sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Serena



Ela tinha 60 anos quando eu nasci. E 96 quando decidiu que tinha que ir embora. Vovó Zina me deixou aqui meio que sem saber como vai ser o resto da vida. Mas quando eu paro pra ver tudo o que ela me ensinou, percebo que é dela mesmo que vou tirar forças pra viver essa vida que ainda resta...



Não, ainda não me recuperei da morte da Tia Ylza. E aí, quatro meses depois, você se vai. Não deu tempo, vó. Não consegui me preparar. Não consigo olhar mais pras coisas do mesmo jeito. Claro que o fato de você morrer um dia estava em pauta já há algum tempo. Mas eu não queria pensar nisso. Acontece que a morte da Tia Ylza me fez ficar de frente com a possibilidade de você me deixar. Mesmo assim, eu não queria pensar nisso.

Não, vovó. Eu não imaginei, naquele dia em que te levei ao médico, que seria uma das últimas vezes que te veria bem. Também não imaginei que, dois dias depois, estaria indo com você para o hospital, totalmente desorientada, tamanho o medo que me invadia. E que você me surpreenderia com uma recuperação rápida? Não, também não pensei nisso. Mas meu coração ficou aliviado ao te ver novamente em forma, pronta pra voltar pra casa.

Quem diria, vovó, que, aos 96 anos, era a sua primeira vez num hospital para tratar de saúde? A todos que você contou isso, viu uma cara de espanto. Era verdade... só aos 96 foi passar uma temporada no hospital. E ainda disso ao Tio Zé, ao telefone, que deu "um susto nessa turma", toda sorridente. E pensar que, no quarto ao lado, uma menininha de nove meses estava cuidando de uma meningite... Você ali, toda forte, fazendo as enfermeiras se apaixonarem com o seu jeitinho meigo de Dona Adelina, mas ao menos tempo agitado de Seu Camillo...

De repente, quando já te esperávamos em casa para voltar à vida normal, veio a notícia de que você parou de responder. Do nada, de uma hora pra outra. Não que alguém mereça... apenas que você era a última pessoa do mundo a merecer um AVC isquêmico. Tão agitada, tão ágil, tão independente... Não, vó, era demais pra gente acreditar. Mesmo assim, preparamos tudo pra te receber. Ao menos a casa... o coração foi mais difícil. Mas conversamos muito sobre como seu tempo havia mudado. E sobre como seria para nós mudar o nosso tempo para acompanhar o seu. Planos foram desfeitos, outros foram criados. Sabíamos que seria difícil. Pra nós e pra você. Mais pra você, claro. Seria a vida que não queríamos. Definitivamente, não queríamos te ver limitada a uma cadeira de rodas.

Esse tempo que você passou no hospital, entre emergência, quarto, semi-intensiva e UTI, nos fez ver com muito mais clareza o tanto que você sempre foi importante em nossas vidas. E como seria importante pra nós te proporcionar conforto. O problema é que nunca conseguiríamos oferecer a você algo que fosse digno da sua vida anterior nessa nova condição. E enquanto pensávamos e planejávamos ter você de novo conosco, você fez o que foi mais digno, o que mais esteve de acordo com tudo o que você viveu. Você lutou, e muito, para sair dali. Tenho certeza de que sairia, tenho certeza de que lutaria aqui em casa também.

Na hora em que você se foi, eu estava em casa. Com o coração intranquilo, mas sem imaginar que era ali, naquele momento, a sua partida. Quem pôde estar ao seu lado me contou que você se foi serena. Do jeito que tanto pedimos para que você ficasse durante todo o período no hospital. Do jeito mais apropriado, com mínimo sofrimento. Você partiu, deixou um vazio enorme e, também, uma lição tremenda. Te disse isso, várias vezes, durante o tempo em que convivemos intensamente. Repeti no hospital, outras tantas: se um dia eu for 10% do que você é, já estou lucrando.

Amo você, vó. E agradeço o privilégio imenso que foi ter tido você como avó, como exemplo, como companheira, como confidente, como modelo de mãe, como alguém que eu quero ser quando crescer.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...