terça-feira, 31 de maio de 2016

Citações 154

De A elegância do ouriço:


Aprendi a ler sem ninguém saber. A professora ainda repetia as letras para as outras crianças, e eu já conhecia havia muito tempo a solidariedade que tece os sinais escritos, suas infinitas combinações e os sons maravilhosos que tinham me investido naquele local, no primeiro dia, quando ela disse meu nome. Ninguém soube. Li como uma alucinada, primeiro escondido, depois, quando o tempo normal de aprendizagem me pareceu superado, na cara de todo mundo, mas tomando o cuidado de dissimular o prazer e o interesse que tirava daquilo. 

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


segunda-feira, 30 de maio de 2016

O que (eu acho que) tem de bom pra ler na net #115

Maio de 2016. E ainda precisamos falar sobre estupro. Ainda precisamos combater a cultura do estupro. Ainda vivemos com medo do estupro.

Então, vai ter indicação temática sim. E se reclamar, vai ter mais.


1 - e neste dia desinfeliz para ser uma pessoa alfabetizada
Do blog Vamos todos morrer. Imagina como a menina estuprada por mais de 30 homens acordou. Sozinha, sangrando, largada para morrer. Imagina. Aproveita e imagina, também, como seria o mundo sem machismo, sem o poder masculino sendo empurrado por sobre todas nós.

2 - O estupro e a impunidade numa cidade universitária
Da Camila von Holdefer, sobre o livro Missoula, de Jon Krakauer. Continuamos no tema estupro, mas o texto da Camila, que resenha o livro, traz outros elementos: jurídicos, midiáticos, até turísticos. Cabe bem para algumas discussões que acontecem aqui em Ouro Preto. "[...] o pior de Missoula, o mais insuportável, é a naturalidade com que Krakauer deixa claro que nada ali é ficção. Por essas e outras que Missoula é um livro perturbador, mas fundamental". Quero ler. Não sei se terei estômago.

3 - O que a audiência a Alexandre Frota tem a ver com o estupro coletivo no Rio
Do Mário Magalhães. Descastando a desfaçatez que é o ministro do governo ilegítimo receber esse senhor. Conectando a audiência ao caso perturbador do estupro coletivo no Rio de Janeiro. Se é que eu posso indicar uma coisa na vida, essa é: leia o blog do Mário Magalhães. Leia tudo o que ele escreve. Nunca te pedi nada...

4 - Eu não combato a cultura do estupro (uma constatação envergonhada)
Da Ana Paula Pedrosa. Ainda sobre o estupro coletivo, porque temos que falar muito disso. E sobre as nossas omissões diárias, porque é difícil se posicionar. Dá medo. Mas também reforça o comportamento geral. Também não combato a cultura do estupro como deveria.

5 - Precisamos falar sobre a putaria no WhatsApp
Do Luciano Caramori. Não concordo com algumas partes do texto, mas acho muito relevante o tema proposto: como a pornografia pode influenciar esses crimes de gênero (existe o termo ou estou viajando?). Vamos conversar mais sobre isso?

6 - Ode à rede do ódio
Do Santiago Nazarian, que traz outro contraponto à questão do estupro: a existência da rede. É por ela que se propagou o vídeo, é por ela que tem-se propagado tanta misoginia, tanto machismo. Mas sem ela, não ficaríamos sabendo de tanta coisa... a menina que foi estuprada, talvez, nem entrasse pra estatística e este debate, agora, não estaria acontecendo.


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domingo, 29 de maio de 2016

Compras



Daqui.

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sexta-feira, 27 de maio de 2016

Plantão da barbárie

* aviso: estou emocionada demais pra conseguir articular ideias direito. Então, é possível que alguma coisa deste texto (ou textão, vá lá) saia desconectada, algum conceito fora do lugar. Além disso, tenho prazo pra enviar o material da qualificação. Mas como escrever me ajuda a colocar as ideias no lugar, tô aqui dando a cara a tapa. Um dia volto aqui e reviso. Isso, claro, se eu conseguir ter sangue frio pra voltar.

Há muitos anos, entendi que sou de esquerda desde pequena. Foi quando, numa sessão de análise, contei pra analista como foi que comecei a torcer pelo Atlético Mineiro. Lembro muito bem do meu vizinho me perguntando pra qual time eu torcia e, em resposta, perguntei quais times tinha. Ele disse Atlético e Cruzeiro. E cruzeiro era o nome do dinheiro na época (bem antes do cruzeiro novo, do cruzado, do cruzado novo, do cruzeiro novamente, a URV e do real, agora também chamado de dilma). Eu não quis torcer pelo dinheiro. Tinha seis anos e decidi torcer pelo Galo pra não torcer pelo dinheiro. Contei mais disso aqui, quando falei sobre minha vontade de desapegar do futebol por conta da violência).

Essa introdução sobre esquerda-dinheiro-futebol é pra falar que a subida do Temer ao poder (e sua agenda de direita) me incomoda muito. Mais do que eu sou capaz de expressar no momento. Não que eu estivesse satisfeita com o governo 2 da Dilma, e a minha insatisfação vem, justamente, da agenda de direita que ela implantou. Mas deixemos isso de lado e vamos ao que interessa.

Em 15 dias de governo, seu Temer fez tantas trapalhadas, tantos retrocessos... Para quem quiser saber mais dos retrocessos, a Kika Castro listou 16 em 12 dias. Cara, como é que pode fazer a história voltar atrás tão rápido??? Como pode jogar fora várias conquistas sociais? Como consegue deixar o social de lado?

Uma das coisas que mais me incomodaram foi o fim do Ministério da Cultura. E, de quebra, ver uma galera comemorando tanto a morte do ministério como detonando a Lei Rouanet, sem nem saber o que é a lei e como ela funciona. Aderbal Freire-Filho escreveu em um jornal como a coisa funciona de verdade. Nenhum artista é vagabundo sustentado pelo governo. A lei pode ter distorções? Sim. Tem. Mas isso não significa que deve ser jogada fora.

Mas, dirão alguns - o governo reconheceu o erro e voltou com ministério. Reconheceu o erro??? Sério que vocês acreditam nesse tipo de discurso? Gente!!! Ok, o ministério voltou. Mas vocês viram o Iphan? O novo MinC criou uma Sephan, com o objetivo de esvaziar o Iphan. Não consigo nem acreditar nesse tipo de coisa. Cadê o meteoro, cadê?

Li - acho que no Medium, perdoem a falta de referências - alguém dizendo que a tática do governo interino ilegítimo é fazer o maior número de ações chocantes rapidamente, para que, lá na frente, ninguém mais se assoberbe com qualquer coisa que ele faça: a ideia é que vamos nos acostumar com os choques e, pronto, ninguém mais vai contestar.

Faz sentido. E dói ainda mais. Vamos pensar um pouco como essa cultura do choque se reflete na nossa vida comum? Tem aquele famoso excerto de poema que, volta e meia, alguém atribui a Brecht, mas que, na verdade, chama "No caminho, com Maiakóvski" e que é de Eduardo Alves da Costa:

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

E o novo ministro da Educação, que recebe Alexandre Frota e os Revoltados Online, como primeiros civis a serem ouvidos em audiência? Ouvir os estudantes, os professores, os técnicos em educação não, né? Tá muito triste viver nesses dias em que tudo parece ter virado do avesso. E o sujeito ainda sai da Educação e diz que vai procurar a Cultura. Meodeosdocéu... No dia em que o ministro recebe um cara que confessou, na TV, ter estuprado - na frente de uma plateia que ria e aplaudia, como se isso fosse normal -, uma menina é estuprada por mais de 30 homens. É filmada e o vídeo vai parar na rede.

Queria chamar a atenção para o "como se isso fosse normal" que falei no parágrafo acima. Quando alguém conta uma piada que envolve violência de qualquer tipo contra uma mulher, que seja aquelas em que se diz que mulher no volante é perigo constante, ou que elas devem esquentar a barriga no fogão e esfriar na pia, estamos reforçando o estereótipo de que a mulher é mesmo um ser inferior. E isso veio de Aristóteles, que dizia que a mulher é um homem incompleto. E foi parar no cristianismo pelas mãos de Tomás de Aquino. Aí estamos todos reforçando essa posição. É preciso quebrar essa corrente, é preciso parar com isso.

Não é normal uma pessoa ser tratada de modo diferente porque ela não está no padrão homem-branco-cristão-ocidental-rico. Não é normal mulher ser tratada como objeto. Não há justificativa para estupro. Como também não há para racismo, homofobia, intolerância religiosa ou de qualquer outro tipo. Não há justificativa, repito.

Vi aqui.

E não há justificativa praquela piada que dizem ser inocente. Não há justificativa pra mulher que julga a outra como piranha-vaca-vadia e outras coisas quetais. Não há justificativa que use argumentos como "a roupa estava curta", "ela pediu", "estava sozinha, estava querendo" e correlatas. A piada é a base da pirâmide que leva à fixação de papéis sociais, em que mulheres "não podem" fazer algumas coisas e "devem" fazer outras. Por exemplo, meu pai dizia que só eu e minha irmã tínhamos que aprender a arrumar a casa, lavar louça, lavar e passar roupas, porque é "coisa de mulher". Lembro um dia que pedi ao meu irmão para tirar a travessa de arroz da mesa e levar para cozinha. Ele foi, todo solícito. Mas meu pai o mandou voltar, colocar a travessa de volta na mesa, porque aquilo não era trabalho pra ele.

Esses estereótipos vêm cheios de ameaças, e não foram poucas as vezes em que fui repreendia apenas por ser mulher. Começou com o futebol, que era uma das minhas paixões enquanto criança. Lembro do grito do meu pai, pela janela do décimo andar, me mandando subir a-go-ra pra casa. Chegando lá, a bronca foi porque futebol era coisa de meninos e aquele tinha sido meu último dia jogando com os moleques do prédio. Se eu quisesse descer pro playground de novo, seria pra ficar no meu canto, no máximo conversar "civilizadamente" com eles. Nada de jogos, nada bola, nada de gritos e correria. Eu deveria me portar como "uma moça". Foi esse mesmo cara aí, que eu sou obrigada a chamar de pai, que um dia achou uma saia que eu usava muito curta. Me mandou tirar e a picotou em pedaços. Porque, com saias curtas assim, eu estava "pedindo pra ser estuprada", e ele não ia permitir que eu me "oferecesse por aí". Ele estava me protegendo? Não. Estava protegendo o sistema patriarcal que nos trouxe até aqui. Estava realmente preocupado comigo, com meu bem estar? Não. Estava preocupado em não ser o pai de uma "oferecida", porque isso era uma vergonha PRA ELE.

Pensar em educar meus irmãos para respeitarem as mulheres, seus corpos, suas roupas, seus desejos? Nunca o vi fazendo isso. Meus irmãos cresceram e se tornaram homens respeitadores, muito conscientes, por N fatores. E nenhum deles foi pelo que viram em casa. Essa alegria eu posso ter: meus irmãos têm pouco consigo o que nosso pai sempre fez questão que carregassem.

Voltando à base da pirâmide: nenhuma piada é inocente. Especialmente as que atingem as minorias (e antes que alguém diga que há mais mulheres que homens no mundo, minoria também se relaciona à força. O mundo é masculino, não há como negar). Então, eu não aceito. Algumas vezes, não reajo, porque dói demais ter que levantar das cinzas alguns temas pra argumentar. Mas sempre que posso, enfatizo: não faça esse tipo de piadas. Porque começa assim e termina em estupro, em morte, em barbárie. Mulheres, não façam esse tipo de piada. Não reforcem o machismo que nos oprime diariamente.

Pra finalizar, e sem querer doutrinar ninguém, retomo Kant. A grosso modo, ele dizia que precisamos investir pesadamente em educação e que, até os 16 anos, os seres humanos não controlam seus instintos. Precisam aprender com rigor, para poderem viver em sociedade. Após muito estudo, muito ensino, a pessoa de 16 anos estaria apta para enfrentar a vida sem deixar que os instintos animalescos tomassem a frente da razão. Não sei se dá pra concordar com essa coisa da idade, enfim. Eram outros tempos, outros arranjos sociais. O fato é que um homem só vai aprender que DEVE respeitar o corpo de uma mulher, não importa a circustância, se for muito bem ensinado, desde criança.





Então, senhores pais, por favor, façam um mundo melhor. Promovam uma sociedade em que haja respeito, tolerância, empatia, amor. Ensinem as crianças que respeito é fundamental. Ensinem os meninos a não estuprar.


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quarta-feira, 25 de maio de 2016

Livro: As crônicas de gelo e fogo: Fúria de Reis



O segundo livro de As crônicas de gelo e fogo consegue ser tão envolvente quanto o primeiro. Aliás, vai ser bom de amarrar o texto assim, heim, seu George R. R. Martin! Parece que não tem uma vírgula fora do lugar (e eu não falo da escrita em si, mas da trama), tudo se encaixa perfeitamente! É de dar gosto - e, também, de sentir invejinha pela capacidade phodástica que o autor tem.

Em A fúria dos reis, temos o cenário de continuidade da história anterior, com a família Stark sentindo a morte de Ned e iniciando uma rebelião, que leva Robb a ser proclamado Rei do Norte pelos vassalos de seu pai. As meninas, Sansa e Arya, estão sofrendo em situações diferentes: Sansa está sendo constantemente torturada por Joffrey (esse psicopatinha terrível), enquanto Arya segue pela Estrada do Rei a caminho da Muralha, mas vai passar por várias reviravoltas.

Na corte, a família Lannister vê uma nova ameaça surgir. A legitimidade de Joffrey no trono é contestada por Stannis Baratheon, irmão mais velho do rei morto, e também por Renly Baratheon, o caçula, que contesta até mesmo o direito de Stannis por ser mais velho. A guerra entre o rei que está no trono e os que querem direito a ele, e até mesmo com Robb Stark, que só quer libertar o norte e ter de volta suas irmãs e o corpo do pai, permeia todo o volume. E tem Tyrion, sendo um estrategista fantástico que jamais será reconhecido por tudo o que fez pela Batalha do Água Negra.

Vamos sendo apresentados a outros personagens. Brienne é um deles, e eu sinto muito amor por ela. Mesmo que se atrapalhe bastante em várias situações, ela é uma fofa. Também tem o Pod, que é tão bacana quanto. E Melissandre, que assusta demais. E Selise, tão esquisita, enquanto Shireen é doce demais.

É preciso reconhecer que o senhor George (GRRR) Martin sabe muito bem o que anda fazendo. O que só me dá mais vontade de mergulhar nesse universo :-)



Já lido:
As crônicas de gelo e fogo: Guerra dos tronos

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terça-feira, 24 de maio de 2016

Citações 153

De A elegância do ouriço:


Acredita-se erradamente que o despertar da consciência coincide com a hora do nosso primeiro nascimento, talvez porque não conseguimos imaginar outro estado vivo além desse. Parece-nos que sempre vimos e sentimos, e, apoiados nessa crença, identificamos na vinda ao mundo o instante decisivo em que nasce a consciência. Que durante cinco anos uma garota chamada Renée, mecanismo perceptivo operacional dotado de visão, audição, olfato, paladar e tato, tenha vivido na perfeita inconsciência de si mesma e do universo é um desmentido a essa teoria apressada. Pois, para que a consciência surja, é preciso um nome. 


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segunda-feira, 23 de maio de 2016

O que (eu acho que) tem de bom pra ler na net #114

1 - Absurdo não é ressuscitar em Game of Thrones, mas Eduardo Cunha ser eterno
Do Sakamoto. Eu ainda queria ter uma conversinha com os senhores que colocaram esta figura na presidência da Câmara.

2 - A sonegação e a imprensa que vale mais pelo que deixa de publicar
Do José de Souza Castro no Blog da Kika Castro. Importante pra quem acha que a imprensa é ética ou que é possível confiar no que é publicado por empresas de mídia. Tá difícil, viu?

3 - O boy machista de esquerda
Da Jéssica Romero, no Desvio Livre. Esclarecedor, sobre como podemos nos enganar com o discurso das pessoas. Machista é machista, independente da orientação política. E não passarão!

4 - "Poema" pra mim mesma
Da Bel, em comemoração aos seus 51 anos. O poema é a fonte do "Amor pra recomeçar", do Frejat, e é lindíssimo e inspirador. E a Bel merece toda a felicidade possível.

5 - Cindy Lauper: Girls Just Want Equal Funds
Da Nathália Pandeló, sobre a paródia daquela música mara da Cindy Lauper. Aqui, o que se pede é igualdade salarial para as mulheres. Phoda que estamos em 2016 e ainda é preciso lutar por isso...

6 - Os "Documentos do Pentágono" e as lições de quem os revelou ao mundo
Do José de Souza Castro, no Blog da Kika Castro. Impressionantes como são bons os "Artigos do meu pai", que é como a Cristina denomina as postagens dele. O texto fala de uma situação americana e de como ela se aproxima do Brasil de hoje.


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domingo, 22 de maio de 2016

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Livro: O amor nos tempos do ouro



Livro novo da Marina Carvalho, O amor nos tempos do ouro mostrou, pra mim, que a Marina conseguiu amadurecer ainda mais a escrita. Foi lido em dois dias, burlando a bibliografia ENORME de Metodologia que tenho aqui.

O livro conta a história de Cécile Lavigne, uma jovem francesa que perdeu toda a família em um acidente e se vê às voltas com uma nova realidade: sem pais e irmãos, à mercê do tio que vive no Brasil e que passa a ser seu tutor, com o olho grande na herança da menina. Para isso, ele decide que o melhor é casá-la rapidamente com um rico senhor de minas de ouro das Minas Gerais. O acordo inclui que o tio ficará com uma porcentagem dos bens da jovem.

Cécile, então, viaja de Marselha para Lisboa e, de lá, para o Rio de Janeiro. Mal chega à casa do tio, é enviada com uma comitiva de negros, índios e homens livres para Vila Rica, onde vive seu noivo. A menina só pensa em morrer, para se reencontrar com seus pais e irmãos. Tudo a incomoda: o Rio de Janeiro, o tio e sua família, o jovem aventureiro que a levará para Minas Gerais. Fernão é rude e tem como único objetivo enriquecer com os trabalhos nem sempre honestos que faz para fazendeiros e nobres. Ele vê Cécile como seu último trabalho: após receber seu pagamento, vai se retirar para sua propriedade, distante o suficiente para não ser mais incomodado por trabalhos que não deseja mais fazer.

A viagem é cheia de percalços, e a chegada à Fazenda Real significa que Cécile terá que se submeter ao futuro marido violento - com ela e com todos os que o rodeiam, mais intensamente ainda com os escravos -, que não tolera ser desobedecido e que, já na primeira noite da jovem por lá, decreta um severo castigo. A jovem sofre e tenta se resignar, mas sua natureza é indomável, o que gera mais conflitos. Fernão, já enamorado pela francesa altiva, decide que é hora de tirá-la de lá, antes que o casamento aconteça e que Cécile perca, de vez, sua liberdade.

Em meio à situação degradante dos escravos mineradores, à opressão geral aos desfavorecidos, à situação de gênero, o romance caminha prendendo a atenção do leitor. É difícil desgrudar a atenção da história do Brasil, por trás do romance. Das entradas e bandeiras, do ouro que motivou buscas enfurecidas e tanta irracionalidade, das intolerâncias de ontem - e que estão por aqui até hoje, mesmo que travestidas de "não somos racistas, não somos sexistas". O amor nos tempos do ouro dói. Mesmo que haja romance, mesmo que haja aquela torcida pelo final feliz - e mesmo que a gente saiba que ele virá. É sofrido pensar que o pano de fundo realmente aconteceu, e que não nos preocupamos tanto assim com isso, como se as águas passadas não movessem moinho. Mas as águas mancham por onde passam, e essa mancha não sai.

Penso que é o livro mais bonito da Marina, porque atinge esse ponto da história e porque é o mais bem acabado (não que os outros não fossem, claro). Talvez seja a linguagem que me deu essa impressão, mas considero que não, que é amadurecimento mesmo do trabalho de escritora, o que só tenho a comemorar. Que venham mais livros lindos e tocantes por aí!

Já escrevi sobre outros livros da Marina:
Simplesmente Ana
De repente, Ana
Elena, a filha da princesa
Ela é uma fera!
Azul da cor do mar (este continua sendo meu favorito, mesmo eu achando que O amor nos tempos do ouro o superou em qualidade. É uma "favoritice" afetiva, me deixa!)

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terça-feira, 17 de maio de 2016

Citações 152

De A elegância do ouriço:


Acredita-se erradamente que o despertar da consciência coincide com a hora do nosso primeiro nascimento, talvez porque não conseguimos imaginar outro estado vivo além desse. Parece-nos que sempre vimos e sentimos, e, apoiados nessa crença, identificamos na vinda ao mundo o instante decisivo em que nasce a consciência. Que durante cinco anos uma garota chamada Renée, mecanismo perceptivo operacional dotado de visão, audição, olfato, paladar e tato, tenha vivido na perfeita inconsciência de si mesma e do universo é um desmentido a essa teoria apressada. Pois, para que a consciência surja, é preciso um nome. 

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segunda-feira, 16 de maio de 2016

O que (eu acho que) tem de bom pra ler na net #113

1 - Os últimos dias da democracia
Da Patrícia Daltro. É assustador isso tudo que está acontecendo no Brasil. Assustador, especialmente, porque eu acreditei, durante anos, que nada parecido com 1964 aconteceria novamente. Em geral, nós aprendemos com a experiência. Mas algo, que não alcanço, levou o brasileiro a esquecer o horror.

2 - "As mulheres de verdade não querem empoderamento. Querem é ser amadas"
Texto do Sakamoto sobre a frase acima, dita por um deputado federal de São Paulo. Quando um homem resolve, ele mesmo, definir o que as mulheres querem, já tá tudo errado. Tão errado que tá mesmo na hora do meteoro vir. Vem, meteoro!

3 - Ficando doente na "comunista" Alemanha
Da Nina Lemos. Os posts dela são sempre fantásticos. Os que comparam o Brasil com a Alemanha são muito bacanas porque nos fazem ver onde errados e onde acertamos. Sim, a gente acerta em várias ocasiões.

4 - O Tempo Cheshire
Da Ju, do Stella e seus absurdos. Que texto lindo! A Ju é minha amiga há anos, escreve muito bem e agora é imortal da Academia Sete-lagoana de Letras (#orgulho). Neste texto, ela desconstrói a imagem lindinha que eu sempre tive do Gato de Cheshire, associando-o ao tempo.

5 - Quem ama, cuida... Ou quem ama respeita a individualidade do outro... Ou os dois?
Da Rosinha. Respeito ao outro é fundamental. Mas a prática é tão difícil, né? Até porque é muito mais fácil exigir respeito do que respeitar.

6 - Pelo direito ao descontrole e ao choro diante da tragédia do Brasil
Da Nina Lemos. Choro junto.

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domingo, 15 de maio de 2016

Sempre



Daqui.

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quarta-feira, 11 de maio de 2016

Livro: A festa de Babette




Foi em 2015 que vi o filme A festa de Babette, na disciplina de Estética de Kierkegaard, com a professora Guiomar de Grammont. O filme é lindo e tem tudo a ver com a filosofia do dinamarquês. Gerou até um encerramento do semestre com a "nossa" festa de Babette, que foi muito divertida. Daí, a vontade de ler a obra de Karen Blixen permaneceu. Como o livro é super fininho, achei que deveria dar uma chance a ele. Em poucas horas, estava lido e tagueado.

O livro conta como a vida de duas irmãs Martine e Philippa, moradoras do povoado de Berlevagg, que levam uma vida muito simples. São tementes a Deus, têm uma pequena renda mensal e a dedicam quase toda, a fazer caridade. Elas são filhas de um grande pastor, que conduzia uma seita com expressão no país, mas que faleceu há alguns anos, deixando as moças solteiras, já que sempre se negou - sutilmente, é preciso dizer - que elas se casassem. Além de terem pretendentes em geral no povoado, pois eram muito bonitas, as moças tiveram, cada uma, um pretendente estrangeiro. Martine se viu cortejada por Lorens  Loewenhielm, um jovem oficial sobrinho de uma velha senhora, moradora do povoado. Philippa despertou os amores de um cantor de ópera francês, Achille Papin, encantado pela beleza e pela doce voz da amada. Dos dois "namoros" só restou um beijo e lembranças.

Muitos anos depois dos namoros frustrados e da morte do pai, Martine e Philippa viviam suas vidas tranquilas quando, em uma noite de tempestade, uma jovem bate à porta, assustada, sem falar uma palavra de dinamarquês. Ela traz consigo uma carta de Achille Papin, antigo namorado de Philippa. Chama-se Babette e está fugindo da França, onde marido e filho foram mortos. Papin pede abrigo para Babette e diz que ela trabalhará em troca do teto, não sendo necessário qualquer pagamento. Tinha sido cozinheira de um restaurante e pode ajudar as irmãs.

Relutantes, a princípio, elas aceitam Babette por caridade vivem cerca de 10 anos com ela. Até que chega da França a notícia de que um bilhete de Babette foi sorteado na loteria e ela ganhou a incrível quantia de dez mil francos. Ao mesmo tempo, aproxima-se a data em que o pai das irmãs faria 100 anos, e elas querem reunir a congregação. Babette oferece-se para fazer um jantar comemorativo - nunca pediu nada às irmãs que a acolheram; agora era a hora de ter um pedido atendido. Uma pequena confusão se forma na mente das irmãs ao ver os preparativos. O medo de estarem participando de algum ritual satânico toma conta e algumas confusões - nada a ver com as da Sessão da Tarde, diga-se - tomam a cena.

O livro é delicioso. Simples de ler, profundo em significados. Obviamente, as imagens do filme ficaram pulando na minha frente enquanto lia. E o que aprendi em sala de aula foi mais uma vantagem para fazer a leitura ser ainda mais gostosa. É um livro mais do que recomendado!

Fiquei com vontade de ler os outros livros da Karen Blixen, em especial A fazenda africana. Quem sabe um dia?

A festa de Babette já tem destino certo, vai ser um presente para o meu amigo Saulo.

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terça-feira, 10 de maio de 2016

Citações 151

De A elegância do ouriço:


O que faz a força do soldado não é a energia que ele concentra ao intimidar o outro, enviando-lhe um monte de sinais, mas a força que ele é capaz de concentrar em si mesmo, ficando centrado em si mesmo. 

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segunda-feira, 9 de maio de 2016

O que (eu acho que) tem de bom pra ler na net #112

1 - Gente que é o corretor do word da vida real: parem
Da Patrícia. Ela é muito divertida e aqui fala uma coisa engraçada e curiosa: às vezes, deixamos de ver o todo para nos apegar ao detalhe. E mais: quem se acha melhor que os outros é por quê mesmo?

2 - Carta para Jojô
Um texto lindo, lindo do André Rosa para a filha, Joana, que acabou de nascer. Aparentemente, será um pai maravilhoso.

3 - Obrigação de ser feminista: sou mãe de menina
Da Simone Miletic. Taí uma coisa que eu nunca entendi: por que alguns pais de meninas são machistas? Pra mim, o correto ou ideal seria que pais de meninas fossem feministas até o último fio de cabelo. A Simone explica bem explicadinho o motivo.

4 - Top 10 Kid Abelha
Do Inagaki. Com 10 músicas da banda que não é a minha favorita, mas que gosto muito. Gosto sim, me deixa, hahahaha!

5 - Feminismo é sobre liberdade de escolha?
Da Marjorie Rodrigues. Sobre o "escolher" ser bela, recatada e do lar. Marjorie aponta, aqui, que ser "do lar" nem sempre é uma escolha - pode ser apenas a única saída. E que é preciso problematizar essa questão.

6 - Fiscal da militância alheia
Da Patrícia, que é sempre maravilhosa. Esses fiscais, pqp... que necessidade é essa? Já que, no fundo, não querem saber a opinião de quem cutucam, por que cutucam?


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domingo, 8 de maio de 2016

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Só você

Hoje é um daqueles raros, que só acontece uma vez por ano.

Hoje é aniversário do Leo e tem início o curto período de tempo de quatro meses em que ficamos com a mesma idade. Porque logo vem setembro e volto a ostentar um ano a mais #velha.

E tem música, porque sim. E porque, como diz a música, "Eu tenho muitos amigos / Tenho discos e livros / Mas quando eu mais preciso / Eu só tenho você". Feliz aniversário, Peça Rara! 


De fé - Engenheiros do Hawaii


Sempre que eu preciso
Me desconectar
Todos os caminhos
Levam ao mesmo lugar
É meu esconderijo
O meu altar
Quando todo mundo
Quer me crucificar


Eu só quero estar
Com você
Ficar com você



Quando o tempo fecha
E o céu quer desabar
Perto do limite
Difícil de aguentar
Eu volto pra casa
E te peço pra ficar
Em silêncio
Só ficar



Eu tenho muitos amigos
Tenho discos e livros
Mas quando eu mais preciso
Eu só tenho você



Tenho sorte e juízo
Cartão de crédito
E um imenso disco rígido
Mas quando eu mais preciso
Eu só tenho você
Quando eu mais preciso
Eu só tenho você



Tenho a consciência em paz
(Só tenho você)
Tenho mais do que eu preciso
(Só tenho você)
Mas, se eu preciso de paz
Eu só tenho você
Tenho muito mais dúvidas
Do que certezas
Hoje, com certeza
Eu só tenho você



Eu tenho medo de cobras
Já tive medo do escuro
Tenho medo de te perder





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terça-feira, 3 de maio de 2016

Citações 150

De A elegância do ouriço:


Convém saber que, quando vai à minha casa às duas da tarde, na terça-feira ao sair do apartamento dos Arthens, na quinta vindo da casa dos De Broglie, Manuela já limpou com cotonete as latrinas folheadas a ouro e que, apesar disso, são tão sujas e fedorentas como todas as privadas do mundo, pois se existe algo que os ricos dividem a contragosto com os pobres, são os intestinos nauseabundos, que sempre acabam se livrando em algum lugar daquilo que os faz feder. 

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segunda-feira, 2 de maio de 2016

O que (eu acho que) tem de bom pra ler na net #111

1 - Pensando na morte
Do Darllan Cruz. Porque é inevitável pensar. Porque ela tá aí rondando. Porque tem horas que dá desespero. Porque sim, ora bolar. Texto lindo, tocante, irônico, forte.

2 - Bela, recatada e...
Da Bel, que é bela, recatada e do ar, do mar, da arte, da MK! E de mais um monte de coisas que ela pode escolher.

3 - Bela, recatada e do lar... NOT!
Da Polly, do Lugar de Mulher. Uma outra leitura sobre o texto da Veja sobre a vice-primeira-dama.

4 - Agora que a gente se fudeu
Da Nina Lemos, essa maravilhosa. Sobre o ser humano e sua complexidade de bugar cérebro de analista.

5 - Quem são as mulheres nas músicas dos Beatles
Da Kika Castro. Texto delicioso, pra variar, sobre as personagens dessas músicas lindas.

6 - Lançamento: Livro Lagarta Vira Pupa
Da Déa. Tá quase na hora do lançamento do livro dela, com a história do Theo. O melhor: vou rever a amiga que há tempos só convivo pela internet!


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


domingo, 1 de maio de 2016