sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Solitaire

Foi Rubem Alves, se não me engano, quem escreveu que adolescentes em bando se parecem com maritacas. E não há lugar melhor para constatar isso que num shopping. Aliás, um shopping oferece uma gama incrível de tipos humanos, desses que só um antropólogo saberia/poderia descrever.

Há um tipo, nos shoppings, que chama a minha atenção. São os solitários.

Reconheço um solitário com enorme facilidade, mesmo que eles façam de tudo (e como fazem!) para disfarçar.

Na praça de alimentação, quatro mesas à frente da minha, está uma. Ela tem o semblante triste, mas com traços bem delicados. Tem lágrimas nos olhos, mas não as deixa escapar. Mergulha em um livro como se ele fosse a sua salvação. Ela exala tristeza, uma tristeza intensa e até bonita. Aposto que seu nome é Antonieta. Não há nome mais triste que Antonieta.

Do outro lado há um jovem senhor vestindo uma camisa de time de futebol. Almoça sozinho, mas conversa consigo mesmo, como se houvesse um interlocutor na outra ponta da mesa. Ele usa uma grossa aliança na mão esquerda e, ainda assim, está sozinho.

Há um rapaz aqui perto, usando óculos. Já o vi outras vezes. Temos quase a mesma altura, e ele está sempre bem vestido. Parece, o tempo todo, impaciente. Fica dando voltas e mais voltas por aqui. Tem a senhoria de cabelos brancos e colar de pérolas que sempre toma sorvete após o almoço. Ela anda devagar e olha, atenta, para tudo.

Sou especialista em solitários de shopping. Tento pensar o motivo que os trouxe até aqui, sozinhos, enquanto tantos casais e adolescentes em bando dominam o ambiente. O que traz um solitário a esse tipo de lugar? Penso nas luzes e nas vitrines das lojas, nos cardápios convidativos, no cinema. E vejo cada vez mais solitários de shopping, enquanto almoço sozinho, esperando, esperando, esperando...


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Livro: Já matei por menos



E um belo dia - nem sei se foi belo mesmo, mas deixemos assim - acabei me deparando com a Juliana Cunha e o seu jeito muito bacana de escrever. O blog dela, Já Matei por Menos, me conquistou de cara. Pelo estilo dos textos, pela diversidade dos assuntos, pela acidez aqui e ali... Coloquei logo no finado (e saudoso) GReader. De lá, o feed  mudou pro Feedly e acompanhei (já não lembro de no blog ou em outro lugar) que alguns de seus textos virariam livro, editado pela Lote42, que estava nascendo. De cara, e porque sempre gostei dos textos da Juliana, comecei a gostar da Lote42.

Daí veio aquela promoção maluca da editora durante a Copa do Mundo: para cada gol que o Brasil tomasse, eles dariam 10% de desconto nos livros. E aí, "gol da Alemanha" veio avassaladoramente, por sete vezes em 90 minutos. Comprei o Já matei por menos, o Manual de sobrevivência dos tímidos e o Seu Azul.

Já matei por menos é uma delícia! Foram escolhidos 70 textos do blog da Juliana. Cada um com um toque especial, um traço único, uma narrativa consistente e gostosa. Entre eles, destaco O idiota completo, em que ela começa falando de pessoas que não conseguem se colocar no lugar dos outros e termina falando que a ficção cumpre o papel de "desidiotizar" as pessoas. Perfeito!

Em Personal Capataz, Juliana dá uma zoada geral num tipo de empreendedorismo bem comum atualmente e que utiliza muito os "personais", aqueles seres que não estão ali pra te ajudar, mas para te fazer cumprir o que eles determinam. Em The Champios, ela começa falando sobre como as festas de casamento são chatas e têm "uma megalômana com sonhos de princesa tardios se diverte enquanto as pessoas olham pra ela". Algo com o que super concordo, há tempos. E aí vai também para as festas de formaturas e outras festas, com suas ilusões de grandeza.

Em Sócrates e a escrita, ela fala sobre a falta de obras escritas por Sócrates, o filósofo grego que é o divisor de águas na história da Filosofia. Sócrates achava que a leitura e a escrita emburreciam o homem, porque o deixavam preguiçoso. Isso abre as portas para um texto delicioso sobre compreensão, crítica, afinidade e amor. E meu último destaque vai para Generalismo Zen, em que a Juliana fala sobre pessoas focadas, que ficam tempos se dedicando a um só tema e deixando o resto de lado.

Claro que, depois de ler o livro, deu vontade de escrever mais, de ler mais, de estudar mais... Recomendadíssimo!

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Citações 85

De Anatomia dos mártires, de João Tordo:



Liguei a uma rapariga com quem nessa altura andava a sair, peguei no carro, fui buscá-la e fomos jantar fora a um restaurante pretensioso que ficava a alguns quilômetros de Lisboa, na linha da costa, um lugar altamente elogiado pela imprensa (porque o chefe era estrangeiro) e estupidamente caro (porque o chefe era estrangeiro) que servia comida de fusão, mais ou menos requintada, misturando a cozinha portuguesa com qualquer coisa que se comesse em Paris, em Tóquio ou em Nova Deli. Lembro-me de pensar durante o jantar que, se o mundo continuasse assim, um dia todas as pessoas comeriam precisamente o mesmo em todos os restaurantes de todas as cidades de todos os países quando a tal "fusão" se tornasse completa, quando o círculo finalmente se fechasse e qualquer refeição em Bogotá soubesse precisamente o mesmo que em Estocolmo; mas, como já referi, a noite estava quente e rapidamente esqueci estes devaneios procurando concentrar-me nas coisas que Gilda, do outro lado à mesa, me contava com seu português carregado de interjeições. 

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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O que (eu acho que) tem de bom pra ler na net #58

1 - Clooney e o amor que só os homens podem ter
Ah, Lugar de Mulher, seu lindo! O texto da Mari fala sobre o comportamento das pessoas ao comentar o casamento do George Clooney - na melhor idade, curtiu a vida etc - enquanto que uma mulher se casando na mesma situação é por desespero, a moça é salva por um homem bondoso. O texto é mara!

2 - Eu não uso Facebook
Texto do Guilherme Masi no Brasil Post. Sobre a idealização da vida nas redes sociais. Muito bom.

3 - A literatura universal
Post do Juan Pablo Villalobos no blog da Companhia das Letras, sobre literatura universal. Acaba tocando na pretensão humana e em outras coisas super interessantes.

4 - Não é autismo, é iPad
Post do André Barsinski sobre como meios eletrônicos estão interferindo no desenvolvimento de crianças (eu acho que até mesmo de adultos...). É uma entrevista com uma fonoaudióloga, e vale muito a leitura.

5 - Sobre amores e cadeados
Texto lindo da Dreisse (essa menina bacana que escreve um monte de coisas legais) sobre amores, liberdades, sentimentos de posse, cadeados, idealização... Ufa! Muita coisa bacana pra pensar.

6 - Top 10 romances policiais de 2015
Uma seleção de dez livros policiais lançados em 2014. Tô tentada a adquirir toda a lista. Já tenho Dias perfeitos e O bicho da seda. O resto vai pra wishlist.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


domingo, 25 de janeiro de 2015

Amor?



Daqui.

Acho que o Leo se sentiria representado com essa tirinha. No caso, pela moça da tirinha :-)

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Livro: O irmão alemão



E aí o Chico vem e lança mais um livro... E as meninas do Clube de Leitura decidiram que seria o primeiro livro de 2015. Comprei ainda em 2014 e comecei a ler enquanto vovó estava no hospital, enquanto tentava alguma coisa para ocupar a cabeça.

É a história de Francisco de Hollander, filho do intelectual Sérgio de Hollander e da italiana Assunta e irmão caçula de Domingos. Francisco descobre, um dia, que, quando seu pai viveu na Alemanha, teve um filho e não teve mais contato com ele. A família mora num sobrado que tem as paredes recheadas de livros. E é no livro O ramo de ouro que Francisco descobre uma carta em alemão para seu pai. É de Anne Ernest, a mãe de seu irmão alemão, e ela dá notícias do bebê e fala que, se Sérgio não aparecesse, ela iria aceitar o casamento que um músico havia proposto.

Com a carta na mão, Francisco resolve investigar o passado de seu pai e a existência do seu irmão alemão, Sérgio Ernest. Entre descobertas, sonhos e devaneios, ele vai ter que lidar com o seu outro irmão, Domingos, que desaparece de casa e deixa seus pais doentes.

O lançamento do livro foi todo envolto em mistério. Porque Chico Buarque contou que descobriu que seu pai, Sérgio Buarque de Holanda, teve um filho alemão. Chico teria conhecido essa história numa conversa informal com Tom Jobim e Vinicius de Moraes e também partiu para investigar. O material de divulgação do livro falava que a obra misturava realidade e fantasia e que não havia uma resposta definitiva à questão "a história narrava é verdade ou não?".

Fiquei curiosa com a trama e gostei muito. Gostei como gosto das músicas do Chico. Quase como gosto de Estorvo, meu preferido dele (depois de Chapeuzinho Amarelo, claro). Bem mais que os outros (Leite derramado, Budapeste e Benjamin, que pra mim é o pior deles). Quase como gosto das peças de teatro. Enfim, Chico é muito amor e ele, definitivamente, acertou a mão em O irmão alemão.

Imagine que meu mundo estava caindo enquanto eu lia. E mesmo assim eu gostei muito do livro.

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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Citações 84

De Anatomia dos mártires, de João Tordo:



Um homem torna-se mártir porque tem a razão do seu lado e ainda assim fracassa. Não estou a falar de uma causa em particular, não estou a falar de política nem de religião. Nem estou a falar da causa esquecida por detrás de um mártir uma vez que um mártir se torna indiscernível da causa que o vitima.

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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O que (eu acho que) tem de bom pra ler na net #57

1 - Beautiful pra quem?
Uma reflexão da Gabi sobre padrões, beleza, supervalorização, sobrevalorização e coisas assim. Um desabafo - e eu poderia ter escrito algo semelhante se gostasse de ver desfiles. Como não é a minha praia, nem vejo. Mas concordo com tudo o que ela fala aqui.

2 - Sobre o "ser" borderline
Um texto bacana da Naty - que ficou mais famosa depois da série Dupla Identidade, que passou na Globo em 2014. Aqui ela fala sobre o transtorno de personalidade Borderline. É difícil reconhecer que um certo tipo de comportamento é um transtorno mental. E o Borderline é quase sempre confundido com "frescura", o que leva a mais sofrimento.

3 - Marido recria cenas de 'A Noviça Rebelde' com esposa na locação original
Do Catraca Livre. Com meu filme favorito da vida. Ô vontade de fazer o mesmo...

4 - Homens negros não podem correr
Do Pablo Villaça. Nem sei o que comentar. #chocada. E isso não basta.

5 - Young APAE
Texto do HPCharles no Tiny Little Things. Sobre livros, literatura, mercado, produção em massa e sob medida... e como isso forma uma massa de leitores que investem em volume lido e acabam lendo sempre a mesma história, sem se abrir pro mundo da boa literatura. Às vezes, eles nem sabem que existe um mundo além, vai saber.

6 - Discurso de  Malala Yousafzai no Prêmio Nobel da Paz
Tá certo, já tem um tempão que isso aconteceu. Mas eu só li agora. No blog da Companhia das Letras. E é lindo, tá?

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sábado, 17 de janeiro de 2015

Amigo secreto das Meninas da Laje

Não sei mais quando foi a primeira vez que fizemos o Amigo Secreto das Meninas da Laje e tô com preguiça de procurar. O fato é que eu adoro, tanto as meninas quanto a interação, a surpresa, o carinho.

As Meninas da Laje são pessoas muito especiais pra mim. Nos conhecemos aqui mesmo, nas interwebs da vida, blogando, passeando de um blog pro outro, comentando, trocando links no finado e querido Google Reader, indo pro Twitter, depois pro Facebook, pro WhatsApp. O principal nem é o canal, é que as Meninas da Laje vieram pra minha vida. E isso ninguém tasca.

Porém, 2014 foi um ano da pesada. E quando começou a vir novembro, pensei em abrir mão do Amigo Oculto porque tava difícil demais conviver com a ausência da Tia Ylza. Já fui me preparando pra falar que, desta vez, eu ia ficar só na janelinha observando o movimento.

Mas eis que, numa dessas análises da vida, cheguei à conclusão que eu estava precisando muito, mas muito mesmo, de um abraço bem forte, bem apertado, bem carinhoso. E as Meninas da Laje são pessoas que poderiam me proporcionar isso, porque carinho sobra nesse grupo. Então, quando começamos a conversar sobre o AS, fui clara com as meninas: apesar do ano cagado ruim, eu participaria do AS porque precisava muito de um abraço.

E o abraço veio, ali mesmo, durante as nossas conversas. Bem antes do sorteio eu já podia sentir aquela coisa boa, aquele carinho especial que as meninas sempre me proporcionam.

Sorteio feito, vovó ficou doente. E eu não tive tempo ou cabeça pra preparar um presente de verdade pra pessoa que eu tirei. Nem a carta à mão, que eu super gosto de fazer, consegui. Acabei comprando o que minha amiga secreta queria, mas foi super impessoal, porque comprei via net, esqueci de marcar que era presente e de colocar qualquer identificação. Acho que ela me perdoou pelo lapso. O momento era complicado. Poucos dias depois de enviado o presente, vovó faleceu.

E como eu estava envolvida demais com as coisas burocráticas do falecimento (posso até dar consultoria sobre o assunto, dado o tanto que aprendi sobre em 2014), nem prestei mais atenção ao AS. Esqueci mesmo. Só lembrava quando uma das meninas postava a foto de um presente recebido. O meu demorou um pouquinho pra chegar. E, quando veio, eu estava no trabalho. Me avisaram que uma caixa tinha sido entregue. Precisei esperar o momento de voltar pra casa pra descobrir quem era a minha amiga querida.


Foto da revelação do presente

Postei, inicialmente, só essa parte do presente. É... isso é só uma parte. Porque se eu postasse o restante, as meninas iam descobrir de cara! E o nosso objetivo é só revelar de quem veio o presente ao mesmo tempo, nos blogs.

Veja bem: tem itens de papelaria (post-its, bloquinho, caneta, prendedor de papel, pendrive) e uma agenda linda, super artística, com imagens de quadros que eu amo, além de fotos belíssimas. Com a agenda, um marcador de livro do Chaplin, em ímã. Também um livro da Agatha Christie, que eu nunca li! As meninas brincam que só tem dois que eu não li, o que não é verdade. Digamos que tem uns 12 ou 13. E tem tempo que não leio Agatha. Ou seja... logo logo, Morte na Mesopotâmia estará lido. É muitamô!

Cuca achando que era pra ela :-)

A parte que todo-mundo-ia-sacar teve que ser bem escondidinha, até agora. Mas a Cuca já estava lá, fuçando, achando que as coisas comestíveis eram pra ela. Sim!!! teve bastante coisa gostosa.

Mas antes: teve uma caixa com seis cartões postais da cidade onde a minha amiga secreta mora. Não conheço, mas deu, mais uma vez, vontade de passar por lá um dia desses :-) Em três, vieram mensagens lindas, o abraço que eu precisava tanto, materializado, mais uma vez.

Olha que lindeza

E que delicadeza!

Foi a Jullyane Teixeira, essa piauiense linda, moradora de Teresina, quem me tirou e quem me enchei de mimos.

Delícias do Piauí - e a Cuca ali no cantinho, de olho

Veio castanha de caju, cajuzinho de caju (mineiro tá acostumado com cajuzinho de amendoim) e rapadura de caju. Veio cajuína e uma aguardante, que acabei esquecendo de fotografar separado. E que desapareceram rapidinho. Em especial, o cajuzinho e a rapadura me lembraram demais a vovó. Ela ia adorar. Como já tinha gostado da outra vez que a Ju me tirou e enviou dois Kits-Piauí - um deles, quebrado pelos Correios. E vovó fez a festa com os docinhos.

Ju, amei os presentes. Mas, mais que eles, amei o carinho, as mensagens por e-mail, no grupo, nos cartões. Era o que eu precisava. Amei mesmo, muito.

À medida que as Meninas da Laje forem postando suas revelações, eu linko aqui:

Anabel
Ana Clara
Juliane
Jullyane
Lu
Quel

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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Poesias pra vovó

Vovó era uma pessoa muito queria. Na família, praticamente uma unanimidade. Ouvi muito, durante o período em que ela ficou no hospital, e logo após a sua morte, que ela sempre foi "a mais doce dos irmãos". E a família é grande pacas... gente de todo canto repetiu isso pra gente o tempo todo. 

Duas pessoas me mandaram poesias, dedicadas a ela e a nós. A D. Lídia e a Ju Machado sabem fazer boas poesias e nos brindaram com esses presentes. Nós só temos a agradecer. 


O Colo de Maria

Da vovó Lilita para Aline e Léo

Sei, Mãe Maria,
Que não desejas ver
Nem um de teus filhos,
Mergulhado no desespero
De uma dor sem remédios,
Sem um colo
Como teu colo,
Sempre pronto
Para acolher e consolar.
Poder encostar a cabeça
No teu seio
E soluçar !
Batidas do coração
Uníssonas,
Uma transmitindo queixas,
Outra, os lenitivos
E bênçãos !
Que as lágrimas
Se jorrem livres,
Faz bem à alma.
Tuas mãos, Maria,
Saberão enxugá-las,
Fazendo que a dor
Se transforme
Numa saudade amena
E sempre cheia
De belas lembranças!



.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.


01/01/2015

Paz,…

Que venta ao redor de mim

Fazendo cantar os bambus,

Levita-me em liberdade!

Orquestra as minhas emoções,

Várias e em ricos tons,

Na melódica quietude

De quem sentiu a dor…

De quem sorriu à flor…

Amou até o fim do ar…

Amou até voar…

Até sobremaneira…

Paz!

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Livro: Vanessa & Virginia



Vanessa & Virginia é um daqueles livros bem poéticos. Acabei me encontrando com ele na Bienal do Livro de Minas. Não sabia de sua existência. E foi amor à primeira vista.

O livro conta a história das irmãs Vanessa Bell, a pintora, e Virgina Woolf, a autora. Quando vi o filme As horas - e depois, ao ler o livro -, percebi que a relação das duas foi bastante delicada. E o livro conta, da perspectiva de Vanessa, como se deu a chegada de Virgina à família, o ciúme que o nascimento da caçula despertou em Vanessa e como as duas se relacionaram durante a infância e adolescência e, posteriormente, a vida adulta. Tudo é narrado de forma bem leve, poetizando cores e formas - as das pinturas de uma e as das escritas da outra.

É um volume bem fino, de leitura rápida, mas que pode dar preguiça para quem quer uma história mais objetiva ou mais clara. Há muito de subjetivo no ar, o que pode enfastiar os leitores mais ávidos.

Vanessa & Virginia foi o livro que escolhi para dar de presente no amigo oculto do Clube de Leitura da Set Palavas. Porque o livro do mês era Mrs. Dalloway, uma obra linda da Virginia Woolf. E porque eu levei As horas para emprestar para quem quisesse. Tenho apego a As horas... Acabou que a sorteada pra ficar com Vanessa & Virgina foi a Bárbara. E eu acabei dando o As horas pra Aline Mangaravitti. Me desfiz de dois livros e saí de lá bem leve. :-)

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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Citações 83

De Anatomia dos mártires, de João Tordo:


"Sabes o que é confuso?", perguntou, com uma sutil indignação. "O que é confuso é o ceticismo. O que é confuso é a negação constante, diária e corrosiva daqui que nos pertence por direito: a nossa ligação a uma entidade superior. O que é confuso são as nossas vidas sem rumo nem sentido, como se os dias, por si próprios, empilhando-se como castelos de cartas, pudessem dar sentido à existência. Ou como se nós, mortais e finitos, fôssemos capazes de dar sentido àquilo que, à partida, não faz sentido absolutamente nenhum, que é o fato de estarmos aqui num minuto e no minuto seguinte, porque o corpo inexplicavelmente nos falha ou porque alguém decide o nosso final, deixarmos de estar, e a nossa morte não significar nada. Isso é que me deixa confuso."

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domingo, 11 de janeiro de 2015

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Serena



Ela tinha 60 anos quando eu nasci. E 96 quando decidiu que tinha que ir embora. Vovó Zina me deixou aqui meio que sem saber como vai ser o resto da vida. Mas quando eu paro pra ver tudo o que ela me ensinou, percebo que é dela mesmo que vou tirar forças pra viver essa vida que ainda resta...



Não, ainda não me recuperei da morte da Tia Ylza. E aí, quatro meses depois, você se vai. Não deu tempo, vó. Não consegui me preparar. Não consigo olhar mais pras coisas do mesmo jeito. Claro que o fato de você morrer um dia estava em pauta já há algum tempo. Mas eu não queria pensar nisso. Acontece que a morte da Tia Ylza me fez ficar de frente com a possibilidade de você me deixar. Mesmo assim, eu não queria pensar nisso.

Não, vovó. Eu não imaginei, naquele dia em que te levei ao médico, que seria uma das últimas vezes que te veria bem. Também não imaginei que, dois dias depois, estaria indo com você para o hospital, totalmente desorientada, tamanho o medo que me invadia. E que você me surpreenderia com uma recuperação rápida? Não, também não pensei nisso. Mas meu coração ficou aliviado ao te ver novamente em forma, pronta pra voltar pra casa.

Quem diria, vovó, que, aos 96 anos, era a sua primeira vez num hospital para tratar de saúde? A todos que você contou isso, viu uma cara de espanto. Era verdade... só aos 96 foi passar uma temporada no hospital. E ainda disso ao Tio Zé, ao telefone, que deu "um susto nessa turma", toda sorridente. E pensar que, no quarto ao lado, uma menininha de nove meses estava cuidando de uma meningite... Você ali, toda forte, fazendo as enfermeiras se apaixonarem com o seu jeitinho meigo de Dona Adelina, mas ao menos tempo agitado de Seu Camillo...

De repente, quando já te esperávamos em casa para voltar à vida normal, veio a notícia de que você parou de responder. Do nada, de uma hora pra outra. Não que alguém mereça... apenas que você era a última pessoa do mundo a merecer um AVC isquêmico. Tão agitada, tão ágil, tão independente... Não, vó, era demais pra gente acreditar. Mesmo assim, preparamos tudo pra te receber. Ao menos a casa... o coração foi mais difícil. Mas conversamos muito sobre como seu tempo havia mudado. E sobre como seria para nós mudar o nosso tempo para acompanhar o seu. Planos foram desfeitos, outros foram criados. Sabíamos que seria difícil. Pra nós e pra você. Mais pra você, claro. Seria a vida que não queríamos. Definitivamente, não queríamos te ver limitada a uma cadeira de rodas.

Esse tempo que você passou no hospital, entre emergência, quarto, semi-intensiva e UTI, nos fez ver com muito mais clareza o tanto que você sempre foi importante em nossas vidas. E como seria importante pra nós te proporcionar conforto. O problema é que nunca conseguiríamos oferecer a você algo que fosse digno da sua vida anterior nessa nova condição. E enquanto pensávamos e planejávamos ter você de novo conosco, você fez o que foi mais digno, o que mais esteve de acordo com tudo o que você viveu. Você lutou, e muito, para sair dali. Tenho certeza de que sairia, tenho certeza de que lutaria aqui em casa também.

Na hora em que você se foi, eu estava em casa. Com o coração intranquilo, mas sem imaginar que era ali, naquele momento, a sua partida. Quem pôde estar ao seu lado me contou que você se foi serena. Do jeito que tanto pedimos para que você ficasse durante todo o período no hospital. Do jeito mais apropriado, com mínimo sofrimento. Você partiu, deixou um vazio enorme e, também, uma lição tremenda. Te disse isso, várias vezes, durante o tempo em que convivemos intensamente. Repeti no hospital, outras tantas: se um dia eu for 10% do que você é, já estou lucrando.

Amo você, vó. E agradeço o privilégio imenso que foi ter tido você como avó, como exemplo, como companheira, como confidente, como modelo de mãe, como alguém que eu quero ser quando crescer.

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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Filme: Chef

Chef - 2014 (mais informações aqui)
Direção: Jon Favreau
Roteiro: Jon Favreau
Elenco: Jon Favreau, Robert Downey Jr., Scarlett Johansson, John Leguizamo, Bobby Cannavale, Dustin Hoffman, Sofia Vergara


Mais uma participação no Cinema de Buteco. O filme é Chef, que é bem bacaninha pra distratir e tem uma trilha sonora muito legal.

O texto original pode ser lido aqui.


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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Citações 82

De Anatomia dos mártires, de João Tordo:


Se as mentiras são apetrechos diários nas nossas vidas, tão instrumentais como os barrotes que sustentam uma casa de pé, existem certos momentos em que a verdade é, embora dolorosa, a trave-mestra sem a qual essa casa infalivelmente se desmorona. É escusado, no entanto, punir-me em demasia nesta matéria: nunca conheci ninguém que, numa ou noutra ocasião, não houvesse mentido para ocultar um defeito ou enaltecer uma qualidade; que não houvesse mentido simplesmente porque a história que tinha para contar seria mais interessante com um detalhe acrescentado às coisas que aconteceram; que não houvesse mentido pelo simples prazer de mentir, acrescentando sucessivos parágrafos às nossas vidas incompletas, insuficientes, rarefeitas. Como é suposto então sabermos o momento em que uma dessas mentiras - a instrumental, a estética, a prazenteira - se transforma na faísca que incendeia o rastilho?

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domingo, 4 de janeiro de 2015

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Noel Rosa e a mulher indigesta

Um dos meus compositores favoritos é Noel Rosa. Comecei a escutar suas músicas por volta dos 16 anos e foi amor à primeira audição. Lembro de como fiquei assustada ao saber que Aracy de Almeida era uma de suas melhores intérpretes. Para mim, ela era apenas uma jurada chata do Show de Calouros do Sílvio Santos, e eu não gostava nem dela nem do programa.

No primeiro período da faculdade de jornalismo, precisei escrever um texto, entre outras coisas, sobre tramas. E escolhi como objeto a música Três apitos, uma das que considero mais bonita. Não tenho mais o trabalho, coisa que lamento muito, mas lembro que tirei nota máxima e um elogio significativo da professora.

As músicas mais conhecidas no Noel sempre estiveram ao meu lado. Seja Pastorinhas ou o Gago apaixonado. Ou mesmo Três apitos, Palpite infeliz, Não tem tradução, Filosofia e Conversa de botequim.

Acontece que, recentemente, fui escutar Noel na Rádio Uol (é, sou dessas antiquadas que usa Rádio Uol). E foi quando escutei pela primeira vez Mulher Indigesta. Pôxa, que horror, seu Noel!

A mulher indigesta, segundo o compositor, é aquela que fica no pé do cara. E que deveria receber “um tijolo na testa”.





Mulher Indigesta
Noel Rosa

Mas que mulher indigesta! (Indigesta!)
Merece um tijolo na testa

Essa mulher não namora
Também não deixa mais ninguém namorar
É um bom center-half pra marcar
Pois não deixa a linha chutar

E quando se manifesta
O que merece é entrar no açoite
Ela é mais indigesta do que prato
De salada de pepino à meia-noite

Essa mulher é ladina
Toma dinheiro, é até chantagista
Arrancou-me três dentes de platina
E foi logo vender no dentista

  

Menos, Noel Rosa, menos!


Se Mulher Indigesta me faz gostar menos dele? Não, de forma alguma. Porque o resto vale muito a pena. O negócio é só pular essa música indigesta quando ela insistir em tocar.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...