quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Livro: O nascimento de Joicy




A primeira vez que ouvi falar em O nascimento de Joicy foi na disciplina de Metodologia do mestrado. Uma das professoras leu o início do livro e foi como tomar um tapa na cara. Fiquei bem a fim de ler, mas estava envolvida com... a própria metodologia da minha pesquisa, que me fez usar três propostas metodológicas diferentes e foi bem estressante.

Pois bem. Em 2017, a autora, Fabiana Moraes, veio para o Ciclo de Jornalismo e Literatura do Fórum das Letras e lá fomos, Luana (essa queridona) e eu para assistir. A mesa foi composta pela Fabiana e pela Daniela Arbex, que escreveu Holocausto brasileiro (livro que ganhei dos queridos Marcelo e Debora e ainda não li), e mediada pela Marta Maia, que foi minha professora no mestrado. Quando mais a Fabiana falava, mais vontade eu tinha de ler o livro e as demais matérias especiais que ela produziu para o Diário do Commércio de Recife/PE. Ao fim da mesa, não havia O nascimento de Joicy para vender (havia os da Daniela Arbex). Luana e eu compramos, então, pela Amazon. O livro chegou e foi devidamente colocado na pilha pra ser lido.

A narrativa é dividida em três partes. A primeira é a série de reportagens que Fabiana fez com Joicy, a próxima a fazer a cirurgia de redesignação sexual. Joicy nasceu João, no sertão de Pernambuco. Enfrentou muito preconceito, até mesmo na fila para a cirurgia. Por não ter corpo e adornos femininos, demorou mais que o tempo determinado na terapia. Não era vista com paciência pelos profissionais da saúde. Joicy tem uma personalidade forte, o que causou problemas com familiares, pessoas de seu convívio e pessoas com quem precisou lidar para conseguir a cirurgia. A história é triste e muito forte. Com ela, Fabiana ganhou o Prêmio Esso, o maior do jornalismo brasileiro.

A segunda parte traz desdobramentos da reportagem, para a jornalista e para Joicy. O que aconteceu após a cirurgia para ambas. Como conviveram, como se comportaram, as implicações do novo corpo para Joicy. Sua vida na pobreza, que continuou. A relação truncada com Fabiana.

A terceira parte tem uma reflexão mais acadêmica sobre ética na profissão do jornalista, em especial na relação com a fonte. É uma verdadeira aula, atualizada. Novos conceitos, novas implicações.

Durante a leitura, marquei alguns pontos interessantes. A cirurgia de redesignação sexual é realizada pelo SUS, após vários anos de tratamento, que envolvem acompanhamento psicológico e psiquiátrico. É uma cirurgia sem volta, então é necessário que paciente e equipe médica tenham muita certeza da decisão. Há uma pesquisa que aponta que o hipotálamo de homens que se reconhecem como mulheres tem glândulas compatíveis com o corpo feminino. Ou seja: o cérebro é programado para um gênero, enquanto o corpo, para outro.

A cirurgia só é oferecida no SUS porque a transexualidade é classificada pela OMS como um transtorno de personalidade. Há, na primeira parte do livro, um ponto em que Fabiana toca na questão do sofrimento, do tamanho do sofrimento. Porque há quem questione que o SUS faça a cirurgia, enquanto poderia investir em outros tipos de atendimento mais básicos. Porém, quem sofre com um corpo que não reconhece sofre mais ou menos? É possível medir?

Outro ponto importante é sobre o gênero. Lembro demais de uma amiga quando me contou que tinha se descoberto transgênera. Até então, enquanto se entendia como homem, ela achava que era gay, pois se sentia atraída por outros homens. Depois de muita terapia, reconheceu que seu gênero era o feminino, enquanto seu corpo era masculino. Assim, foi fácil para ela entender que era hetero. Porém, como acontece no livro, as pessoas ao redor reconheciam um homem gay. Fabiana mostra como Joicy lutava diariamente para ser reconhecida como mulher pela família, pelos vizinhos, pelos amigos. Dado curioso: as crianças do entorno de Joicy tinham mais facilidade em respeitá-la enquanto mulher.

Só tenho a dizer que é um livro maravilhoso e que merece ser lido por todos os estudantes de jornalismo. E pelos jornalistas atuantes também. Muito do que tem no livro - pra não dizer todo ele - é necessário. É uma aula de escrita e narrativa jornalística, de discussão da produção de jornalismo.

E o Stênio, o queridão que foi meu estagiário e hoje brilha no mundo do trabalho profissional do jornalismo, vai receber o livro de presente!


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...