segunda-feira, 19 de maio de 2014

21 anos

Já cansaram de ver essa foto aqui?
Eu nunca me canso dela

Demorei muito tempo - e muitas sessões de análise - pra conseguir elaborar o que o meu avô realmente significou na minha vida.

Já falei sobre o dia da morte dele (aqui e aqui), sobre sua mania de ter um saci-pererê no carro (aqui), da dor que eu sinto sempre que chega o Natal (aqui e aqui). Acho que falei também sobre ele ter sido a figura paterna principal na minha vida. Dizia a minha analista que eu não confundi a figura do vovô com a paterna, mesmo que a referência de pai sempre tenha sido o Vovô Ney.

Esse talvez seja o motivo para que tanta dor esteja envolvida quando me lembro dele. E a explicação para que, durante muitos anos, me abstive de pensar nele. Era só alguém começar a falar do vovô que eu saia de perto ou mudava o rumo da conversa. Fiquei muitos anos sem entrar no quarto da vovó. Até hoje, quando entro lá, sinto o cheiro dele, lembro dele deitado durante o período em que precisou ficar de repouso. Esse tempo foi muito sofrido pra ele, porque ficar parado era algo contra a natureza do vovô. Ele estava sempre se mexendo, sempre fazendo alguma coisa, sempre conversando com alguém.

Tia Ylza outro dia falava conosco sobre uma pessoa que era amiga do vovô e não dela. Leo foi logo perguntando quem não era amigo dele. Porque todas as histórias que contamos sobre pessoas de OP vêm com esse adendo: fulano era muito amigo do vovô.

Às vezes penso que, se o tempo não o tivesse levado tão cedo, ele e o Leo poderiam ter se conhecido. E seriam grandes amigos, porque os dois têm o mesmo jeito curioso de ver a vida, conversam com todo mundo, são engraçados até quando estão bravos.

Quando o Vovô Ney morreu, há 21 anos, perdi o pai que me criou, o pai em que espelhei a minha vida. O pai que eu queria ter tido, biologicamente. O pai que seria o modelo ideal para se, um dia, um filho aparecer na minha vida.

Passei por outras mortes doloridas na família. Algumas de repente, como foi a do vovô. Outras, dolorosas, arrastadas, sofridas, como foi a do meu padrinho e da Tia Leda. Mas nenhuma delas doeu - nenhuma delas dói - tanto quando a dele. E, por mais que o tempo passe, por mais que a saudade linda permaneça, ainda dói a gente não ter vivido juntos na melhor fase da minha vida. Ele não estava lá fisicamente. Estava apenas nas minhas lembranças. Enchendo o ambiente quando tomei as principais decisões da vida, quando me casei com o Leo, quando decidi escrever, quando, quando e quando.

Se, um dia, eu puder ser um pouquinho como ele, já fico feliz.

Saudade, vô...

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...