quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Livro: As alegrias da maternidade



As alegrias da maternidade teve um sabor bem agridoce. Foi o livro de outubro da TAG, indicado pela musa Chimamanda Ngozi Adichi. Expectativa lá em cima, ainda mais que só ouvia elogios ao livro. Elas foram cumpridas sim - às vezes vale a pena criá-las. Foram até ultrapassadas.

A protagonista é Nnu Ego, filha de um ~aristocrata~ do interior da Nigéria. Pertence à etnia Igbo. Seu pai, Agbadi, tinha, como era o costume, várias esposas. Sua mãe, Ona, era amante, não esposa. Porém, era ela quem Agbadi amava. Quando Nnu Ego nasceu, foi abraçada pelo pai como filha preferida. Ona morre e Nnu Ego cresce seguindo o destino das mulheres: casar e ter filhos homens. Seu casamento com Amatokwu começa feliz, com os dois jovens apaixonados. Mas Nnu Ego não engravida, e o marido acaba tomando outra esposa, que logo fica grávida. O peso de não ter filhos, se ver marcada pela sociedade, logo toma Nnu Ego e, devido a um acontecimento com o filho mais velho da nova esposa do marido, ela volta para a casa de Agbadi. O pai devolve o dote e arruma um novo casamento para a filha.

Para se casar com Nnaife Owulum, Nnu Ego precisa deixar sua aldeia, Ibuza, e ir para Lagos, a capital da Nigéria, uma terra com costumes muito diferentes. Só o choque de culturas daria uma história cheia de coisas interessantes. Por exemplo: Nnaife trabalha lavando e passando roupas de um casal inglês. Para Nnu Ego, é uma afronta o marido lavar e passar as roupas de baixo de uma mulher. Para ela, um bom homem é aquele que trabalha na lavoura, fica queimado de sol e tem o corpo atlético pelo trabalho pesado. Nnaife é o contrário: barrigudo, a pele mais clara, delicado. Ela odeia o novo marido logo de cara. Mas aceita o destino de ser a esposa, de cuidar da casa, da comida do marido. E de lhe dar filhos.

A vida de Nnu Ego é um sofrimento sem fim. E é por isso que As alegrias da maternidade é agridoce. É um livro árido, uma história triste e forte. Ao mesmo tempo, é um mergulho lindo em uma outra cultura, cheia de nuances. A autora, Buchi Emecheta, viveu seus primeiros 20 e poucos anos na Nigéria, depois mudou-se para Londres e, mais idosa, para os Estados Unidos. Seu olhar para a Nigéria é crítico, com um toque ocidentalizado. Os costumes da Nigéria são colocados na roda: a primazia dos homens, a estrutura familiar, em que sempre alguém toma conta da família (e quando o homem mais velho morre, o que é logo abaixo dele na hierarquia ganha de ~presente~ as esposas e filhos do falecido), a expectativa de se fazer dinheiro com as filhas, por conta dos dotes, como se fosse um fardo que se transforma num investimento a longo prazo. E o olhar superior que os brancos têm com a África, fazendo com que os africanos acreditem que são inferiores e incapazes. O conflito entre a vida de Lagos, governada pelos brancos, com os costumes ancestrais de Ibuza, é bem interessante. O livro também mostra como os costumes vão ruindo com o passar dos anos. O fim do livro é muito impactante sobre isso, em especial com Oshiaju, o segundo filho de Nnu Ego.

Mas, principalmente (e é por isso que gosto mais ainda do livro), um olhar muito feminista, que capta as dores dessas máquinas de procriar, que só têm um mínimo valor quando são mães de meninos. E, especialmente por isso, a ironia do título é sensacional! Os conflitos de Nnu Ego com as filhas, para ensiná-las seu lugar inferior na sociedade, são muito difíceis de serem lidos, e ainda assim são brilhantes.



Há boatos de que As alegrias da maternidade sairá em breve - até o momento, é uma edição exclusiva da TAG.

O livro é lindo, tem um projeto gráfico incrível - confesso que fiquei vários dias babando no projeto, em cada detalhe, pensando no trabalho gostoso que deve ter sido criá-lo. Selo "Aline" de aprovação com louvor! Além disso, é uma história maravilhosa, dessas que ficam dias e dias ressoando na mente. Amei!


Da Chimamanda, já tivemos por aqui:
Os perigos de uma história única
Hibisco roxo
Meio sol amarelo
Sejamos todos feministas

Tenho Americanah, mas ainda não li.


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...