quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Livro: Ruído branco


Culpa do Yuri do Livrada!, Ruído branco estava na minha lista de livros por ler há algum tempo. Comprei e fiquei com ele na estante por um tempão até que chegou o dia. A leitura foi muito rápida: comecei dia 21 e terminei dia 24 de dezembro.

A história é muito envolvente, mais pelos diálogos e pelas relações da família de Jack, o protagonista narrador, do que pelo enredo em si, mesmo que este também seja muito bom.

Jack é professor universitário numa cidadezinha do interior dos Estados Unidos. Sua universidade parece ser beeeeem de Humanas e beeeeeem flexível com os cursos oferecidos. Jack é especialista em Hitlerologia e é, também, o coordenador desse curso. Em alguns meses, a universidade vai receber um evento de Hitlerologia e Jack, que é sumidade no assunto, não fala alemão e tem medo de passar vergonha. Um dos professores da universidade, Murray, que tenta emplacar um curso sobre a vida de Elvis Presley, nos moldes do de Hitlerologia, oferece um professor de alemão e Jack se vê às voltas com o novo idioma. Aliás, Murray é como se fosse o grilo-falante de Jack, sempre com temas muito loucos nas conversas. Já falei que os diálogos são ótimos, não é?

Jack é casado com Babette e a relação dos dois é muito interessante. Ambos vêm de relacionamentos e filhos anteriores e formam uma família bem divertida, com cada um com a personalidade muito bem delimitada. Jack é pai de Heirich e de Steffie, além de Bee e Mary Alice, que não vivem com ele. Babette é mão de Denise e do bebê Wilder, além de outro garoto que vive com o pai. E a família é super integrada, como se fosse uma colcha de retalhos absurdamente harmônica. Babette dá aulas de postura para idosos e está sempre envolvida em coisas que ajudam pessoas, tipo lendo jornais sensacionalistas para cegos (e as notícias desses jornais são ótimas!).

A vida da família e dos amigos segue um ritmo bem normal, com compras e encontros no supermercado, com as conversas surreais entre o corpo docente da universidade e Babette passando roupa, tudo entremeado pelo rádio ou pela televisão. Até que um caminhão que levava resíduos tóxicos tomba perto da cidade e forma uma nuvem tóxica que alcança a cidade. A partir daí o medo de cada personagem vem à tona, levando a várias situações muito loucas (parece propaganda de Sessão da Tarde, mas é tudo muito louco mesmo), até culminar na terceira parte do livro, em que a explosão do medo interior de cada um, aliado ao maior e mais constante medo da morte, leva a uma situação tão surreal quanto as passagens em que Jack repete seu plano infinitas vezes, enquanto as coisas se desenrolam.

Foi uma das melhores leituras do ano. Foi uma delícia ler os diálogos e as situações inusitadas em que a família de Jack se coloca. Foi muito louco me ver confrontada com a forma que o meu medo da morte assume. E com outros medos que surgiram ao pensar em minha própria morte. Espelhando um diálogo do Jack com a Babette, perguntei ao Leo quem de nós deveria morrer primeiro. Segundo ele, se for eu, ele teria que arrumar uma coroa bacana para resolver os problemas dele. E ela ficaria responsável por dar um fim aos meus livros. Demos boas risadas com isso, mas alguma coisa ficou, ainda mais depois de ter tanta coisa de pessoas já falecidas pra resolver: minimalismo é o canal. Até mesmo porque o livro esfrega na nossa cara o consumo excessivo, a realização pessoal pelo poder de compra, o supermercado como lugar de encontro social. Um tapa bem dado.

O livro foi muito importante pra mim, e mais do que justo que ele saia da minha estante e vá visitar outros leitores. Postei no Twitter que enviaria o livro pra quem quisesse recebê-lo, e a queridona da Jullyane é quem vai ficar com ele.


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...