da própria editora! Não consigo imaginar que, após o sucesso de Simplesmente Ana, a editora não tenha impresso Ela é uma fera!. E, querendo incentivar a leitura, não tenha impresso e colocado um preço popular, mas que valorizasse o trabalho da escritora e da editora.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


sábado, 27 de julho de 2013

Pílulas do momento #8

1 - Das viagens meio estranhas
Vamos fazer uma viagem em setembro e, para prepará-la, precisamos ir pra São Paulo. Foi bate e volta, fomos num dia, voltamos no outro. Não saímos, não encontramos com pessoas queridas e com a família (fica pra próxima, Tia Sandra). Tudo o que a gente queria era resolver o problema logo. Deu certo. Agora começa a fase mais hard do planejamento. Confesso que estou mais animada porque, afinal, não saio de "férias" assim, no meio do ano, desde que me casei, há cinco anos.

2 - O taxista engraçadinho
Quem me conhece sabe que eu sou quase uma concha. Não sou de puxar papo com qualquer um em filas, em ônibus, no táxi. Mas como tem taxista que gosta de conversar, né? Esse em questão nos levou do Morumbi Shopping pro aeroporto de Congonhas. Logo que entramos no carro ele perguntou de onde éramos. Ao saber que somos mineiros, já foi logo falando de futebol, perguntando sobre o jogo do Galo (campeão da Libertadores, assunto pra outro post). Depois falou que era clandestino em São Paulo, que veio de outro Estado. E começou um jogo de adivinhações, em que ele falava a primeira letra do nome que queria que descobríssemos, dizendo que tinha colocado a bola na linha do pênalti, faltava só a gente chutar pra fazer o gol. Ele se chama Oswaldo. Veio da Bahia pra São Paulo em 1968. Uns anos depois, conheceu a Helena e se casou com ela. Tem um filho chamado Fábio. Torce pro Santos, mas tem um segundo time, que é o Corinthians ("torço sempre pro Corinthians perder", explica). É fã de Itamar Franco ("foi ele quem consertou a inflação do Brasil", afirma).

3 - O livro
Todo mundo fala que pra se realizar é preciso plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Já plantei a minha árvore, apesar de não vê-la há muitos anos. Filho, pelo jeito, não vou ter - ao menos por enquanto não está nos planos. E o livro sempre foi um desejo enorme, daqueles que vêm desde sempre. Publicar um livro inteiro ainda está nos planos, mas não vai acontecer por enquanto. O livro que eu comentei no item 4 desse post aqui já tem ISBN. Agora é só esperar a editora da Ufop colocar pra rodar. Vai ser uma edição pequena, com 200 exemplares. Mas só de ter um texto meu lá, já tô me sentindo muito bem.
Acontece que agora vem outro livro. Fui convidada pra escrever o capítulo de um livro sobre o meu padrinho. Ele foi uma pessoa de muito destaque aqui em Ouro Preto. Foi professor de português, inglês e grego, fundou um grêmio literário que movimentou a cidade por várias décadas, se dedicou à juventude, promovia festivais de teatro, música e cultura, era muito amado por todos. Foi paraninfo de várias turmas da Escola Normal e da Escola Técnica Federal de Ouro Preto. E eu tinha que dividi-lo com tanta gente... ele era padrinho de várias pessoas, da família e de fora dela. Eu queria ele só pra mim. E ganhei dele a preferência, ele me chamava de "afilhada querida". Deixou pra mim seu último sorriso, na véspera da sua morte. E a última coisa que ele falou foi "afilhada querida", naquela voz rouca dos entubados.
E eu vou escrever uma biografia familiar dele. Para compor um livro que será lançado em novembro, no dia em que ele faria 100 anos. Me sinto grata. E muito honrada.

4 - Provas
Já fiz quatro neste semestre. A performance não está a mesma do semestre passado. As matérias são mais complexas e o meu tempo anda mais escasso, por causa da Revista Em Minas. Tirei 8 em Filosofia da Ciência. E 7,5 em Filosofia do Direito. Ainda não sei o resultado de Filosofia Moderna, nem de Ontologia. Espero não ter ido mal. O fato é que tá mais difícil, o que me fez desistir de cursar Filosofia da Arte, a única matéria que estava fazendo à noite e a que mais queria fazer dessas aí. E tá me fazendo pensar em cursar só três disciplinas no próximo semestre. Vamos ver...

5 - Oficina
E no meio de toda a bagunça da vida, veio o Festival de Inverno. E mais uma oficina do Bom Será. Dessa vez, o tema foi Histórias Invisíveis. Passeamos por pontos de Ouro Preto em que poucos turistas vão e que poucos ouro-pretanos conhecem. Pra mim, foi a melhor das três oficinas que já oferecemos. O resultado está sendo publicado no Bom Será.

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terça-feira, 23 de julho de 2013

Livro: O evangelho segundo Jesus Cristo

E eis que terminei a leitura de O evangelho segundo Jesus Cristo, livro da segunda edição do Clube de Leitura Set Palavras. Eram duas opções: o Saramago e Memórias Póstumas de Brás Cubas, que eu li em mil novecentos e antigamente. Escolhi o Saramago porque dele só tinha lido Ensaio sobre a cegueira. O resultado é que me apaixonei pelo livro.

Logo no primeiro capítulo temos uma análise do que parece ser uma pintura da paixão de Cristo. O narrador onisciente vai desvendando as expressões, as posições de cada personagem, o que eles poderiam estar pensando, como chegaram até ali. Confesso que jamais imaginei que o texto começaria desse jeito.

A partir do segundo capítulo, inicia-se a história da vida de Jesus. E, como não podia deixar de ser, Saramago faz uma narrativa brilhante, emocionante, cheia de detalhes. Talvez seja preciso lembrar que O evangelho é uma história ficcional. E, mais ainda, escrito por um ateu. Então, quem estiver querendo fidelidade à bíblia só vai encontrar em um personagem, muito específico: Deus. O Deus do livro tem todas as características do Deus do Antigo Testamento. Um deus vaidoso, ardiloso, cheio de artimanhas, quase mau. Aliás, em alguns momentos, bem mau. Jesus já é um cara rebelde, que só aceita seu destino de cordeiro de Deus após uma longa conversa com Deus e o Diabo no meio do mar (uma metáfora linda para os 40 dias em que Jesus passou no deserto, sendo tentado). Sim, no livro, ele se conforma com seu destino e com o sofrimento de muitos que vieram depois dele, apenas porque o destino já estava traçado por Deus. Ainda estou maravilhada com as últimas palavras de Jesus no fim da história (que todo mundo já conhece, não é?).

O personagem que mais me fascinou foi José, o pai de Jesus. O homem que carregou as mortes de várias crianças de Belém nas costas, porque só se preocupou em salvar sua família. O homem bom que se estabeleceu como carpinteiro em Nazaré e que amou os filhos e a mulher, era um bom judeu, temente a Deus e cumpridor da lei, que colaborou com seus vizinhos em vários momentos e que, ao tentar ajudar uma pessoa, acabou sendo levado à morte, e morte de cruz, aos 33 anos, sendo inocente. A história de José fez meu coração doer. E Maria Madalena, que mulher bacana!

Abro um parênteses sobre essa questão do ficcional, que falei no início do texto. A Bel, minha amiga querida, leu o livro e não gostou. Não sei se foi exatamente o caso, mas entendi que a expectativa não correspondeu à realidade, que ela achou desrespeitosa a caracterização dos personagens. O texto da Bel sobre o livro está aqui. A minha opinião é outra. Não achei o livro desrespeitoso. Talvez porque, no momento, não tenho religião. Mas já fui católica apostólica romana, já trabalhei muito na igreja, fiz parte de um monte de grupos e pastorais, já estudei muito a Bíblia. E o que mais se ressaltou do livro pra mim foi o Deus do Antigo Testamento, que é bem diferente do Deus que Jesus apresenta no Novo Testamento bíblico. Jesus apresentou um outro deus, bem diferente daquele dos judeus. E Saramago preserva isso. Se o Deus antigo é cruel, vaidoso, até incoerente, o Deus que Jesus queria é bem mais condizente com que esperamos de algo/alguém nessa "posição".

Mas volto a dizer que não achei o livro desrespeitoso porque a proposta dele não é essa. É ser ficção, usando  vários elementos da história bíblica. Como muitos autores fazem (a série Ramsés é um exemplo bem "best seller" de ficção com um pé na história). E como ficção, é maravilhoso.

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domingo, 21 de julho de 2013

Aniversário da vovó

Dia 2 de julho é aniversário da vovó. Ela fez 95 anos. E tá tudo atrasado por aqui. Livros, filmes, textos, datas. Por isso é que hoje, quase um mês depois, publico o aniversário da vovó.

Neste ano, quis fazer uma coisa diferente. Comprei um bolo com um cake designer, o Fabrício Lima. Ele tem um blog e uma fanpage, onde dá pra ver algumas de suas obras. Os bolos são lindos! Escolhi um mais simples pra vovó. Simples, mas muito bonito. O recheio foi ao gosto dela: côco com baba de moça.

E a tia Ylza fez a tradicional Montanha Uruguaiana. Tio Jésus e Tia Vera vieram pra nos fazer companhia. E vovó, no dia seguinte, foi visitar a Tia Ylza.

O bolo by Fabrício Lima

Detalhe do bolo

Vovó com o bolo

A Montanha Uruguaiana e o bolo

Tia Vera fazendo as honras da casa

Vai um pedacinho aí?


Eu, vovó, Tia Ylza, Tia Vera e Tio Jésus

Leo, vovó, Tia Ylza, Tia Vera e Tio Jésus


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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Filme: Ilha da Morte

El cayo de la muerte - 2006 (está 2010 no IMDB) (mais informações aqui)
Direção: Wolney de Oliveira
Roteiro: Arturo Infante, Manuel Rodriguez, Alfonso Zarauza
Elenco: Rodolfo Caleb Casas, Alberto Pujol, Laura Ramos, Cláudio Jaborandy

Uma fábula ou um filme. Uma história dentro de um filme. Um relojoeiro que à noite pixa muros. Um garoto apaixonado por cinema que cria uma história a propósito de um amor. Uma história de paixão vira uma história de subversão. A ilha existe ou não?

Ilha da morte é um achado. É dirigido pelo brasileiro Wolney de Oliveira, mas rodado em Cuba. E é uma homenagem ao cinema cubano da década de 1950.

O filme recebeu os prêmios: melhor roteiro no Festival de Cinema Latino-anericano de Trieste, Itália (2007), melhor filme pelo Júri Popular, no Festival de Cinema e Vídeo de Macapá, Amapá (2007).

Meu texto sobre o filme está no Cinema de Buteco.

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quarta-feira, 17 de julho de 2013

Do Bom-Será - Ouro Preto 10 anos depois

Era 2003. Precisamente primeiro de abril. Meu primeiro dia morando novamente em Ouro Preto. Emprego novo, vida nova.

Em 10 anos, muita coisa mudou. Uma é bem pessoal: nunca mais usei saltos altos.


Quando morava em Belo Horizonte, vivia de salto alto. Só tirava em casa. Bastava ir pra rua que lá estava um salto. Quando voltei a morar em Ouro Preto, resolvi aposentar os saltos para quase-todo-sempre, excetuando ocasiões especiais. O que resultou disso: um amigo, quando me viu sem salto, me disse que eu era propaganda enganosa, já que ele sempre achou que eu era mais alta. E completou me chamando de "vara de cutucar abacaxi". 

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segunda-feira, 15 de julho de 2013

Citações 34

De Meio sol amarelo, de Chimamanda Adichie.

A primeira e única vez que Odenigbo a visitou em Lagos, eles tinham ficado na varanda, olhando a piscina, e Odenigbo atirara uma rolha para vê-la mergulhar na água. Tinha bebido muito conhaque e quando seu pai disse que a ideia de uma universidade em Nsukka era bobagem, que a Nígéria ainda não estava pronta para uma universidade nativa e que receber apoio de uma universidade americana - em vez de uma universidade de verdade, da Grã-Bretranha - era pura tolice, a voz de Odenigbo se alterara. Olanna achava que ele iria perceber que o pai só queria atazanar e mostrar que não estava nem um pouco impressionado com o catedrático de Nsukka. Achava que Odenigbo não levaria em conta as palavras do pai. Mas sua voz foi ficando cada vez mais alta, ao discutir a necessidade de a universidade de Nsukka se ver livre da influência colonial, e de nada adiantaram as piscadas que ela deu porque ele não viu, quem sabe por haver pouca luz na varanda.

sábado, 13 de julho de 2013

Livro: A maldição do espelho

Fazia muito tempo que eu não lia Agatha Christie. Muito tempo mesmo. Esse negócio de estudar filosofia prejudica a vida literária da gente, hahahahaha. Mas amei voltar a ela. Leo me deu o livro, acho que por pena, porque estou lendo cada coisa complicada pras aulas e sem muito tempo de me dedicar aos livros que eu amo.

A maldição do espelho é um livro de Miss Marple, a velhinha mais esperta do mundo. Ela sempre conhece alguém que se parece com alguém que está envolvido com um crime e, ao analisar as personalidades, sempre consegue descobrir coisas que ninguém mais vê. Uma coisa que me chamou a atenção neste livro é que ele remete ao primeiro caso de Miss Marple que eu li, Um corpo na biblioteca. A ação se passa na mesma casa, Gossington Hall, que agora foi vendida para uma famosa atriz de cinema, Marina Gregg. E ela inaugura a casa com uma bela festa beneficente.

E aí, uma fã de Marina Gregg morre ao tomar um coquetel. A polícia avisa que havia uma superdose de calmantes em seu corpo e começa a investigação: quem poderia querer matar a Sra. Badcock? É quando se descobre que Marina Gregg deu seu copo de coquetel para a Sra. Badcock e a pergunta muda: quem queria matar Marina Gregg.

Miss Marple, praticamente sem sair de casa, consegue ajudar o inspetor Craddock. Juntando o disse-me-disse do povoado de St. Mary Mead, onde vive, com fatos e conversas com amigos, a velhinha detetive consegue enxergar todo aquele óbvio que ninguém mais vê.

O grande problema do livro é que parece que ele foi encerrado correndo. Agatha deixa algumas pontas soltas, algumas coisas sem explicação. E isso não é muito comum na obra dela. Apesar da história ser envolvente e a solução ser interessante, parece que falta alguma coisa. É mais um livro da autora pra minha lista, mas um que não marcou tanto assim.

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quinta-feira, 11 de julho de 2013

O que (eu acho que) tem de bom pra ler na net #9

1 - Depois de ler, doe
Gosto muito desse site, Livros só mudam pessoas. É um dos primeiros que busco no Reader. Neste link, uma ONG australiana, em parceria com uma editora, criou um projeto em que a sobrecapa de um livro se transforma num envelope. Aí, depois de lido, ele pode ser doado para uma instituição via correio. É uma ideia muito bacana. Eu costumo doar meus livros, em especial depois que parei de reler para poder conhecer mais livros novos. Já fiz boockcrossing, já participei do Trocando Livros, já doei pra bibliotecas públicas e comunitárias. E acho uma delícia quando o livro sai da minha estante e vai em direção a pessoas que vão lê-los.

2 - Jornalismo caboclo
O Duda Rangel sempre sai com umas coisas divertidas ou bem reflexivas sobre o jornalismo e os jornalistas. Agora foi essa versão de Faroeste Caboclo. Tem poucas coisas que eu não concordo. E não deixa de ser um motivo pra se pensar.

3 - Depressão
Porque é leve, mas faz pensar. Porque é divertido, mas com uma ponta de seriedade. Aqui o Carlos Ruas fala sobre depressão, de uma maneira sutil, mas profunda.
Um sábado qualquer está entre as coisas mais legais da internet. Mesmo que os religiosos de plantão achem uma blasfêmia e tal. E tem gente, pasmem, que ameaça o Ruas...

4 - Um parto humanizado
Olha, eu me assustei demais com esse post da Luiza Diener. Ela tem um blog muito bacana, o Potencial Gestante, e estava grávida do segundo bebê. Decidiu fazer o parto em casa, sem anestesia, sem médicos. Aqui ela conta como foi o dia em que a Constança nasceu. E olha que ela não quis saber o sexo do bebê, só descobriu no nascimento. Corajosa, né? Mesmo assustando um cadinho, é um relato lindo. E eu acredito que tem gente que nasce pra ser mãe (e pai) e tem gente que veio sem o software instalado

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terça-feira, 9 de julho de 2013

Filme: Faroeste Caboclo

Faroeste Caboclo - 2013 (mais informações aqui)
Direção: René Sampaio
Roteiro: Victor Atherino, Marcos Bernstein
Elenco: Fabrício Boliveira, Ísis Valverde, Felipe Abib, Antonio Calloni

Confesso que tive medo quando ouvi falar de um filme sobre a música Faroeste Caboclo, da banda Legião Urbana. Nunca foi muito fã da banda, mas sempre gostei dessa música. É uma história interessante, mas cheia de furos. E eu pensava que, levada ao cinema, poderia ser bastante interessante. Mas tinha medo de virar uma obra ruim.

Fui pro cinema com o pé atrás e me surpreendi. O filme é muito bem feito, com boas atuações, um roteiro amarradinho e faz jus tanto ao cinema brasileiro quanto à música. Só não gostei de uma coisa: a narração em off do João de Santo Cristo. Não precisava. Mesmo.

A história todo mundo conhece: João de Santo Cristo sai da sua cidade e vai pra Brasília, onde conhece seu primo Pablo, um peruano barra pesada. Ele trabalha como carpinteiro e faz alguns bicos para Pablo, entregando drogas. Numa fuga da polícia, ele conhece Maria Lúcia, a menina linda que vivia infeliz. Filha de um senador, sem atenção do pai, ela tem um olhar triste vê em João um cara bacana, que oferece a ela mais do que os boyzinhos da cidade, como Jeremias, um traficante que vive de olho em Maria Lúcia.

O roteiro é feliz em contemplar alguns dos buracos da música, como o motivo de Maria Lúcia ter se casado com Jeremias. E trouxe o elemento faroeste. A cena do confronto entre João do Santo Cristo e Jeremias é linda! Não fica nada a dever aos faroestes spaghetti. Outra coisa legal é a cena da passagem de tempo entre a infância e a juventude de João, utilizando o poço onde a família pega água. E a passagem de João na Febem, pega todo mundo de surpresa. Você acha que ele está chegando lá mas, na verdade, ele está é saindo.

Enfim, um belo filme, muito bem feito.

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domingo, 7 de julho de 2013

Livro: Íon

Este é um dos principais diálogos de Platão no que se refere à crítica da arte. É bem sabido que Platão expulsou os poetas da sua República. Mas não sejamos cruéis com Platão, ele tem uma certa razão. Ele sabia do poder da arte em hipnotizar as pessoas e, de certa forma, fazer com que elas percam o centro, que parem de pensar racionalmente. Um paralelo, pra facilitar pro lado do filósofo, seria se alguém, hoje, montasse uma república e expulsasse a mídia de entretenimento. Ou seja, não dá pra condenar Platão.

Em Ion, Platão pega pesado com o personagem título. Íon é um rapsodo, uma pessoa que recita poesias, em geral em festivais. Os rapsodos apenas recitam a obras de outros, em especial de Homero. Os aedos já eram recitadores e também autores. Ou seja, os rapsodos não tinham tanto prestígio quanto os aedos. E Ion era um rapsodo que tinha acabado de ganhar um prêmio - eram comuns, na Grécia, as competições entre algumas "profissões". E Íon estava envaidecido por ter ganho o prêmio máximo. Voltando do concurso, encontra Sócrates e inicia-se o diálogo.

Sócrates desmonta praticamente todos os seus interlocutores com bons argumentos. Em geral, ele os pega pela vaidade, e não foi diferente com Íon. Sócrates vai perguntando a Íon sobre como é o seu ofício. E Íon vai dizendo que pode recitar e comentar a obra de Homero com louvor. E o filósofo continua questionando o ofício, quase forçando Íon a confessar que seu trabalho não é lá essas coisas: ele não precisa de técnica alguma, basta a inspiração divina. Isso quer dizer que qualquer pessoa pode ser um rapsodo. Tadinho do Íon...

Platão condenou os poetas ao degredo. Ele disse que só os admitiria de volta se alguém provasse, em prosa, que eles não eram nocivos. E quem provou exatamente isso? O próprio Platão, que escreveu todas as duas obras em forma de diálogo. E os diálogos nada mais são que as ideias (sem trocadilho) de Platão sendo romanceadas.

Vale ler também O banquete, que é um diálogo lindo sobre o amor.

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sexta-feira, 5 de julho de 2013

Sobre mentira o omissão

Todo mundo mente ou omite. Não existe (não mesmo) uma pessoa que não minta ou que não omita. Se alguém por aí afirma que não mente, já está mentindo, na própria afirmação.

Pausa pra dizer que conheço uma pessoa que um dia, num restaurante, teve a coragem de afirmar isso. Já não era uma pessoa que passava credibilidade. Depois dessa, então... E, olha só, a mesma pessoa "que não mente" já foi pega em tantas mentiras ardilosas que um grupo inteiro de pessoas começa a rir quando ela tenta pregar mais uma inverdade.

O fato é que escolhemos o que queremos fazer com a mentira e com a omissão. Fazendo uma análise bem grosseira, acredito que eu omito mais do que minto. Pelo menos é o que mais parece assim, olhando superficialmente. Em geral, minto para não desagradar alguém. "Nossa, que bacana" ou "Claro, vou sim" ou ainda "Pode deixar que te ligo" (essa é péssima, detesto ligar pra alguém, seja quem for. Aliás, detesto telefone). Não me lembro de ter falado grandes mentiras que prejudicaram pessoas e tal. Mas como todo mundo sabe que a minha memória não é boa... pode ter acontecido.

Já a omissão é mais comum. Especialmente porque não gosto de contar certas coisas pra certas pessoas. "Você conhece a fulana que namorou ele antes de mim?" em geral tem como resposta "Sei quem é, mas não convivi muito com ela".  Porque, né, eu não preciso participar desse tipo de ciclo de paranoia. Ou "Fulano me disse que amou tal coisa" recebe um "Olha, que legal" em resposta, se eu sei que o Fulano odiou. Pra quê incentivar inimizades?

Omito muita coisa da vovó. Em geral, pra evitar que ela sofra. Por exemplo, quando o Tio Antonino fez uma cirurgia pra retirada de um câncer e ficou muito mal de saúde, eu não contei pra ela. Só abri o jogo quando, dias depois, o tio faleceu. Ou quando a Tia Vera precisa fazer uma cirurgia, deixo pra contar depois, pra vovó não ficar ansiosa. Porque uma coisa é ela ficar preocupada com uma prova que eu tenho que fazer; outra é se preocupar com a saúde de alguém. Então, o que omito da vovó é pensando em evitar seu sofrimento.

Acontece que tem uma pessoa aí que, por um longo período, mentiu pra mim. Foram anos e anos de histórias e mais histórias de dor e sofrimento que me faziam ficar carregada, cheia daquela dor, pensando em mil maneiras de ajudar, propondo soluções, avaliando caminhos. Eu dormia com os problemas da tal pessoa, acordava com eles, viva com eles.

Daí, um belo domingo, a pessoa passa umas duas horas conversando comigo, no quarto da vovó, me contando o quanto ela sofre, o quanto está difícil, o quanto ela quer mudar. E eu, ali, enchendo a minha cabeça com os tais problemas. Na tarde do mesmo dia, a tal pessoa foi embora de Ouro Preto com a minha sogra. E durante a viagem, as duas conversaram bastante. Quando chegou em BH, minha sogra me procurou pra conversar e me contou o que a pessoa falou com ela. Era EXATAMENTE o contrário de tudo o que me disse pela manhã e por vários anos anteriores. Contrário mesmo. Pra mim, disse "escuro", pra ela disse "claro"; pra mim disse "pesado", pra ela disse "leve".

Isso me deixou possessa. Comigo, em primeiro lugar, porque não percebi que vinha sendo manipulada por anos e anos e anos. Com a pessoa mentirosa, em segundo, porque mentia para me fazer sofrer. Mentia para que, com o meu sofrimento, eu passasse a resolver a vida dela, a viver a vida dela. Era, de certa forma, uma prisão muito bem montada. E a ingênua aqui caiu direitinho. Só depois do que a sogra me contou é que consegui ligar os pontos e ver que estava presa em uma rede de sofrimentos de mentira, deixando de viver a minha vida para tentar resolver os problemas inexistentes de outra pessoa. E, justamente por serem inexistentes, é que os problemas nunca se resolviam, por mais soluções que eu encontrasse.

Isso tudo aí é pra dizer que, por mais que seja impossível viver sem mentir ou sem omitir, há algo chamado intenção. E é a intenção que vai determinar se a mentira ou a omissão podem, algum dia, ser consideradas positivas ou neutras ou negativas.

E, não, os fins não justificam os meios.

P.S.: Ando lendo algumas coisas esparsas sobre a moralidade para Kant. É muito bonito, mas me parece impossível de seguir. Ao menos, consegui aplicar uma ou duas coisas na vida e quero tentar mais. Vou continuar aprendendo.

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quarta-feira, 3 de julho de 2013

O que (eu acho que) tem de bom pra ler na net #8

Hoje meu avô faria 94 anos. Ele era um cara porreta! Em homenagem a ele, que era um cara a favor da liberdade, que respeitava as individualidades, escolhi algumas coisas que li atualmente que são bem parecidas com ele. Uma espécie de homenagem, mas que nunca chegará aos pés do homem maravilhoso que o meu avô Ney foi.

Aproveitando que estou confusa com todos esses movimentos rolando por aí, selecionei alguns textos e vídeos sobre o assunto, que acho que merecem uma reflexão.

1 - PC Siqueira e a aula sobre direita e esquerda
Vi o vídeo do PC Siqueira pelo Blog do Rovai e amei. Porque, de uma forma simples e clara, ele explica o que é direita e esquerda e o motivo de ter um monte de gente de direita entrando num movimento de esquerda. Explica até as contradições de quem está começando a pensar em política agora. Muito bom!

2 - Rumos do movimento
Um texto do Pablo Villaça, também muito interessante. Ele fala sobre o que viu na primeira passeata em BH, uma que foi inteiramente pacífica e muito pouco divulgada. Vale a pena se deter quando ele fala sobre o foco e como a falta de foco faz tudo ficar com a possibilidade de ser manipulado.

3 - O Brasil agora
Um vídeo do Pablo Villaça. São só dez minutos e bastante informação relevante. Em especial, quando ele levanta algumas contradições que estão rolando por aí.

4 - Apartidário e antipartidário
O André Barcinski é um crítico que tem muito a dizer sobre música e cinema, principalmente. Sigo o blog dele e sempre aprendo alguma coisa. Neste link ele fala sobre o que é ser apartidário e o que é ser antipartidário. Tem muita gente berrando contra os partidos políticos sem saber exatamente o que está falando.

5 - Está tudo muito estranho
Não lembro mais quem citou, no Twitter (e quem replicou no Facebook) sobre a confusão que este momento trouxe. Eu estou confusa. Não sei o que pensar, não sei no que acreditar. Aí, a Marília Moschkovich escreveu um texto enorme falando sobre como está tudo mesmo bastante confuso. Parafraseando alguém (juro que não lembro a fonte): em uma semana, o movimento foi de esquerda pra extrema direita. Se isso não basta pra confundir, então não sei de mais nada.

6 - Gigante surfa em onda perigosa
AS reflexões do Trilhos Urbanos são sempre interessantes. Agora, o filme A Onda vem à tona para uma comparação com a situação do Brasil atual.

7 - Sonho
Esse quadrinho do Fabio Coala traz algo a se pensar.

8 - Tem certeza absoluta? Que pena!
Pra terminar, uma provocação da Cristina Moreno de Castro.

Mesmo depois de todos esses textos e vídeos, ainda estou confusa. Mas ao menos sei pra onde eu não quero ir.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


segunda-feira, 1 de julho de 2013

De como uma entrevista faz a gente virar a casaca

Tem gente que acha que coerência é para os fracos. Meu amigo Daniel Fernandes acha (e estou procurando um texto sobre o assunto, indicado por ele, que teria tudo a ver com o post de hoje, mas não acho...)

Em 2012, comprei no escuro um ingresso para o primeiro jogo da Copa das Confederações em Belo Horizonte. Então, não havia tabela, não dava pra saber quem jogaria. Compramos Leo e eu, meus sogros e a Flavinha, Lauro e Fabi, Nando e Camila. Ia ser um momento de diversão com amigos, independente de qual fosse o jogo.

Aí saiu a primeira informação: campeão da Oceania contra campeão da África. Ixi... Oceania??? A África tem países que fazem um futebol bonito, mas a Oceania? Ah, mas é pela diversão, é um jogo oficial internacional, não vamos na Copa do Mundo (desistimos, vamos tentar viajar), vamos com amigos, vai ser ótimo.

No início de 2013 saiu o campeão africano: Nigéria. Fiquei feliz, gosto do futebol da Nigéria e comecei a gostar muito do país depois de ler Chimamanda Adichie (falei dela aqui, aqui e aqui). Então, líquido e certo, eu torceria pela Nigéria no jogo contra o Tahiti.

Mas o mundo gira, a lusitana roda e, uns quatro dias antes da partida, vejo uma entrevista com o treinador do Tahiti. Ele explicava que o time era formado praticamente por amadores, que só havia um jogador profissional e que boa parte do time ainda estava desempregada. Que a Copa das Confederações seria a primeira vez do time numa partida fora do continente. Que o objetivo deles era não tomar muitos gols.

Sabe quando desce uma lágrima de comoção? Pois é... virei casaca na hora e declarei minha torcida eterna e oficial pelo time do Tahiti.

E fiquei surpresa de ver o Mineirão inteiro (ou quase, já que só foram 28 mil pessoas e o estádio tem capacidade para 62 mil) estar torcendo para o Tahiti. Claro que havia um ou outro torcedor da Nigéria, mas a maioria incentivava aquele time que parecia ter sido montado ontem, sem habilidade quase nenhuma.

Olha, foi lindo! A Nigéria fez seis gols e ganhou o jogo. Mas nada foi tão emocionante como ver in loco o único gol do Tahiti na Copa das Confederações. Ver o estádio inteiro vibrar com aquela bola balançando a rede adversária.

Não fui mais a campo na Copa das Confederações, não vou na Copa do Mundo. Mas mesmo se fosse, nada seria tão marcante como ver o Tahiti marcar um gol no Mineirão.

Panorâmica do Mineirão duas horas antes do início do jogo


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...