sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Solitaire

Foi Rubem Alves, se não me engano, quem escreveu que adolescentes em bando se parecem com maritacas. E não há lugar melhor para constatar isso que num shopping. Aliás, um shopping oferece uma gama incrível de tipos humanos, desses que só um antropólogo saberia/poderia descrever.

Há um tipo, nos shoppings, que chama a minha atenção. São os solitários.

Reconheço um solitário com enorme facilidade, mesmo que eles façam de tudo (e como fazem!) para disfarçar.

Na praça de alimentação, quatro mesas à frente da minha, está uma. Ela tem o semblante triste, mas com traços bem delicados. Tem lágrimas nos olhos, mas não as deixa escapar. Mergulha em um livro como se ele fosse a sua salvação. Ela exala tristeza, uma tristeza intensa e até bonita. Aposto que seu nome é Antonieta. Não há nome mais triste que Antonieta.

Do outro lado há um jovem senhor vestindo uma camisa de time de futebol. Almoça sozinho, mas conversa consigo mesmo, como se houvesse um interlocutor na outra ponta da mesa. Ele usa uma grossa aliança na mão esquerda e, ainda assim, está sozinho.

Há um rapaz aqui perto, usando óculos. Já o vi outras vezes. Temos quase a mesma altura, e ele está sempre bem vestido. Parece, o tempo todo, impaciente. Fica dando voltas e mais voltas por aqui. Tem a senhoria de cabelos brancos e colar de pérolas que sempre toma sorvete após o almoço. Ela anda devagar e olha, atenta, para tudo.

Sou especialista em solitários de shopping. Tento pensar o motivo que os trouxe até aqui, sozinhos, enquanto tantos casais e adolescentes em bando dominam o ambiente. O que traz um solitário a esse tipo de lugar? Penso nas luzes e nas vitrines das lojas, nos cardápios convidativos, no cinema. E vejo cada vez mais solitários de shopping, enquanto almoço sozinho, esperando, esperando, esperando...


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...