domingo, 25 de fevereiro de 2018

Citações #225

De Mastigando Humanos:


Mas nenhum de vocês deveria me recriminar. Duvido que saibam o que é ser um jacaré e, mesmo assim, ainda não conseguem abandonar seus estímulos orais. Por isso o cigarro entre os lábios, o copo na mão, o chiclete na boca. Por isso o beijo de boa-noite, o café da manhã, a bomba de chimarrão. Os que conseguem transcender isso não conseguem deixar de contar vantagem: falar, falar, falar para manter a língua trabalhando. É inevitável. Ou ainda com os dedos, sim, aqueles que falam com as mãos, os dedos, sinais de surdo-mudo, escrevendo livros. 

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Livro: A praça do diamante



A categoria 10 do Desafio Livrada! contempla "um livro que se passa em um lugar sobre o qual você não sabe nada". Em um primeiro momento, A praça do Diamante é sobre a Espanha e eu sei algumas coisas sobre ela sim. Mas, de fato, a autora, Mercê Rodoreda, é catalã. É uma das pessoas que foi exilada da Catalunha e se posicionou como uma voz contra a dominação espanhola. O que eu sei sobre a Catalunha? Quase nada. Por isso, o livro entra na categoria 10.

Além disso, A praça do Diamante foi o livro de dezembro de 2017 da TAG, com curadoria da Carol Bensimon. E que livro lindo!

Natàlia é uma moça simples, que trabalha em uma confeitaria e está noiva de Pere, um cozinheiro. Em uma festa na praça do Diamante ela é convidada para dançar. Quem a chama é o Joaquim, ou Quimet, um jovem bastante impetuoso, que diz a ela que, dali a um ano, os dois estariam casados. Como Quimet a envolve, Natàlia desmancha o noivado com Pere, pede demissão do emprego e se casa com Quimet. Os dois vão morar em um apartamento pequeno e começam uma vida de casados com muitas particulares. Ele é marceneiro e adora fazer coisas diferentes, é caloroso e brincalhão. Ela tenta acompanhá-lo nas maluquices, até que é surpreendia por pombos. Quimet monta um pombal em casa e Natàlia, que ele chama de Colometa (ou pombinha, em catalão) quase enlouquece com os pássaros tomando conta de sua casa.

O ponto mais interessante do livro, pra mim, foi o retrata da Guerra Civil espanhola e o que aconteceu com os guerrilheiros comunistas. Quimet e seus amigos Cintet e Mateo estavam desse lado do front e sofreram consequências. Na altura da guerra, Colometa e Quimet já têm dois filhos, o Antoni e a Rita. Quimet sai de casa para seguir com os guerrilheiros e a esposa e os filhos passam por muitas dificuldades. A guerra acaba e traz mais mazelas para a família. Olha, foi duro atravessar essa parte. Uma das decisões da Colometa pra salvar a família é muito dolorosa. Terminei de ler chorando bastante.

O final também me emocionou muito. Colometa carregou as marcas da guerra por muito tempo em sua vida. Um período longo que a prejudicou muito. Mas ela pôde, enfim, se abrir para o novo mundo em que passou a viver. Ao fim do volume, a autora traz um posfácio em que fala sobre o amor no livro. E, sim, é um livro sobre o amor. Mesmo que pareça ser só sobre sofrimento. Colometa sofre muito, mas também ama. E a sua abertura para viver um amor bem acabadinho, mesmo com limitações, é tão linda! Dá para fazer um paralelo com a reestruturação da Catalunha após a guerra, com as feridas abertas e pulsando, tentando voltar "ao normal" sem conseguir. Não que as feridas tenham cicatrizado... mas é preciso seguir.

A princípio, a Colometa parece ser uma moça bobinha, que sabe pouco do mundo e que é levada por Quimet para onde ele quiser. Aos poucos, ela se mostra uma mulher forte, que não titubeia e vai atrás da felicidade dos filhos, que por eles é capaz de qualquer sacrifício. O Quimet, por sua vez, seria chamado hoje de "macho escroto", que quer a Colometa bem debaixo da asa dele. Ok, eram outros tempos. Porém, se ela não tomasse decisões, as rédeas do seu próprio destino, a família iria sucumbir mais rápido. Um viva à Colometa!

O que aprendi sobre a Catalunha com o livro: o outro lado da guerra civil espanhola (que eu já conhecia, em parte, em Por quem os sinos dobram, mas não com a caracterização geográfica), traços de uma cultura diferente da espanhola, os diminutivos para os nomes masculinos, que a dominação capitalista está aí pra vencer qualquer guerra, não importa realmente qual seja. Que a Catalunha ainda vai resistir para se separar da Espanha, com plebiscito ou não. Que a cultura de um povo é maior que o marco político-geográfico.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

O que (eu acho que) tem de bom pra ler na net #164

1 - Eu passarinho: Assédio 3x ao dia
Do Primeira Fonte. Sobre a cafonérrima da Danuza Leão falando bobagem por aí, confundindo assédio com flerte, intromissão com consentimento.

2 - Oprah vira arauto de um novo tempo no discurso do Globo de Ouro
Da Lady Bug. Que discurso, que momento!

3 - Seu cérebro não é um computador (ou: como lidar com o excesso de informação no doutorado?)
Da Verônica. Me fez lembrar muito Um estudo em vermelho quando Sherlock explica pro Watson como funciona sua memória. É o que eu penso (fui contaminada pelo Sherlock sim): no excesso, a gente acaba não levando em conta o que é principal.

4 - Os peitos da Bruna Marquezine e porque você não tem nada com isso
Da lindona da Dreisse. Sobre ter peito de publicidade/cinema, sobre ter peito de ser humano mesmo, sobre se amar como se é. Muito bom, Dreisse!

5 - BBB 18, Jéssica e o machismo nosso de cada dia
Outro da Dreisse. Sobre a situação em que duas pessoas se envolveram no BBB, ambas com relacionamentos externos, mas o julgamento cabe apenas à mulher (que, além de ter traído o namorado, "atiçou" um homem noivo). Lamentável, para dizer o mínimo, que só as mulheres recebam essa carga de culpa.

6 - We are building a dystopia just do make people click on ads
Do TEDTalks, sobre como o autoritarismo tem entrado de mansinho nas nossas vidas via internet, seus algoritmos e intenções comerciais. Assustador.


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


domingo, 18 de fevereiro de 2018

Citações #224

De Mastigando Humanos:



Se eu fosse narrar meus dias seguintes naquelas profundezas, seria assim, uma descrição sem cessar de abrir e fechar de bocas. Foi isso o que eu fiz, mastiguei. Em meio a gritos e risadas, cantorias e palmas. Considerando essa passagem da minha vida, poderia batizar este livro de Mastigando manos. Eram drogas demais sendo resgatadas pelos meninos no Achados e Perdidos. Eram meninos demais sendo apanhados por mim no meio do caminho. Adolescentes. Filhos do milho. Perdi a conta de quantas camisetas do Ramones tive que cuspir.  

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Desafio Livrada! 2018

Há algum tempo, o Yuri, do Livrada! propõe um desafio literário (o vídeo do desafio de 2018 está aqui) com algumas categorias não convencionais. Todo ano eu faço a minha listinha, coloco no Evernote e vou tentando ler. Nunca consegui completar o desafio. Este ano, vou lá de novo. Desta vez, resolvi trazer pra cá, pra ver se assim eu tomo vergonha na cara e leio mais. Vou comentar minhas escolhas abaixo. E vou tentar seguir à risca, podendo mudar se sentir necessidade.

1. poesia nacional contemporânea:  Eu, poeta, Juliana Machado Cruz
A Ju é minha amiga e uma grande poetisa. Li Eu, poeta antes de ser lançado e depois também, e acho que merece uma relida, porque é lindo demais e eu quero incentivá-la a publicar um novo livro. Poesias pra isso eu sei que ela tem. 

2. distopia: Nós, Zamiatin
A distopia que inspirou a minha distopia favorita. Comprei o livro assim que foi relançado e ainda não tirei da estante. Tá na hora! 

3. abordagem metafísica: A montanha mágica, Thomas Mann
Já estou lendo A montanha mágica, desde o início de janeiro. Foi-me indicado por tanta gente... mas a que mais insistiu para que eu lesse foi a Guiomar de Grammont, que foi minha professora e sempre me incentiva a ler, a escrever e a seguir carreira acadêmica. Está sendo uma leitura muito prazerosa. 
Update: nada de terminar A montanha mágica... vamos de A morte de Ivan Ilitch. 

4. livro de história: Sapiens, Yuval Harari
Mais um que comprei assim que foi lançado e que não li. Bora tirar da estante! 

5. livro narrado em primeira pessoa: O cemitério de Praga, Umberto Eco
Tenho o livro há tanto tempo na lista dos "por ler" que dá até vergonha. Adoro a prosa do Eco (vivo uma relação de amor e ódio com ele, mas o amor sempre vence, hahahaha). 
Update: li Mindhinter e encaixei nessa categoria. Quero muito ler O cemitério de Praga, mas acho que não vai rolar. 

6. romance hispano-americano: 2666, Roberto Bolaño
Saulo tem grande influência nesta escolha, só isso que digo. 

7. livro experimental: S, J. J. Abrams
Comecei a ler ano passado e não terminei. Estava gostando muito, mas parei por motivos acadêmicos. 

8. um título impactante: Vida e destino, Vassili Grossman
Foi o livro obrigatório de 2017, que comecei a ler e não terminei. Bom motivo pra finalizar, né?

9. livro ilustrado: Arca de Noé, Vinícius de Moraes
É sempre bom reler essa delícia de livro!

10. livro que se passa em um país sobre o qual você não conhece nada: Os meninos da rua Paulo, Ferenc Molnár / A praça do diamante, Mercé Rodoreda

11. contemporâneo a si mesmo: Americanah, Chimamanda

12. livro lançado no ano em que você nasceu: O buraco da agulha, Ken Follet / O livro do riso e do esquecimento, Milan Kundera
Ainda não me decidi

13. livro sobre música: Ragtime
Livro da TAG de agosto de 2017. Ainda não lido. Pelas críticas que vi, merece muito uma chance. 
Update: Ragtime ainda está na estante. Mas Só garotos, da Patti Smith, foi lido e se encaixa aqui! 

14. livro sobre um tema que você acha tabu: Lolita, Nabokov
Pedofilia sempre é tabu, certo? Por outro lado, já ouvi muita gente dizendo que a prosa do Nabokov é excelente. 


15. o obsceno pássaro da noite, josé donoso
Sempre há uma categoria com um livro obrigatório. Em 2018 é este O obsceno pássaro da noite.

Será que dou conta de concluir o desafio?

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


domingo, 11 de fevereiro de 2018

Citações #223

De Mastigando Humanos:


E dos esgotos do Brasil? Alimentava-me eu. Além da química que circulava dentro de nós, havia toda a química das correntes subterrâneas da qual eu não podia escapar. 
E a química dos produtos industrializados. A química da carne humana. A química do ar que respiramos, da palavra que dizíamos. A vida é uma longa intoxicação até a morte.  


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


domingo, 4 de fevereiro de 2018

Citações #222

De Mastigando Humanos:


"E você, não troca de pele de vez em quando?", ele perguntou. Me senti diminuído. Não, aquilo era coisa de outros répteis. Serpentes que deixavam as escamas para trás. Eu, como jacaré, me trocava sutilmente, como os humanos. Como humanos, que trocam de células diariamente, que fazem a barba, cortam o cabelo. Colocam roupa por cima, bonés na cabeça, luvas nas mãos, mas mesmo assim todos percebem. São atraídos pelo design dos decotes e a coloração das meias, espiam por fendas e buracos, comentam como ficou lindo um novo bronzeado. A pele pálida o inverno. Os olhos vermelhos de choro. Os humanos sempre reparam, mesmo com tanta roupa por cima. 

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...