sexta-feira, 6 de março de 2015

Sobre fórmulas de escrita e leitores de fórmulas

Outro dia estava me perguntando por que as pessoas gostam de ler sempre as mesmas coisas. Não me refiro, aqui, a gêneros, mas a fórmulas. Minha questão é saber por que as pessoas lêem histórias que já sabem como vai acabar. 

Um exemplo: eu adoro Agatha Christie e ela segue uma fórmula em praticamente todos os seus livros. O livro é dividido em três atos e há um assassinato no primeiro ato, que abre a trama. No segundo ato se dá a investigação e várias pistas são deixadas para o leitor. Ao final, um segundo assassinato, que chama para o terceiro ato, quando vem a solução. Mesmo sabendo que quase todos os livros dela são assim (excluo desse modelo O assassinato de Roger Ackroyd, Passageiro para Frankfurt e O caso dos dez negrinhos) por quê eu leio e me divirto?

No caso dos livros da Agatha, pela diversidade de personalidades que ela cria. Ela fazia isso com maestria, os personagens são bem trabalhados e coerentes. Mas vez ou outra, as históricas acabam sendo iguais, como em Um corpo na biblioteca e Nêmesis. E, mesmo assim, eu leio e curto. Acho que a Agatha é a única autora com fórmulas que eu leio muito. As outras fórmulas me cansam. 

Vejamos: Dan Brown escreve livros com uma fórmula e um deles fez muito sucesso. É inegável que O código Da Vinci gerou uma série de filhotes no mundo todo. De uma hora pra outra, todo mundo queria escrever uma trama com um personagem carismático e muito didático que desvenda mistérios da humanidade. O personagem Robert Langdon esteve em um livro anterior, Anjos e demônios, e nos posteriores O símbolo perdido e Inferno. E na cola vieram outros personagens, protagonizando tramas tão malucas quanto: cheias de didatismo, de situações inverossímeis, de aventuras malucas e soluções de crimes ou problemas. Ou seja: independente das situações, você já sabe o que vai acontecer. 

Outro exemplo é a chick-lit. Não consigo ter paciência para livros que vão terminar exatamente do mesmo jeito: a mocinha desajeitada e cheia de boas intenções passa por alguns perrengues e conquista o amor da sua vida e/ou a solução de todos os seus problemas. Tão previsível… e, aqui, não consigo ver vantagens na leitura, porque acho que os chick-lit, de maneira geral, são muito mal escritos. Não consigo achar um chick-lit bacana, mesmo que tenham alguns de que gostei, como O diário de Bridget Jones e O diabo veste Prada. Mesmo estes, por mais que a leitura seja divertida e sirva pra arejar a cabeça, não são livros marcantes ou que tragam algum tipo de aprendizado. 

É o meu gosto, claro. Não gosto de chick-lit nem do modo-de-fazer-como-Dan-Brown, mas curto muito Agatha Christie. Não vejo a literatura como entretenimento. Vai na mesma direção do que falei sobre cinema aqui: acho que a literatura é pra fazer pensar, pra gerar aprendizado. Não aprendo com Agatha Christie. Ela é responsável pelos meus momentos de entretenimento em termos de leitura. Ou seja: quero ler mas não quero coisas aprofundadas: vamos de Agatha. Quero ver um filme, mas não quero pensar: vejo bobagens, comédias, coisas leves. Pra cumprir o papel de cinema e da literatura, na minha vida, tem que ser coisa séria. Sem fórmulas, sem pastelaria. 


Isso vale pra mim. Pode ser a verdade de outra pessoa e pode não ser. Ok?

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...