sexta-feira, 31 de julho de 2015

Amores e dores no país das flores

Uma das melhores coisas que Ouro Preto proporciona é um espaço amplo para todas as formas de arte. Aqui tem orquestra, banda de música, banda de rock. Tem vários grupos de teatro. Tem muitos artistas plásticos. E é possível ver todo tipo de arte acontecendo, na rua, a céu aberto, ou pela porta aberta de um ateliê qualquer - não! Jamais um ateliê em Ouro Preto será "qualquer". Sempre tem alguma coisa rolando.

Um dos grupos de teatro local é o Resid[ê]ncia (Facebook e site), formado por ex-alunos de Artes Cênicas. As produções são sempre muito bonitas e bem cuidadas. Em 2015 eles lançaram a peça Amores e dores no país das flores, e eu logo quis assistir. Mas não pude ir na estreia e fiquei esperando uma nova oportunidade. Ela chegou agora, no dia 19 de julho.

A peça tem características de teatro de rua. Então, foi apresentada na Praça Tiradentes, coração de Ouro Preto, aos pés do Museu da Inconfidência, numa tarde bem fria. E reuniu bastante gente.


Hérmia, a personagem mais bravinha da trama

Tudo começa com Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, um agiota de Ouro Preto que foi condenado à forca (aquela história que a gente já conhece), mas que ofereceu um tratamento dentário para a Corte e foi poupado: outra pessoa foi enforcada em seu lugar. Ele está de volta à cidade e, ao que parece, perdeu todo o seu dinheiro. Tiradentes tem um filho, o Hortelino (aquele que tem o queixo fino), que é apaixonado por Diadorim. Ela, por sua vez, ama o personagem mais incrível desse mundo (e acho que o Julliano Mendes, criador da peça, é fenomenal por ter pensado nisso), o Romeu do Romeu e Julieta do Galpão - imagine que todos os outros personagens se referem a ele desse jeito mesmo: Romeu do Romeu e Julieta do Galpão!). Ele também é alvo do amor de Hérmia, uma moça que está disposta a tudo para conseguir o seu amor, até mesmo chamar o seu irmão, que é um grandalhão que vive no Rio de Janeiro. Tem ainda o Juvenal, que é o segundo empregado da casa de Joaquim José. E tem o primeiro empregado - esqueci seu nome.


Fiquei apaixonada com o uso dos elásticos na trama

A trama é uma delícia. Divertida, engraçada, irônica, ágil, com elementos de cena muito curiosos. Entretenimento perfeito praquela tarde fria de domingo. Os atores deram um show. A plateia estava cheia de crianças, todas interagindo com a ação de uma forma engraçadíssima. O espírito mambembe faz tudo ficar ainda mais intenso.


Olha aí o Romeu do Romeu e Julieta do Galpão!

Mais elásticos


Pena que tava acabando...

Julliano e Resid[ê]ncia, vida longa ao teatro! E aos Amores e dores no país das flores!

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Livro: Três vezes ao amanhecer

Livro e Machado de Assis, um dos cafés da Set Palavras


Olha, nem sei o que falar sobre esse livro. Foi uma indicação do Valter para o Clube de Leitura, que acolhemos porque ele insistiu que era um livro lindo, com tudo no lugar. E também porque é fino. E tava todo mundo sem tempo de ler coisa grande - a outra indicação é um dos meus livros favoritos da vida: Grande Sertão: Veredas.

Partimos pro Alessandro Baricco, autor italiano contemporâneo com uma prosa ~saborosíssima~ (pra usar a expressão de um dos professores do mestrado, hahahaha), uma (ou três?) história deliciosa.

Na introdução, Baricco conta que o texto surgiu a partir de outro livro dele, Mr. Gwyn. Era parte da narrativa, e ele quis desenvolver a história depois. Aí nasceu Três vezes ao amanhecer, com dois personagens que se encontram três vezes, durante essa hora entre o fim da noite e o amanhecer, e vivem situações peculiares. São encontros impossíveis, e é muito difícil explicar o motivo sem contar o que é pulo do gato do livro.

Ou seja: não é fácil falar sobre o livro. Mas é fácil, muito até, curtir a(s) história(s), navegar pela prosa linda e limpa do Baricco. Que escrita simples e, ao mesmo tempo, de elaboração profunda! Realmente tocante.

Aí, na discussão do Clube, a Aline Mangaravitti comentou que leu Três vezes ao amanhecer em um dia e ficou tão encantada com o Baricco que foi atrás de ler Mr. Gwyn também. E que, com essa leitura, teve que reler o Três vezes, porque o sentido muda - não radicalmente, fique claro - mas é possível entender a motivação por trás daquelas três históricas em que personagens que se encontram não poderiam se encontrar naquelas circunstâncias.

Resumindo: pre-ci-so ler Mr Gwyn pra ontem. Mas com esse mestrado, oh céus, quando será?

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


terça-feira, 28 de julho de 2015

Citações 110

De Anjos do universo:



Esta gente doente jamais saía ao ar livre, não tomava banho, não se penteava nem escovava os dentes. Sabão era algo raro para eles, escovas de dente, inexistentes. Quando alguém queria chamar a atenção para aquelas condições precárias e para o fato de que aquele tipo de confinamento não tinha mais cabimento, argumentava que até mesmo os criadores de ovinos eram legalmente obrigados a permitir que seus rebanhos tomassem banho de sol de vez em quando. 
Será que aqueles doentes tinham menos direitos do que as ovelhas? Será que a melhor solução era mesmo mantê-los encerrados e relegados ao esquecimento?


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


segunda-feira, 27 de julho de 2015

O que (eu acho que) tem de bom pra ler na net #77

1 - A falta que ela me faz
Post lindo da Tucha sobre o luto. Cada luto é um. O dela é pela filha. O meu, pela Tia Ylza, pela Vovó e pelo Tio Jésus. A gente vai vivendo, com esse vazio aqui dentro, tendo que lidar com o que ficou.

2 - Não é só ansiedade - mas também não é loucura
Da lindíssima da Dreisse, sobre o Transtorno da Ansiedade Generalizada. Sobre preconceitos, remédios e sobre como a vida da gente muda depois de diagnósticos assim.

3 - Aos Fatos - Um serviço jornalístico para checar o que é fato ou cascata
Do Mário Magalhães, que traz essa esperança pra gente checar o mar de factóides e notícias falsas que circula por aí. Vida longa!

4 - O jornalismo musical não vale um centavo
Do André Barcinski, sobre um dos jornais sobre música que vai deixar de ser vendido para ser distribuído. Esse assunto me toda diretamente, por conta do valor do trabalho. Vale a pena ler também por conta da história do jornal New Musical Express.

5 - Aos companheiros de depressão
Texto do Pablo Villaça sobre a depressão crônica que o acompanha há anos. E sobre como a depressão preenche todos os espaços da vida.

6 - As coisas que eu não
Da Rosana Hermann. Mas podia ser meu: "O que não sei, não vi, não conheço, é por isso que me interesso".

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


domingo, 26 de julho de 2015

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Livro: Objetos cortantes




Desde que li Garota exemplar,  de Gillian Flynn, fiquei com vontade de ler Objetos cortantes, o primeiro livro dela. Mas vieram vários percalços, com as mortes na família, e também a seleção do mestrado, o início das aulas e a infinidade de textos pra ler pra cada aula, pros seminários e pros artigos. Mas aí a Ana Paula comprou o livro, leu e queria alguém pra comentar. Foi assim que o livro dela veio parar comigo. E foi assim também que burlei aquela regra não escrita de que mestrando não lê nada além do que vem do mestrado.

Li Objetos cortantes em dois dias. A história me prendeu e me deixou assustadíssima. Quando terminei a leitura, fiquei muito abalada. Talvez porque a história seja mesmo muito crua, muito cruel. O livro mexeu demais comigo.

É a história da jornalista Camille Preaker, que trabalha num pequeno jornal de Chicago. Seu editor, que é duro, mas bastante carinhoso com ela. Ele insiste que ela volte a sua cidade natal para cobrir o desaparecimento de uma garotinha. Há alguns meses, outra garotinha da cidade também desapareceu e foi encontrada morta. O editor vê que ali pode estar uma história que daria um prêmio para o jornal. Camille vai, contrariada. Ela não tem uma boa relação com a mãe. Há alguns anos, sua irmã do meio morreu, e a mãe entrou em um processo denso de luto. Camille saiu da cidade e não chegou a conhecer Amma, a irmã caçula. Surgir do nada na casa da mãe, retomar o contato com o padrasto, finalmente conhecer a irmã mais nova e se ver de novo no centro de uma cidade provinciana fazem a jornalista sofrer.

Além disso, ela é uma das primeiras pessoas a encontrar o corpo da garotinha desaparecida, e mergulha de cabeça na investigação do crime. Um policial de outra cidade é chamado para acompanhar o caso e Camille desenvolve com ele uma relação um tanto estranha. Além disso, tem o principal suspeito, o irmão mais velho de uma das garotas mortas, que também terá um papel importante na história de Camille.

A história é bastante perturbadora. Desde os assassinatos, passando pela relação familiar de Camille, por sua história com o policial e com o suspeito, com suas amigas de infância, com seu padrasto. Também por sua história com seu próprio corpo. Camille se corta, sempre que passa por alguma situação de opressão, de desespero. Mas o mais perturbador, mesmo é o desfecho. São poucas páginas, que invertem a história e jogam na cara do leitor uma realidade bem feia.

Sim, é um bom livro. Sim, vale a leitura.


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


segunda-feira, 20 de julho de 2015

O que (eu acho que) tem de bom pra ler na net #76

1 - 8 respostas rápidas para os argumentos homofóbicos mais comuns no Brasil
Do Van Filosofia, com algumas formas até simples de argumentar com os homofóbicos e seus "argumentos" sem fundamentos.

2 - Chimamanda Ngozi Adichie: Não silencie essa voz
Tradução e vídeo do discurso da Chimamanda (essa linda) na formatura da turma de 2015 da faculdade americana de Wellesley. Necessário. Do Blogueiras Feministas.

3 - Você vem do meu planeta?
Texto da Rosana Hermann sobre essa loucura desses dias que o Brasil está vivendo, em especial sobre a barbaridade que é o tal adesivo fake da presidente Dilma em tanques de combustível de carros. Não importa se você concorda ou não com o governo dela. O que se fez, sendo fake ou não, é desrespeitoso com TODAS as mulheres. E dá vontade de fugir correndo do mundo que é capaz de produzir uma coisa dessas.

4 - Redução da maioridade penal por causa de estupros? Balela!
Post muito bom da Clava Averbuck no Lugar de Mulher sobre essa história da redução da maioridade penal com o argumento de que menores estupram. Como o poder legislativo brasileiro (exceto pouquíssimas pessoas) estivesse preocupado realmente com o estupro, com suas causas reais (que não são, nunca, centradas na mulher) e com as consequências (essas, sim, todas para a mulher). Falácia pouca é bobagem!

5 - Falar em racismo reverso é como acreditar em unicórnios
Texto da Djamila Ribeiro no Lugar de Mulher (sempre ele), sobre como o racismo reverso também é uma falácia. É preciso entender isso direito.

6 - Ser feminista é...
Pode indicar mais um texto do Lugar de Mulher? Mais uma porrada na cara, como sempre. Sobre feminismo, Kim Kardashian e Marilyn Monroe

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


domingo, 19 de julho de 2015

terça-feira, 14 de julho de 2015

Citações 109

Do livro Anjos do universo:


- Há um tipo de sanidade na loucura. Quando chego e ofereço café e bolo natalino para Bjössi, sem falar de um cigarro inteirinho que deixei ele fumar, ele é tomado por uma paz que eu diria ser uma paz angelical. Nunca tive qualquer problema para dar banho nele, e ele jamais encostou um dedo em mim, apesar de já ter tentado matar vários médicos. É isso que quero dizer com sanidade na loucura. Se todo mundo lhe trata mal, não sobra ninguém a quem tratar bem. Os pacientes entendem isso. Apesar de serem perturbados mentalmente, o coração dele bate igual ao nosso. 


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sexta-feira, 10 de julho de 2015

Tio Jésus




Paulo costuma dizer que estamos perdendo as nossas referências.

Hoje, mais uma delas se foi.

Tio Jésus, meu tio querido, meu colo, meu ombro, meu apoio. Minha referência. Minha esperança.

Tá difícil viver assim.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


terça-feira, 7 de julho de 2015

Citações 108

Do livro Anjos do universo:


Lembro bem do dia em que o Muro de Berlim veio abaixo, não porque achasse que a queda dele significasse algo de especial para mim ou que de alguma forma me dissesse respeito, mas sim porque pensei naquela ocasião: 
- Este muro caiu, já os muros que se erguem entre o mundo e eu nunca cairão. Eles seguem ali, firmes e fortes, apesar de ninguém conseguir enxergá-los.

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domingo, 5 de julho de 2015

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Dos dias

Luto é uma coisa curiosa. Faz o foco mudar assim, do nada. Faz coisas completamente sem importância ficarem enormes enquanto que algo que antes seria grande fica insignificante. Aqui cresceram as datas. 

Ando contando os meses de ausência, de uma e de outra. 

Conto os dias que seriam significativos pra cada uma.

As hora em que Tia Ylza agonizou, os dias em que vovó sofre após o AVC. 

As duas estavam próximas dos 100 anos. Nenhuma delas queria fazer 100 anos.

Hoje vovó faria 97. Amanhã vovô faria 96. Em setembro, Tia Ylza faria 93.

Sigo contando. 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Livro: A arte de calar



Primeiro dia da aula de Semiótica no mestrado e vem a notícia de que todas as aulas serão seminários, a cada dia apresentado por um aluno. Não sei o que me deu... queria ter escolhido a primeira apresentação, que tinha textos filosóficos, mas acabei com a oitava, a da aula nº 9. Pra leitura havia um texto de um cara que é considerado um dos herdeiros de Marshall McLuhan e este livro, A arte de calar, escrito em 1771 pelo Abade Dinouart. Primeira dúvida: como ligar um texto do fim do século XX com outro do século XVIII? Achei que seria uma tarefa inglória, mas não foi o que aconteceu. A arte de calar é um livro super atual.

O contexto é o da pré-Revolução Francesa, é o século do Iluminismo e dos grandes questionamentos filosóficos sobre a religião como doutrinadora. Tudo se contesta, tudo se quer conhecer. E para o Abade Dinouart, era a hora errada para esses questionamentos. Ele acreditava piamente que o que Deus ocultou aos homens deve se manter oculto. Com uma frase do capítulo 3 do livro Eclesiastes, da Bíblia, ele baseia o livro: há tempo para falar e tempo para calar. 

Para Dinouart, escreve-se mal, escreve-se demais e não se escreve o suficiente. Ele disseca essas três observações no livro, dando destaque à necessidade de se exercitar o bom senso: a proposta é que só se diga alguma coisa quando se tem muito conhecimento para isso. E, para ele, o conhecimento todo do mundo já está dado: não há mais o que investigar. Assim, não é preciso que haja dois (ou mais) livros sobre o mesmo assunto - basta o que foi publicado primeiro. Também é preciso ter bom senso na hora de tratar de um assunto que se domina: na empolgação, acabamos falando demais sobre o tema, quando é necessário ter concisão.

Em dois capítulos, Dinouart descreve quais são os dez tipos de silêncio e quais tipos de pessoas causam esse silêncio. É uma espécie de estudo do homem. Pena que ele acredita que apenas dois tipos de silêncio são válidos e que apenas o homem pudente ou político sabe fazer o silêncio correto.

Em tempos de mídias sociais, é fácil dar voz a Dinouart e considerar que ele está correto. Na verdade, o autor tem medo do novo e quer evitá-lo. Não é a favor da alfabetização - do mesmo modo que, hoje, muitas pessoas são contrárias à inclusão digital porque ela dá voz a quem sempre esteve sem lugar para se manifestar. O abade acerta em muitos pontos e, por isso, seu texto é bastante atual. Mas, por outro lado, o preconceito com o diferente é seu calcanhar de Aquilles.

Mesmo assim, é uma leitura fluida e bem divertida. O livro é bem curto e escrito de forma bem agradável. O contrtaponto com o Derrick de Kerchkove, o outro autor do meu seminário, foi bastante interessante. Dinouart entra, fácil, na lista de livros mais legais de 2015.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...